domingo, 25 de novembro de 2007

Oscilação


Fascina-me viver à beira do precipício, perto de cair no vício. Inspirar vertigem, turbulência, frenesi, inconstância!
Odeio profundamente os hábitos, os costumes, a rotina, o raio da engomadeira do Cesário Verde. Ignoro radicalmente as tradições, os convencionalismos, as formalidades. Repugnam-me. Entediam-me! Não é que repele o que me é impróprio, aliás, é a corporização do desconhecido que me personaliza. Experimento. Mas não metamorfoseio para o impróprio.
Sinto que voo, que sou garra do impulso quando rebento de espontaneidade.
E isto é noite em mim. Furacão. Na noite as pessoas são mais elas próprias, despem-se de preconceitos.
Mas o auge não precisa de ser sempre fúria. Grito! Choro! Alarigo! Gargalhadas! Pode ser apenas um sopro de silêncio, um rubro no rosto, um pasmo. E o mergulhar na sensação, o explorar das arestas de um corpo quente e vaporoso.
Até que me canso de beber das escorregadias águas do vício...
Findo o máximo, que rola alucinação e força fora, abarco no silêncio. Dispo-me e despeço-me das roupas de Março, e preparo-me para o frio do dia de hoje, Janeiro.
Madrugada em mim.
A fadiga das palavras, da socialização, da própria oscilação vibrante.
Entra em cena o clímax da perdição em rua choradia… onde fantasmas de sentimentos insistem em assombrar-me, esticando para mim as suas mãos carentes e possessivas, baloiçam inquietantes pelos tectos da alma…
Contra-ataco. Ergo dentro de mim paredes de gelo, feitas de tijolos de indiferença e de cimento anti-sentimentalista. Insensibilidade.
A cortina de neblina matinal, o orvalho de ópio, protegem-me das borboletas nocturnas. Agasalho, ilusão. Os indícios de saudade da noite que sopram levemente na pele… Não deixo que me traiam, que me mordam o pescoço!
Sou desatino, oscilação: madrugada plácida e tempestade tumultuosa.
E no fim de tudo isto, acabo só, a mendigar umas medrosas e sujas migalhas de afecto...

sábado, 20 de outubro de 2007

Contrariedades


Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.
Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

(...)

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias(...)

Que mau humor!
(...)
Cesário Verde
. Sim. Todos temos dia-sim e dia-não.
Inconstância perturbadora.
Num dia desejamos o afecto e no outro amamos o desprezo.
Num dia somos felicidade radiante e no outro angústia, fúria, a simplicidade do estúpido mau humor. Ou mesmo a intrigante apatia.
E a propósito de nada... As pessoas não têem de fingir sentimentos, dissimular o (não) valor que as outras têem para si. Da mesma forma que não teem de conter/ocultar as vontades: a inocente vontade de querer estar por perto e próximo, a perversa vontade, a vontade que é o sentimento.
Espontaneidade! Espelho!
A nossa forma de agir deveria espelhar o sentir.
E viva o impulso. "Que se f*da a intelectualidade, que nós queremos é paixão."
Lanço-me impulsivamente, entrego-me toda. Sempre. Todas as vezes. Todos os dias. A toda a gente. Iludo-me. Envolvo-me. Sinto sempre que preciso de todos. E que todos precisam de mim. E quando me fecham uma porta, sinto que se fecharam todas, julgo que não existiu nunca alguma. Afinal, todo este tempo foi uma mentira. Não existe o mundo inteiro de mãos dadas. Nós de mãos dadas... a felicidade... tudo isso não passa de uma sensação efémere. Obrigado por, às vezes, agirem como se se preocupassem realmente. Obrigada por essa ténue mentira perfeita. Contudo, porque continuo eu a acreditar no amor...? E a rotular a espontaneidade e o improviso de "ideais"? Porra! Confusão.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

...


Yerka Jacek




Esculpo a máscara, que nos meus sonhos é o rosto do amor-perfeito, com o mármore dos teus ossos.
Embalsamaria os nossos corpos, em ligaduras de linho e bálsamo suave, para mumificar o sentimento. E o nosso sarcófago seria caixinha de magia e segredos, pausando na terra dos sonhos.
Agora as asas do tempo já não bateriam mais, não levantariam a poeira que traz a velhice, a exaustão do afecto.
Seriamos almas vagabundas, dançando a cintura nos arcos do amargurado Saturno.
Murmurariamos sopros de fogo, que nos saltariam de boca para boca.
Trajados de nudez e tinta, rebolariamos por uma pauta musical fora. Traçando-lhe oscilações melodiosas, desenhariamos uma ópera romântica que é carta de amor.

A falua que perfura o mar de nuvens do meu relutante imaginário, tem um leme, feito das lascas de madeira da tal caixinha de segredos. Essas lascas são como fósforos que acendem ao fogo da minha boca. Onde está o meu homem do leme, aquele que acende cigarros com fósforos e que fuma dos meus segredos?

Escrita automática


Joan Miró

“E é assim que me sinto. Engaiolada numa envidraçada bola de sabão. Olho o céu em cinza e as nuvens não passam de giz. E as arestas das formas não são mais que um traço a carvão. A cor do dia limita-se à aguarela tingida no papel que tudo é.
Diria que sinto os martelos das teclas agudas de um piano velho a baterem-me dentro do peito, que o canto me possui o corpo e eu lhe dou voz e fôlego para rebentar em fulgor de amor.
Sei de cor o odor do mar, a textura e as fissuras das pedras de outro universo, os mistérios e segredos desse sonho sobre que tu dormitaste em flagrante noite de pura ingenuidade.
Criança e convalescença, é o sabor da autoria desse sangue por ti pisado e por mim derramado. (...) esse éter do segredo embaciado.
Não sou mais que uma laranja sem fronte nem hoste.
Não sou mais que a vela de um barco em fuste.
- Adentro mar agreste sem leste!
Porque ele é marinheiro.
E cavalga comigo numa falua em nuvens de espuma.
Sopra pétalas brancas de lua flauta fora.
E reinamos num castelo de areia, rodeado de rosas de espuma, onde sou princesa de violeta em veludo.
Somos piratas clandestinos de pesadelos e agonias!
Duendes azuis cintilantes cobrem-nos de chuva doirada e pirilampos invisíveis!
E aqui estamos nós dois no mundo do cubo transparente. Onde o tempo é passado, presente e futuro a tempo inteiro.
E deixas cair migalhas de ouro, para que o sonhador do outro mundo nos encontre, enquanto persegue borboletas e inexistências com a rede que não trás ao ombro dia sim, dia não.
Porque a paz, é fenda ténue, é o fio de seda roxa que não te laça a mim. E isto para mim é ferida e é sangue, é dor e é lamento, é peso, agonia, cardume de incertezas que flúem neste oceano que é o sentimento.”

“Escuto sinais do canto Flausino que me sonhas… leio retratos de memorias que não aconteceram.”

“Fogueiras de recordações de onde saltam sorrisos e brinquedos. A depressão e angústia do abandono e (...).”

“Sou farrapo de teatro, que bailo numa caixa de música, encantada por sopranos de violinos.”

domingo, 14 de outubro de 2007

Publicidade Comercial

objecto publicitado: perfume "Amor-amor"

banda sonora: "Pretty Woman", Elvis Presley

interpretes: Nu e Nuno Miguel

câmara: Inês Luís

Técnico: Oleskiy Borsenko

( xD )

Cenário preto e branco e Música antiga -> passado + Slogan e logotipo colorido -> presente = o produto está sempre na moda

. os intérpretes são jovens, e de ambos os sexos, sendo o produto juvenil e unissexo.
. a sensação de tranquilidade que a natureza transmite, contrasta com o transtorno dramatizado pelos intérpretes, mas no final, os intérpretes estão felizes, em harmonia com a natureza, então, o produto é a solução para todos os problemas. Comprovamos que o seu aroma é fatal no momento em que os olhares das personagens frustradas se encontram.
. slogan: “Amor-amor, aroma sedutor,
paixão em furor.
As palavras-chave estão destacadas, assim sobressaímos a ideia de que o perfume Amor-amor tem para oferecer o poder da sedução e o furor. Além disto, a rima e o jogo de palavras entre “amor” e “aroma” atribui-lhe uma maior ênfase, ficando no ouvido.

Trabalho realizado no âmbito da disciplina de Português.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Filosofia, Ciência, Lógica


-Através das matérias complexas como a Filosofia e a Ciência, o Homem pretende alcançar a verdade universal. Para que tal objectivo se concretize, precisa de usar a ferramenta essencial: a Lógica.
Comprovemos.

Para chegar à verdade universal, o Homem enquanto filósofo, filósofa, isto é, pensa, mais concretamente, usa uma diversidade de faculdades – raciocinar, avaliar, criticar, comprometer, abstrair de crenças, de preconceitos, de probabilidades, da própria imaginação, das suas estruturas subjectivas (o que implica que tantas vezes se autodestrua, reconstruindo-se seguidamente com novas ideias) – para que consiga traduzir uma determinada realidade, no mundo das ideias, e, evidentemente, transcreve-la para o exterior, pois como sabemos o pensamento é absolutamente indissociável do discurso.
Além do mais, o Homem deve discursar. O que quero dizer é que, vivendo o Homem inteiramente dependente do outro – e depende também das instituições – tem obrigação de contribuir para a sua felicidade, e uma forma de o fazer é respeitando-o. Tal respeito é demonstrado (por exemplo e com grande importância) através da transmissão dos seus conhecimentos, isto é, tanto simplesmente partilhando as nossas conclusões, como revelando a nossa insatisfação face às suas perspectivas, que tantas vezes achamos não se ajustarem à realidade. Desta forma, contribuímos para o crescimento e desenvolvimento da sua pessoa – e quando digo “pessoa”, refiro-me, humanistamente, ao sujeito que é livre, participativo, activo e espontâneo, e refiro-me, filosoficamente, ao sujeito que age de forma livre e voluntária – conduzindo-o ao caminho para a felicidade.
Esta atitude cooperativa, não é se não, um passo adiante para o sucesso do grande desafio e conflito da humanidade: a comunidade das antagónicas culturas, a união global.
É também de focar, que, ainda que o Homem exija de si o ciclo da constante aprendizagem, não poderá nunca alcançar o conhecimento máximo, por este ser infinito - o que nos leva ao redimir perante as informações disponíveis - e por termos de nos limitar às nossas estruturas subjectivas e cognitivas.
Falava eu do lado benéfico do diálogo, mas precisamos também de atentar para o seu lado prejudicial. Passo a explicar, no nosso dia-a-dia, somos constantemente “bombardeados” com informação que, certas vezes, não corresponde à realidade, e contudo aparece inserida num discurso válido – isto é, num discurso aceitável por ser lógico – a mentira, e também a ilusão. Temos o bom exemplo da publicidade politica – que retrata uma atitude politica que contradiz o seu próprio principio, pois o seu objectivo seria supostamente a organização, a união, e não o desequilíbrio alimentado pelos privilégios governativos. Ora, esta mentira/ ilusão, é capaz não só de nos influenciar, como também de manipular, pois o emissor da mensagem domina a persuasão. A persuasão define-se como o poder do convencimento, a capacidade de discursar validamente, através do emprego do argumento, que por sua vez se define como a materialização do raciocínio, que tem como base a premissa, e é esta que nos induz para uma nova proposição, isto é, a conclusão.
E é precisamente isto que a persuasão na filosofia pretende, induzir a condução de certas observações particulares para enunciados universais, neste caso então, a sua intenção não é benéfica maliciosamente.
Mas, apartando-nos deste último ponto, focando a questão da mentira e ilusão, temos factuado que a linguagem é ambígua, equivoca. E não só quando se trata de persuadir, mas também porque o dialecto comum não é rigoroso (no entanto temos vindo a desenvolve-lo de época para época).
Dito isto, concordamos que devemos censurar Aristóteles, quando este creu que o conjunto de sinais ou símbolos a que atribuímos o nome de discurso, se assemelhava às ideias, a matéria-prima do pensar.
Congeminando agora acerca da atitude do Homem enquanto cientista, buscando a verdade universal.
Diz-nos Karl Popper que, é sempre possível discutir os pressupostos da Ciência nos quadros da racionalidade. Enquanto que na filosofia falamos de indução – o raciocínio que tira uma conclusão a partir de afirmações de factos observados, ampliando os nossos conhecimentos ( e eu chamar-lhe ia persuasão) – na Ciência falamos de conjectura - o que Popper que dizer é que, uma teoria é tanto mais forte em termos científicos quanto maior for a sua capacidade de resistir às tentativas de a falsificar.
Tal como vemos acontecer na complexidade Filosófica, diz-nos Thomas Kuhn que a Ciência de desenvolve dentro dos limites institucionais, sociais e cognitivos que são impostos ao cientista, pela comunidade cientifica em que trabalha.
Relacionando estas ideias, podemos dizer que o Mundo que nos rodeia é o laboratório do filósofo.
Concluindo, para que no nosso quotidiano sejamos capazes de distinguir a mentira da verdade, para que o sentido da nossa vida não se cinja a uma realidade ilusória, para que alcancemos a verdade universal da Filosofia e da Ciência, precisamos da Lógica.
A Lógica, define-se como a Ciência que estuda o próprio pensamento e, em simultâneo, é o seu essencial instrumento.
Não esquecendo que o pensamento é indissociável do discurso, podemos dizer que a lógica funciona como a matemática do pensamento e a gramática da verbalização, e ainda, compreendemos que assim como devemos pensar de uma forma lógico-formal – conjunto de métodos e regras do pensamento – devemos também discursar de forma rigorosa, coerente, clara (quanto à significância), fundamentada e consistente.Empregando a Lógica, desenvolvemos a técnica que nos permite avaliar correctamente tanto os nossos próprios argumentos como os argumentos dos outros, por muito complexos que eles se aparentem, demonstraremos a razão das nossas opiniões, pois saberemos fundamentá-las e aumentaremos a velocidade e eficácia do raciocínio, e ainda, seremos capazes de “Criticar as falhas inevitáveis dos raciocínios dos sábios ou dos outros seres humanos, falhas imputáveis seja à distracção, seja à fadiga ou à paixão, seja à subtileza do raciocínio que ultrapassa as capacidades intelectuais do individuo.” Maurice Gex


trabalho elaborado no âmbito da disciplina de filosofia.

domingo, 7 de outubro de 2007

Sinais


As luzes dançam nas águas profundas do rio.
E nós… nós somos “todo corpo”. Somos suor e lágrimas de arrepios. Saudade do próprio instante. Representamos o querer e declamamo-lo desenfreadamente.
Pintamos perfume de paixão, e somos canção de amor que agasalha os inocentes. Canção de fervor.
E as palavras libertam-se para retratar as agitações: o frenesi, o abalo.
Uma viagem à beleza do inconsciente.
(E tu és bárbaro porque me ignoras e voltas.)
Decoramos cada feição do instante e todo o constante é tão fugaz!
Calor das mãos com que travas jornadas pelo meu corpo fora. E eu solto mais suor e lágrimas de arrepios.
A única constância dos nossos passeios, dançados pela calçada da noite, é a loucura: o irracional e o excessivo.
Por isso todos os momentos são o infinito efémero. Porque saboreamos a cor de cada pedaço de tempo e decoramos cada face um do outro.
E no fim do encontro travamos guerras contra as vontades. Porque quando o encontro acaba, a cidade à volta ruína. Mas nós preferimos assim. Beber do silêncio, alcançar a máxima amargura: o desejar rasgar a pele, que sente suave afogo que já não toma.
Preferimos a distância do perfume do corpo um do outro. Fingir uma fúria de cansaço. Para que o fogo não se extinga nunca. Para que tudo seja sempre tão deslumbrante como no primeiro encontro. Para que a magia do primeiro olhar perdure sempre e sempre aspire labaredas azuis.
E eu não consisto em nada mais que tudo isto. Consisto em ti. Consisto na empatia e na intimidade. Consisto no sentimento que somos.
O dia madruga.
Quarto minguante, nosso berço, já não está.
Fumo um cigarro pensativo e sopro nuvens de ânsia e desafogo.
Ficam os sinais: os vestígios que marcam o sentido de noite, e os da tua pele.

sábado, 6 de outubro de 2007

The Barn - Paula Rego


A minha interpretação da pintura foca-se essencialmente na história das personagens centrais, lendo o restante como objecto de apoio/ alimento ao conflito principal.
Segundo a minha perspectiva, o sujeito artístico pretendia levar o leitor da ilustração à reflexão acerca da busca pelo conhecimento e da sexualidade/maternidade.
A protagonista é a menina do vestido branco, cujo objectivo era o alcance do conhecimento verdadeiro, um momento de epifania, a revelação total, a essência, o auto conhecimento, o amor-próprio.
Tal ideia fora-me sugerida pela presença do girassol e do narciso; passo a explicar, o girassol segue o sol, e o sol remete-me para a simbologia de “Iluminação/conhecimento”, enquanto que o narciso me imediata para a ideia do amor egocêntrico.
A menina do vestido branco, convicta do misticismo oriental, guiou-se pelas ideias esotéricas para alcançar o seu objectivo, movida pela iniciativa que o martelo sugere; o martelo, que representa o operariado urbano, sugere força, que sensacionalmente me inclina para a ideia de iniciativa.
Como sabemos, “O Kamasutra” é uma obra oriental, que além de ser um guia que nos conduz ao prazer, visa acima disso, elevar ao Homem espiritualmente.
Partindo deste princípio, a menina do vestido branco quis provar a “melancia” (sexualidade). Acreditava que desta forma subiria as escadas da ascensão alcançando o infinito céu e o sol, isto é, o infinito conhecimento.
O pequeníssimo Capuchinho Vermelho é mais uma das figuras que me serviu de argumento para fundamentar esta ficção.
Segundo o psicanalista Bruno Betellheinem, a história do CV traduz um episódio pelo qual todas as adolescentes passam: a ditadura do Princípio da Realidade versus o Princípio do Prazer.
As personagens intervenientes na teoria do Principio da Realidade são os pais das adolescentes, que na história do CV equivalem à sua mãe e avó. Exigindo a CV que siga pelo caminho mais seguro, representam a questão do zelar da virgindade das adolescentes por parte das suas famílias. Na teoria do Principio do Prazer, o prazer sexual é representado pela floresta e todos os seus encantos e o representante masculino que induz as adolescentes à vida sexual é o Lobo Mau.
Continuando a reflectir acerca dos objectos circundantes da acção principal, atentemos para os morcegos. Os morcegos funcionam como o representante antagónico do girassol, na ilustração parecem querer cobrir o céu e o sol, figurando os religiosos que, na antiguidade, proibiam o povo de chegar aos livros da igreja, ao conhecimento.
Desta forma, desempenham o papel de entrave na busca da menina do vestido branco. Tal como as meninas que a agridem. Passo a explicar, atentemos para o vestuário dessas meninas, uma delas traja um vestido com rosas, que eram, na Idade Média, atribuídas às virgens (e a Virgem Maria especialmente), assim podemos compreender que esta menina fosse cristã, e agredisse a menina do vestido branco, para a castigar por pecar: pecar, atrevendo-se a chegar ao conhecimento, e pecar o pecado carnal. Quanto à outra menina, reparemos que usa um vestuário simples e banal, talvez surja na ilustração apenas para se acrescentar à outra, representando uma maioria religiosa.
Em relação à vaca, esta consegue funcionar tanto como alimento para a questão do conhecimento como para a questão da sexualidade/maternidade.
Horus, que é um representante egípcio do conhecimento abstracto e concreto, era alimentado por uma deusa vaca. O rato, que mama da teta da vaca, é para os hindus um representante da sabedoria. Conclusão, temos a sabedoria a alimentar-se daquilo que a vaca representa. Filosoficamente, a sabedoria alimenta-se da curiosidade. Podemos então associar a vaca à curiosidade.
Lançando-lhe uma segunda visão, no hinduísmo é atribuído à vaca o título de “grande criadora mãe do mundo”.
Desta forma, a vaca tem um pouco da mesma função representativa da galinha, que é distinta pela protecção maternal dos seus ovos. E falando de ovos, na cultura egípcia temos uma maioria que acredita que o Deus Sol, pai do universo nasceu de uma flor de lótus, mas há também aqueles que acreditam que tenha nascido de um ovo.
Teria então, a menina do vestido branco, simplesmente assaltado o estaleiro, à procura do ovo que continha o grande mestre dos segredos do universo? Para que assim, chegasse ao tão ansiado conhecimento?
Além disto, “ovo e galinha” remete-nos de imediato para a questão: “ Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?”, assim temos mais alimento para fundamentar a minha interpretação geral.
Perto da estante das galinhas está uma senhora, de costas voltadas, a servir-se dos ovos, ignorando o conflito entre as meninas. Compreendo daqui, que a senhora represente a parte da sociedade que é indiferente à disputa religiosa.
Voltando-nos agora para a palha, em certas zonas de África e também no Brasil, existem crentes em orixás, umas divindades inferiores a Deus, e essa sua crença compreende também a atribuição do significado “ascensão e imortalidade da alma” a um género especifico de palha.
Esta ideia inspira-me a conclusão da história da menina do vestido branco, fora agredida até à morte - o próprio facto de estar sobre um manto escuro soa-me a “aqui jaz” (negrume – funerais), e desta vez trajada de rosa claro, a cor do quartzo que transmite amor-próprio, a sua alma ergueu-se do corpo rumo ao céu e ao sol. A menina alcançou o seu ambicioso objectivo.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

NEW AGE! - rev. aquariana




















"1. Todos os deuses, todas as crenças, todos os sistemas religiosos serão aceitos ao mesmo tempo. Como os antigos romanos, toleraremos todos exatamente por não acreditar a fundo em nenhum deles. 2. Nossa fé se reduziu à crença numa energia cósmica qualquer, uma "força". [...] 4. Gnomos, espíritos, magos, anjos, duendes, demônios – um cortejo de quimeras extintas pela luz elétrica – ressuscitam, assim, no ecletismo da nova religião, a mais relativista que já houve, apta a admitir quaisquer fantasias e ignorar contradições entre elas”.1

“Enquanto a maioria de nossas instituições vem falhando, surge uma versão contemporânea da velha relação tribal ou familiar: a rede, um instrumento para o próximo passo na evolução humana. [...] A rede é moldável, flexível. Para todos os efeitos, cada membro é o centro da rede. As redes são cooperativas, não competitivas. São como as raízes da grama: autogeradoras, autoorganizadoras, por vezes até autodestruidoras. Representam um processo, uma jornada, não uma estrutura organizada. [...]

“Cada segmento [de uma rede] é auto-suficiente. Não se pode destruir a rede pela destruição de um dos líderes ou de algum órgão vital. O centro — o coração — da rede se encontra em todos os lugares. A Conspiração Aquariana é, na verdade, uma rede de muitas redes destinadas à transformação social. [...] Seu centro está em toda a parte. [...] A Conspiração não pode ser detida, porque é uma manifestação da mudança nas pessoas”.3"

"De que forma? — Nas tribos, a coesão entre os membros é assegurada sobretudo por um comum pensar e sentir, do qual decorrem hábitos comuns e um comum querer. Nelas, a razão individual fica circunscrita a quase nada. [...] Ao pajé incumbe manter, num plano místico, esta vida psíquica coletiva, por meio de cultos carregados de ‘mensagens’ confusas, mas ‘ricas’, dos fogos fátuos ou até mesmo das fulgurações provenientes dos misteriosos mundos da transpsicologia ou da parapsicologia”.8

"A Nova Era afirma que o problema do homem não é o pecado, mas a ignorância. Conhecer-se a si mesmo, eis o lema da Nova Era."

"Para esses adeptos, não há inferno, não há castigo, não há justiça. O erro (pecado) de uma vida não será castigado na eternidade, mas numa encarnação menos evoluída ou mais sofrida, onde aqui se faz, aqui se paga. É a chamada Lei do Carma."

"Não é pensando que se ilumina, é mediante a meditação por dentro de si, mediante a canalização da energia por dentro do próprio corpo.
Para esse fim nos levariam o tarô, os búzios, quiromancia, astrologia, numerologia, cristais, certos tipos de medicina alternativa e de acupuntura etc. Tudo é usado para dar uma nova visão ao ser humano, uma nova maneira de experimentar a realidade."


IGUALITARISMO - AUTO-CONHECIMENTO - MEDITAÇÃO - ENCARNAÇÃO - NEW AGE!


mais inf. : http://www.lepanto.com.br/EstNovaEra.html

sábado, 16 de junho de 2007

"O nada"

O que é o nada?
O nada é isso.
O nada é ter um corpo e não o sentir.
Não sentir a dor, não sentir o prazer, não sentir sequer a dormência.
O nada, é ser alguém e sentir-se ser algo, sentir-se ser pedra e vegetal.
Um vegetal nada sente.
Uma pedra nem sequer é sentida.
A sua presença é completamente indistinta num meio de seres emotivos.
O nada é isso.
O nada é não saber.
O nada é o tudo em desarmonia.
O nada é o espectador do encontro de rastos de palavras e sorrisos, que não são seus nem lhe dizem nada.
O nada é o avesso do tudo.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

"Teatro metafísico"


-Quem sou? Onde estou? Porque estou? De onde vim? Para onde vou? E quanto é o bilhete?



by Prof. Vitor Marques









Voz – Quem sou?
Eco – Quem és?
Voz – Onde estou?
Eco – Onde estás?
Voz – Onde estou? Onde estás?
Eco – Onde estamos?
Voz – Onde estou? Onde estás?
Eco – Estou aqui.
Voz – estás aqui?
Eco – Estamos aqui…
Voz – Quem és? Quem sou? Quem somos?
Eco - Não sei quem és. Não sei quem sou. Não sei quem somos.
Voz – Quem somos?
Eco – Sei que somos um só…
Voz – Somos um só…
Eco – Somos um só…
Voz –Um só…
Eco – Só!
Voz – Estou tão só…
Eco – Tão só…
Voz – Não me deixes só!
Eco – Só!
Voz – Não me deixes só!
Eco – Só!
Voz - …
Eco – Estou perdida…
Voz – Volta!
Eco – Tão perdida…
Voz – Estou tão só…
Eco – Perdida…
Voz – Só…
Eco – Estou dentro de ti! Perdida!
Voz – Volta!
Eco – Perdida!
Voz – Só.
Eco -…
Voz – Eles são de lã.
Eco – …
Voz – Eles são de pau!
Eco - Não são…
Voz – São robõs!
Eco – São reais!
Voz – São bonecos.
Eco – Não!
Voz – Somos bonecos!
Eco – Não!
Voz– Somos marionetes! Robertos!
Eco – …
Voz – Somos de papel e tinta!
Eco – Estou perdida dentro de ti…
Voz – Nada é real.
Eco – Real..
Voz – Nada faz sentido…
Eco – …Faz sentido.
Voz – Sentido!
Eco –Sentido.
Voz – Estou a desaparecer.
Eco –Desaparecer… Perdida…
Voz – Onde estou? Onde estás? Onde estamos?
Eco – Somos um só…
Voz – Somos um só!
Eco - … Um só!
Voz – Onde é que eles estão?
Eco – Estão aqui. São eles!
Voz -…Estão tão longe
Eco -…
Voz- Estás tão longe…
Eco – …
Voz -Estou tão longe…
Eco -…
Voz -… é um sonho…
Eco – Bloqueia-me! Acorda-te!
Voz - …
Eco -… Agarra-me!
Voz –AAAAAAAAAAAAH
Eco – Bloqueia-me! Acorda-te!
Voz – AAAAAAAAAAAAH
Eco -…
Voz – Vou desaparecer.
Eco- Não grites Não chores. Agarra-me. Bloqueia-me. Não tenhas medo. Sou só eu. És só tu. Somos só nós.
Voz -Isto não sou eu. Isto é loucura. Vou desaparecer. Estou a desaparecer!
Eco -…
Voz - Estou a sufocar. Estás a rasgar-me a pele. Não cabes dentro de mim. Sai! O meu eco, a tua voz, está-me a rasgar, está-me a matar. Sai!
Eco -…
Voz – Quero a cor…
Eco – a cor…
Voz -…
Eco - Somos um só.
Voz – Somos um só.
Eco – Um só.
Voz – Um só.
Eu – Só…

segunda-feira, 23 de abril de 2007

"Viver"


Era uma vez uma jovem adolescente de 16 anos…
Solitária mas amiga de todos, tímida mas alegre, confusa quanto ao presente, mas ansiosa pelas certezas e por um glorioso futuro ordenado, quanto ao passado, era um mero ponto final.
Ora, 16 anos, idade para estar a explorar a vida e tudo o que ela lhe permita desfrutar: conhecer o mundo, conhecer pessoas, conhecer ideias. Conhecer…
O passo seguinte será fazer as escolhas dentro desse turbilhão de conhecimentos, seguidamente organizar um plano para encaixar as escolhas, e por fim agir.
Como muitas adolescentes, esta sentia uma espécie de síndrome do patinho feio: se não sou bela nem formosa naturalmente, se o meu senso e a minha disposição não atraem quem me agarre e deseje ou simplesmente faça companhia dedicada, sobra-me a intelectualidade. E é por aí que vou começar.
Se calhar, se estivesse envolvida num meio em que não existissem exemplos de intelectuais, optaria por se dedicar furtivamente à beleza, já que não a tinha naturalmente, ou mesmo à procura de “uma família” se alguma vez tivesse tido exemplos incentivadores, que lhe mostrassem que realmente é preenchedor.
Mas não. O que lhe parecia mais a mão fora o desenvolver da intelectualidade, fora a isso que se aplicara de forma entusiasta, de forma viciante tal como o conhecimento o é.
Um dia, mais tarde, olhou-se ao espelho, e sentiu-se bem consigo mesma, não se sentira envergonhada, já não precisava de se esconder na sua timidez, era livre por fim!
O ego sorridente levara-a a comunicar sem acanhamento, levando-a a sentir a sensação de acolhimento por parte das pessoas, e quando digo as pessoas sem nomeações concretas, é porque me refiro mesmo ÁS PESSOAS no geral, ao mundo inteiro que finalmente a aprovava. Agora tinha o título de PESSOA, e não apenas ser vivo, e tinha o título de HUMANA, porque os sentimentos de irmandade pertencem acentuadamente ao humano.
Entretanto, também o príncipe encantado por quem tanto esperava, chegara e lhe agarrara a mão. E assim todo a insatisfação quanto ao físico desvaneceu a pouco e pouco.
Agora olhava-se ao espelho, e sentia-se orgulhosa, sentia-se uma mulher rica: não era dotada nem nada de perto, mas sentia um intelectual comum que lhe agradava, tinha pessoas com quem partilhar sentimentos, o físico nunca lhe agradara de forma perfeita mas já não incomodava, tinha momentos de vaidade e tudo.
Mas o sentimento de insatisfação mais tarde ou mais cedo volta a bater-nos na cabeça:
- Sou feliz! E agora? Agora quero ser mais feliz, quero poder orgulhar-me de tudo em mim… e o que me falta? Dinheiro?
Não! A jovem vivia com uma moral do género: “ não tenho tudo aquilo que quero, mas estou-me pouco importando com os bens materiais”.
-O que falta?
Poderia ter pensado “falta viver, saborear a paz”, mas não! Pensou antes “ falta viver, conhecer tudo, experimentar tudo de bom e tudo de mau, para me sentir viva e crescida”.
Esquecendo completamente que a vida deve evoluir gradualmente em todas as questões, passou um ano a alimentar a questão do humanismo e da experiência, pondo de parte o primeiro ponto da parada num completo desleixe.
Viveu, viveu, viveu. Queria viver! Porque afinal, “a vida são dois dias”, “ quem muito dorme pouco aprende”, enfim, quem muito pensa, é pouco genuíno, não saboreia o momento tão profundamente quanto ele merece.
“Tão profundamente quanto ele merece”, isso é bem discutível, a capacidade de ser presente torna-nos harmónicos e consequentemente mais felizes, mas, se nos dedicarmos somente a tal, o que nos trará o futuro? Com certeza nada de idêntico a “um glorioso futuro ordenado”.
Não é justo censurar nenhum destes modos de vida: o que vive pró momento, o que vive pró futuro. A questão é que todos somos diferentes, o que poderia trazer a felicidade aquela jovem, poderia ser o oposto do que te traria a ti.
Concluindo, o que queria dizer era: como pode alguém ter ambição para projectos futuros, onde pensa encontrar a felicidade, e querer viver o momento? São ideias incompatíveis.
Alguém que vive apenas no presente, isso por si satisfá-lo de tal forma que o futuro perde o peso, e quando esse futuro chegar, lá vai ele estar novamente a desfrutar do presente, felizmente…
Opostamente, alguém que vive pensando que são objectivos capazes de se realizarem no futuro, que a podem realizar pessoalmente, precisa de lutar por eles no presente. Desprezando o momento? Não. Isso é a sua forma de viver o presente. Poderá não sentir tanta felicidade a rebentar-lhe as costuras mas no futuro colherá frutos que a compensarão.
Entre essas fases, a jovem que começara realmente a viver a vida, colocando o desenvolvimento da intelectualidade no topo, passou também por fases em que lá colocara a espiritualidade e a intuição, e até mesmo tentou realizar a ideia de ser quem era genuinamente, sem pensamentos, como uma criança, que é pura de ideias - o pateta universal, digamos assim.
Esta jovem adolescente caiu nesta armadilha da vida. Quis ter tudo, e como sabemos “ quem tudo quer tudo perde”.
Acidentes de percurso fora do seu poder também lhe roubaram as forças necessárias para conseguir criar um equilíbrio (não tentando desculpá-la, afinal, buracos
tem toda a estrada do mundo e não a dos pés dela).
Um dia, ela reencontrou o seu amigo espelho, fitou-o, e não se reconheceu. Sabia apenas que não era a mesma pessoa do início da parada, nem a mesma pessoa quase perfeita e feliz q se tivera sentido em outros tempos. Algo lhe dizia também que, se não era a mesma de antes, não era a mesma que os seus amigos acolheram, não era a mesma de quem eles gostaram.
E sim, realmente era mais ou menos assim, já não era amiga do mundo inteiro e vice-versa, mas os amigos verdadeiros estavam lá e não arredavam pé.
A vida lançou-lhe uma armadilha pelo caminho, uma armadilha que talvez quisesse por à prova se o seu conceito de felicidade era tão rijo que nada o mudasse. Uma armadilha, onde ela caiu.
Mas afinal, quem tem ideias rijas quando está a conhecer o mundo pela primeira vez?
No final, não acho que nada desta história seja verdadeiramente censurável, pois todo o fundo ideal da jovem era amadurecer, era conhecer, era provar. E digam lá, que não se sente tentado ao fruto do pecado?
Simplesmente há que haver equilíbrio.
Há que saber que não se pode ter o presente e o futuro.
Há que saber fazer escolhas. E para fazer escolhas, é preciso conhecer tudo (ou muito). O Homem Comum, aprende experimentando, o Homem Sábio aprende observando a experiência dos outros. Muitos escritores lançam palavras vividas, e o leitor aprende com elas.
Tudo bem, a jovem merece apenas o titulo de “Homem Comum”, mas agora que desdobrou algumas façanhas do mundo, faz as suas opções mais livre e certamente, ( o que acaba por ser relativo visto que estamos sempre a aprender!) e pode escrever um livro. Essa era uma das metas do tal “glorioso futuro ordenado”.
A jovem viverá um dia de cada vez, valorizando o presente, mas pensando sempre no futuro, e pela primeira vez, lembrando o passado, que não será mais um ponto final mas sim um (incompleto) livro de instruções!

sábado, 21 de abril de 2007

"Forma social inteligente"


"Ir a um espectáculo de teatro continua a ser uma das formas sociais mais inteligentes e interessantes de passar o tempo. Ali o espectador não é objecto de emoções injectadas pela paixão incontrolável ou pela excitação desabrida.A pessoa que vá ao teatro é sujeito principal duma acção estimulante do espírito e nada há numa peça, por mais excelente, que não tenha de ser arquitectado na mente de quem vê, de forma sensível e perceptiva.Mesmo que já se tenha visto antes, mesmo que se conheça o autor e o texto esteja bem presente na memória, a representação traz sempre consigo uma novidade, um desafio, uma renovação da nossa capacidade de ver."


terça-feira, 17 de abril de 2007

"Cidade dos balões"


Na azulada noite saturnal,
O Luar aceso de luz e alma
Alumia o trapo da tenda de circo.
(tenda essa)
Da cor vermelha do sangue
Quando cai no pano branco.

Luar aceso,
E Magia da mágica seduz!
Os senhores manipuladores
Para a porta das traseiras,
E os inocentes para a porta principal.

Os senhores
Bebem sujo:
De maquilhagem e de bolas vermelhas,
E cospem mágica que traz Magia,
E cospem vaidade
Ao pintar o sorriso no rosto dos inocentes.

Tornam-nos numa sociedade
De palhaços de preto e branco,
Onde a regra presidencial é a mímica!
E o sorriso,
Esse gesto contagiante,
É pregado obscenamente.

A cega inocência deslumbra-se
nessa felicidade artificial,
Elogia,
Intitula,
Teoriza.
Que sabe bem e faz sorrir,
que se chama realmente felicidade,
que é um impulso electrico
que atravessa celulas corporais.


Digo:
Para lhe esticar os lábios,
Deformar o rosto,
Mostrar as facas.

E eu escapo dessa loucura
Pendurado num balão vermelho,
Que me ergue e guia para outras cidades,
Cidades pintadas a carvão…
Cidades,
Sem a tinta de aguarela da emoção…

quinta-feira, 12 de abril de 2007

"Tudo rosas mas morrem"


Marchar de estrada em estrada,
Sem nome,
Sem regras,
Sem sapatos.

Tudo rosas mas morrem.

Marchar a par com o céu alto,
O meu ser e a minha humanidade.
Marchar com as chamas luminosas
E a cegueira das trevas,
A fortuna e o pesadelo.
Porque só auge da dor ergue a felicidade.

Tudo rosas mas morrem.

O canto do sonho mata-o.
Na vida da utopia nasce a imperfeição.
Da vida do sonho nasce a sua morte.
Na vida do irreal que a sustenta,
Morre a própria.

Marchar de estrada em estrada,
Desconhecendo a minha.
O nome não é meu quando não me conheço.
Não vivo as regras de um universo que não me pertence.
Na minha liberdade, eu insisto na independência,
Não dos saltos altos da riqueza,
Só dos pés descalços de mim mesma.

Tudo rosas mas morrem.

O universo do meu ser é o infinito,
Idêntica ao céu,
Pertenço a todos e a ninguém.
Tudo rosas mas morrem.

terça-feira, 10 de abril de 2007

"Açúcar amargo"

II

Fiéis pensamentos de traição…


-AH! Vida nova.
Levantei-me num salto, estiquei a persiana e corri para o banho.
Enchi a banheira de espuma e sais relaxantes, mergulhei-me e recordei uma série qualquer de tv em que alguém dizia: “o banho em conjunto aproxima as almas”, porque é que nunca experimentámos isso? Ou uma bebida de pétalas de rosa vermelhas, coisas desse género… Hum… talvez porque o julguei como adquirido.
Voltei a mergulhar a cabeça como que me castigando.
Não queria cismar no assunto, queria uma vida nova. Nem era uma questão de vontades, sabia as consequências que arcaria se não recomeçasse, afundar-me ia em ondas de dor e melancolia que me levariam a desaparecer.
“Toc-toc”, falou a porta.
-Sim?
-Adormeceste outra vez no banho?
Antes fosse um pesadelo, que acabasse ao acordar a nunca mais batesse à porta. Mas não, eram os meus fiéis pensamentos de traição… que me amargam os momentos românticos.
Mas por acaso há açúcar sem amargura?

"Açúcar amargo"


I

Como que ainda amaciada pela ligeireza de tão suave toque…

Passou por mim do mesmo jeito que o vento: sempre com pressa, levando tudo atrás, deixando um rasto de frescura… Só faltava o característico ciciar. Não ciciava, mas o seu silêncio era tão escandaloso quanto o chinfrim agudo e hediondo do assobio ventoso.
Bateu asas e voou, que nem uma garça livre e leve, sentindo-se a governanta dos céus pela primeira vez…
Não poderia serenar, face à situação, mais do que já lhe era costume! Apenas pousando de postura egoísta, apoiando os braços sempre indolentes e preguiçosos, de mãos enfiadas nos bolsos da frente… contemplando um horizonte deveras desinteressante, mesmo para ele que se fascinava com pouco!
A face descuidada, parecia que não levava água há dias, e a barba farfalhuda, que o engraçava, novamente por cortar
. Há coisas que nunca mudam, são demasiado mundanas e próprias para isso.
Aproximei-me dela, dela da face, quase que mergulhei os meus olhos esbugalhados nos dele, ainda mais esboroados e opacos. Opacos sim, completamente cerrados para mim, como um camaleão que ora é verde ora é laranja, aqueles olhos ora eram transparentes ora eram opacos… E desta vez, ele escolheu não me entregar nada que fosse dele, tudo o que era seu se tornara tão pessoalmente próprio que já nem um olhar partilhava.
Este instante, de tão excessivo foco nos seus pormenores, foi tão intenso como o instante em que me apaixonei. Em ambas as vezes o mundo em redor enublou, para brevemente voltar a elucidar-me.
Tal como numa entrada em cena teatral, as luzes voltadas para a minha face, o som acompanhante a subir aos meus passos…
A sensação é igual, a mudança de um mundo para outro, e eu sou a protagonista.
Despeguei os lábios gordos um do outro, esperando que algo se soltasse instantaneamente. Mas não, estava ainda um tanto absorvida nos meus devaneios.
O desembolsar das mãos agitou-me e despertou-me finalmente.
Voltei a cerrar os lábios e torci a boca, penso que franzi as sobrancelhas e tornei aquele toque feminino da cabecinha inclinada, numa firmeza de queixo e nariz empinado.
Saíram-me as palavras erradas, aliás tudo aquilo era errado. A cena errada, as personagens erradas, a própria vida estava desconcertada e eu com ela pelos cabelos.
Soltei um breve e seco “então?”, seguido de uns quantos gritos histéricos que não diziam nada mas expressavam a fúria.
Respondeu-me irritantemente com uma vénia vitoriosa.
Atirei-lhe para cima todos os objectos pessoais que deixara em minha casa, afinal era essa a
intenção do encontro marcado. Não se queixou nem tão pouco sorriu ou balbuciou.
Admirou a minha farsa, como que se despedindo, e soprou um: “até um dia” tão baixo que duvidei se lhe teria apenas lido o pensamento.
Apesar de tudo não o odiava, como se estivesse ainda amaciada pela ligeireza de tão suave toque.

segunda-feira, 12 de março de 2007

"Revolução das bolas de sabão"

parte IV


-Mangue?
-Sim?
-Afinal o que era toda aquela loucura atrás da porta mágica?
-Uma máquina do tempo.
-A sério?
-Não!
-Então?
- Um mundo de transe, drogas e muito prazer.
-A sério?
-AHAHAH!

"Revolução das bolas de sabão"

parte III


Efeitos aleatórios, como espirais, tornados, partículas rotativas, linhas e círculos de fumo, em cores fluorescentes e cintilantes esticavam-se como pastilhas elásticas, ecoavam sons da natureza que distorciam para electrónicos.
Tal como numa situação de representação teatral, em que o holofote me ilumina unicamente a mim, o meu ego subia à medida que um sedutor fecho de luz me acariciava.
Deixava-me rolar pela tentação seguindo a luz, quando, de rompante, me pegaram pela cintura e arrancaram do paraíso, trancando a porta por fim.
Tal como um toxicodependente a quem tiraram o saquinho da droga, enfureci, e enfureci tão agressivamente que além da gritaria e do esperneio senti os olhos a saltarem-me da cara.
O indivíduo que me roubara a fortuna observava-me quase que indiferentemente, encarando a situação pacificamente.
Era um velho, um velho rasteiro, corcunda, careca, de longas barbas brancas e farfalhudas, vestido com uma túnica igualmente cã.
Desceu as escadas e eu segui-o.
Chegando ao círculo, sentou-se numa cadeira de baloiço, em que eu não tinha reparado, e indicou-me um almofadão, ao que eu respondi sentando-me também.
Baloiçava-se, acendeu um cachimbo indiano, ia passando e enfiando os dedos entre as barbas e soprando nuvens de fumo, e a minha fúria morria nessas nuvens.
Oscilou a cabeça em tom de negação e finalmente iniciámos um diálogo:- As portas não são para abrir, nem tão pouco as escadas para subir.
Interpretei tal como uma ordem de restrição, mas ele acrescentou:
- As portas só se fecham e as escadas só se descem.
Fiquei confuso e não precisei de o dizer.
O velho sorriu e num novo balanço continuou:
- Quando estás metido dentro de um labirinto, em que pensas?
- Em encontrar a saída.
- Ou seja, regressar ao ponto de partida. O ponto de partida para o sótão é a subida das escadas, o ponto de partida para entrar num compartimento é a abertura da respectiva porta.
Bufei.
- O que eu quero dizer, é que quando, no teu dia-a-dia, escolhes um caminho tens a segurança de poder voltar para trás, e muitas vezes, a tua opção é tão errática que é o regresso que mais anseias…
- Pois bem…
- Asseguro-te de que estas escadas e estas portas não precisam sequer da tua intenção para te absorverem. E não te garanto que alguma vez consigas voltar.
Engoli em seco recordando a luz sedutora.
Entretanto o velho dirigiu-se a uma pequena portela por debaixo das escadas, entrou, saiu. Trouxe com ele um tabuleiro de biscoitos e, uma efusão que refrescava os lábios como um gelado tropical, e aconchegava o estômago como um chá quente. Uma mistura sensacional completamente alienígena para mim.
Eu queria perguntar mil coisas àquele velho tão sabedor, mas faltavam-me as palavras.
- Hum... Conversamos acerca de portas mágicas, e eu nem percebo se não és apenas uma personagem criada pelo meu psíquico, se todo este espaço não é fruto da minha imaginação, se enlouqueci, se estou a sonhar…
- O que é o sonho?
Não sabia o que responder, era um assunto fútil para o género de vida que eu levava.
De certa forma era um rapaz pensador e curioso em relação ao mundo, mas desde o início da adolescência que decidira viver para estudar; tendo em mente a ideia de alcançar um futuro maravilhoso, que nem sabia de que cor queria pintar.
Os pais ensinam-nos assim, pelo menos a maioria, que na escola está o futuro, isto é, que estudaremos para trabalharmos, para vencermos ao final do mês, para poder casar e sustentar uma família, que seguirá os mesmos capítulos.
E tudo isto, com que desejo fundamental? Com o desejo de viver a felicidade!
Então e aqueles por quem a auto-realização não implica constituição de família ou uma conta galante?
Eu esquecera-me dos meus sonhos… Guerreava armado por uma bandeira que não me dizia nada.
“O que é o sonho?”, ecoava a voz do velho dum lado para o outro na minha cabeça.
Olhei-o como quem pede uma resposta.
- Quando dormes, a tua alma solta-se do corpo e viaja até ao seu mundo, partilhando com a tua subconsciência segredos e mistérios. Quando acordas recordas aquilo a que chamas sonho, vagas memórias da viajem da alma. O mesmo sucede com a tua imaginação, a alma partilha as próprias e genuínas experiências contigo, e aquilo a que chamas personagens psíquicos e terras e céus de fantasia, invenções! São ideias trazidas de outras dimensões, do futuro, de outros planetas…
- Concluindo, o meu corpo invadiu o meu sonho? Ou… continuo no mesmo espaço de sempre mas noutra dimensão?
- Mistério. Se te dedicares à abertura da visão espiritual, um dia distinguirás todas essas realidades. Por agora, já é informação suficiente para um homem comum aperceber-se de que está rodeado de universos, e que pode viajar entre eles. Ainda mais, estar a conhecer um novo.
“Como?”, “porquê eu?”, “porquê agora?”, “porquê?”, “porquê?”, “porquê?”! Embebedei da constante questão!
-Talvez, a tua alma queira despertar no teu corpo a clarividência, que noutra encarnação pôde ousar. Ou talvez tenhas uma missão a cumprir neste universo.
Ao entardecer, Mangue, o velho, guiou-me numa visita pela floresta mágica.
Começou por me mostrar uma zona de amanitas muscarias, aqueles cogumelos vermelhos com pintas brancas, mas numa versão gigante!
Minúsculas luzinhas a esvoaçar dum lado para o outro, pareciam pirilampos ou mesmo estrelas.
Uma delas pousou levemente no meu dedo mindinho, tal como as borboletas e joaninhas costumam fazer.
-Encantadora! – Soprei – Corpo de menina, pequenina que nem a polegarzinha, com asinhas de borboleta de cor indecifrável! Ou pelo menos, impossível de traduzir para o nosso campo óptico comum, se a baptizasse, não poderia ter um nome simples como “roxo” ou “vermelho”, seria “árctica ardência”. Perfeito!
Á medida que ia penetrando a floresta, tinha de habituar o ângulo de visão, as formas pareciam ter uma inclinação turva, mas eram modelarmente harmónicas, a própria força do chão transmitia a sensação de obliquidade, como se caminhasse sobre uma linha curva, com a inteira consciência de que a terra é redonda.
A minha percepção à matéria circundante aumentava, ou seriam mesmo os corpos que eram cada vez maiores e maiores? Não.
Mangue ensinou-me a controlar o binóculo de cada olho, poderia focar o que eu quisesse e observar os mais ínfimos pormenores, identico ao uso da objectiva da máquina fotográfica. Conseguia fazer o mesmo com as cores, focava-as e tornavam-se intensas ao máximo, descobrira a essência da cor.
As fadas berrantes que, com as suas varinhas de condão, praticavam magias transformando cores em emoções.
Os duendes eram peculiarmente franzinos e, ao sorrirem, um toque de guizo acompanhava e enfeitava a alegria, e essa alegria criava flores.
Os anões, tão miúdos como uma pegada de criança, carregavam potes de ouro para uma ponta do arco-íris.
Os gnomos, rechonchudíssimos, usavam chapéus em cone e apreciavam os animais selvagens.
Ao observar as criaturas bizarras, algo de muito espiritual se passou, por instantes, deixei de ver os corpos extravagantes e vi apenas as suas almas, a cor de cada alma.
Quando sentia emoções fortes, conseguia ouvir música concordante, Mangue esclareceu-me que vinha do Vale da Orquestra. Aqui, existia uma árvore que captava as vibrações de cada emoção, deixava-as correr nos seus veios e a orquestra de flores musicais que a circundavam, encarregavam-se de as sonorizar.
Atravessámos a Floresta Mágica, estávamos já do lado oposto à cabana em forma de cone, e também a sua nostalgia era oposta.
Este lado da floresta, não só era a absoluta noite, como a derradeira sombra da noite.
Nas árvores desnudas salientavam os ramos e galhos torcidos e aguçados nas pontas.
Haviam pântanos de limo e lodo que amorteciam inocentes elfos nocturnos
As aprendizas de bruxas eram meninas jovens escondidas entre trajes góticos, brilhavam em si as faces de lua cheia. Em conjunto, criavam poções que invertiam os jeitos das outras criaturas, por exemplo, os unicórnios dançavam na corda bamba dos trapezistas e os trapezistas corriam de quatro patas tão velozmente como unicórnios.
Ah! Sim, também haviam trapezistas, aliás, havia uma tenda de circo, mas não haviam espectáculos porque o mimo estava a tornar-se diabólico.
Os aromas do ar eram pesadíssimos, não de açucena ou rosa, mas de pele morta.
De um instante para o outro dei por mim a correr e o chão despedaçava-se em mil partes um passo atrás do meu.
O céu, que espelhava a terra, separava-se como se fosse um puzzle.
Mangue corria à frente criando um percurso absurdo, em zig-zag e com meias voltas e voltas inteiras, exercia um ritual afastando os males nocturnos.
Por fim paramos, junto de um poço que parecia retirado da época medieval, pela sua decoração serviçal à mãe natureza, Mangue encheu um balão, como os que os mágicos e os químicos usam, e estendeu-mo.
- Poção de vida.
Por detrás de nós surgiu um espécimen de esqueleto humano, mas com um crânio bastante maior, e apenas com três dedos em cada mão, que radiava luz azul-eléctrica.
Mangue puxou, de dentro do casaco branco, um punhal com o qual partiu o crânio do espécime.
Continuou a conversa onde tínhamos terminado como se nada tivesse ocorrido.
-Bebe a poção. O poço está cada vez mais esgotado, parou de criar…
De seguida pegou-me nas mãos, pediu-me que fechasse os olhos, e, circundados por anéis verdes fluorescentes, perdemo-nos na tontura de um tornado e, quando abrimos os olhos, estávamos na cabana.
Mangue abriu uma janela, ouviam-se gritos: “É a revolução das bolas de sabão!”, agora não só de um ditador, mas de uma multidão inteira.
-É relativamente frequente aparecer alguém vindo do teu universo na minha cabana.
Uns, são guiados pela força da curiosidade, e o universo cede-lhe esta satisfação, outros, estudam o espiritual e alcançam as diversas dimensões por mérito próprio, por vezes, as almas clarividentes que habitam os seus corpos querem desperta-los para as diferentes realidades, e eu só agora percebi a tua chegada.
Ansiava o final da frase, os pormenores enervam-me.
-Chegaste na precisa altura em que estamos prestes a desaparecer. Esta dimensão, do mundo das fadas, inspiradora dos artistas que contam histórias de fadas, tem como única barreira envolvente uma bola de sabão. Com o passar dos tempos a imensidão de artistas vai escasseando, as histórias de fadas ainda mais, e mesmo as que já existem vão sendo menos contadas e acreditadas pelas crianças. Esse acreditar, essa religião mágica, que vocês intitulam de imaginação, é que sustenta a bola de sabão. A bola de sabão está a rebentar, a poção de vida deste universo a esgotar…
-E qual é o meu papel no meio desta historia mirabolante? – perguntei intrigado.
- Tu és mais um daqueles que se esqueceu do que é ser criança, que deixou de sonhar, de acreditar em fadas… Mais um dos que está a contribuir para a ruptura da bola de sabão.
- E que poderia eu fazer para evitar tal?
- A tua mudança de atitude seria um grande exemplo para que o mundo voltasse a sonhar.
- Julgas que bastava chegar à minha dimensão, sonhar, contar a história da Cinderela a meia dúzia de crianças e toda esta fantasia voltaria a sorrir?
- Se quiseres salvar um universo que também te pertence, tu saberás como o fazer.
O peso de tanta responsabilidade fazia-me sentir importante, mas também intimidado.
Mais do que contos de fadas, conhecia histórias bíblicas, que contavam como o Grandioso criou o mundo em 7 dias, criou o Homem e a partir dele a mulher. O “como” era um mistério que universo nenhum esclarecera.
Agora eu, um homem comum, teria de fazer o papel de Deus, salvando um universo, um universo que julgara ser criado por nós mesmos e impossível de partilhar, e afinal, quantos já não visitaram esta utopia.
Pensei nos meus tempos de criança, como pude perder algo que me era tão querido, como brincar ao faz de conta, baloiçar para chegar ao país das maravilhas e sobretudo, o acreditar?
Por entre estes devaneios enchi-me de alegria, de entusiasmo pela inocência e genuinidade, senti o puro instinto humano e a magia aconteceu.
Anéis de fogo abraçaram-me e, num sopro, aterrei sentado numa cadeira, num programa televisivo em directo sobre a inovação da cidade.
- Nelson? Nelson?
- Sim?
- É a tua vez… apresenta o teu plano para o parque de baloiços.
- Parque? Aah, sim o parque…
Ainda estava estonteado como estas repentinas mudanças de realidade.
Ergui-me, afinei a voz e comecei o meu discurso ensaiado:
- Ora boa-tarde a todos, para começar. Como estão meus senhores?
- Prossiga.
- Como cidadão que sou, carrego comigo o dever cívico de saber e sentir à flor da pele o que é melhor para esta sociedade, e como arquitecto que sou, tenho o dever de o fazer bem! – fortes aplausos. – A sociedade precisa de progressão, a todos os níveis, essa ambição começa nas crianças, e não é em parques infantis que elas a vão ganhar!
Subitamente, olhei pela janela que estava mesmo à minha frente, era fim de tarde, o sol já se punha e recordei o quão sanguíneo é o pôr-do-sol no país das fadas.
A minha clarividência ganha no país mágico permitiu-me reparar numa fada, invisível para todos os outros. Era mais uma das que caíra pela ruptura da bola de sabão.
A fada delicada, com a sua saiinha colorida, andava desamparada pelas estradas, com todos a esbarrar nela, com a poluição a sufocá-la, sem flores onde de embrulhar e bailar.
- Prossiga!
- Não é nos parques infantis que as crianças vão ganhar ambição… - e a fada tropeçava – Mas as crianças não precisam de ambição.
- Desculpe?
- As crianças precisam de viver a sua fase de inocência, de se libertarem, de explorarem o mundo, de imaginar, de sonhar, de brincar… de brincar num parque de baloiços… e de fazer bolas de sabão! Faremos uma revolução de bolas de sabão! Salvaremos as fadas!
As crianças que assistiam ao programa correram para as bacias para misturar água e sabão, correram para as janelas, onde chocaram os sorrisos de umas e outras e em conjunto sopraram bolas de sabão.
- É a revolução das bolas de sabão! – Gritaram em coro.
Assim, as bolas de sabão recolheram as fadas, os duendes e todas as criaturas da floresta magica perdidas na nossa dimensão, e levaram-nas de volta para o seu mundo.
Cada vez que uma criança sopra uma bola de sabão, recebe de uma fada, um beijo doirado com um dom.
- É a revolução das bolas de sabão!

sábado, 10 de março de 2007

"Revolução das bolas de sabão"

parte II

Avivei-me de um sono fundo com a sensação de que dormira uma década. Espreguicei-me luxuriosamente, e, ainda de olhos fechados, reflecti acerca de um sonho mirabolante, típico de homem louco.
Devagarinho desuni as pálpebras e aí extasiei com o cenário.
Encontrava-me no interior de uma espécie de torre de madeira, composta por vários andares, que na verdade não eram pisos onde fosse possível existirem divisões. Cada andar tinha uma forma diferente, eu estava num largo círculo, o seguinte era um heptágono, o seguinte um hexágono, depois um pentágono, depois um losango, depois um triangulo e terminava também em numerosos círculos. Será que do lado de fora se parecia com um cone? Continuando, esses andares eram apenas corredores de escadas que circundavam a torre, não verdadeiros espaços! E, em cada andar havia apenas uma porta, mas não parecia haver espaço para lá das portas, isto, segundo a minha real noção de espaço, estética, arquitectura…
O rés-do-chão, apesar de ser amplo, tornava-se apertado por estar tão apinhado. Faziam parte da decoração antiguidades religiosas de diversas culturas, a maior estatueta era um Buda, velharias da moda feminina de diferentes épocas, utensílios pré-históricos, instrumentos musicais, telas de pintura, tinta e pincéis, fotografias de grandes filósofos, imensos baús cobertos com tapetes persas e numerosos livros. Parecia um canto de perdidos e achados.
Eu encontrava-me aconchegado numa cama que mais parecia um berço gigante, coberto com um véu amarelo-torrado.
Estava mais curioso que assustado, senti-me intrigado com esse facto, mas mais tarde teria tempo para reflectir acerca de tal. Deixei-me então guiar pela curiosidade e decidi explorar a zona.
Lancei-me para as escadas, e subi até ao losango, não continuei por estar demasiado zonzo. Aqui atrevi-me a abrir uma porta, tive de forçar a maçaneta que mais enferrujada não poderia estar. Depois de ouvir o “click” de porta aberta, que suou que nem um “abracadabra”, puxei-a lentamente alimentando o suspense que já me sufocava, pois do outro lado sentia uma forte pressão, como que um vendaval que impedia a abertura da porta.Não sei como descrever o que senti quando deparei com o compartimento do outro lado. Sei que senti o sangue a correr-me nas veias à velocidade da luz, um arrepio glacial percorreu-me a coluna e atingiu o cérebro vitoriosamente, o coração parecia querer castigar-me com tanto bater, fazendo com que sentisse electricidade nas pontas dos dedos, e por fim aterrei em paz.

"Revolução das bolas de sabão"


parte I


-É a revolução das bolas de sabão!
E sobre isto dissertava nobre e altivo sobre uma caixa de cartão.
Á medida que ritmava o discurso, estranhas criaturas aproximavam-se
Caminhavam de passo em calmo passo, pavoneando-se elegantemente, ao longo de extensos corredores que surgiam entre arbustos de cor magenta.
Ao fundo marchavam elefantes, desde um horizonte tão longínquo que pareciam tocar o pôr-do-sol de fogo.
As criaturas figuravam o corpo feminino, sob uma postura inata e serena, realçada pelo gestual característico. A pele manchada variava em tonalidades berrantes. Na face realçava o nariz de tão fino, os olhos, meramente luminosos, soltavam pozinhos ao pestanear. Os cabelos, levemente caídos sobre os ombros, pareciam banhados em ouro.
Algumas tinham chifres encaracolados, outras, longas caudas e outras, asas de libelinha. Intitulei-as de fadas.
Depois de uma demorada apreciação às criaturas, também o espaço despertou o meu interesse.
De tempo em tempo, ocorriam transformações mágicas, como o relvado florido tornar-se num manto de maçãs vermelhas, o horizonte natural distorcer para uma civilização moderna, o próprio espaço inverter o lugar do céu e da terra, uma verdadeira alienação.


sexta-feira, 2 de março de 2007

À distância de um toque


Devaneando na minha luta ofegante soprava delírios como “vivo num mundo de sombras, onde as figuras que contemplo são apenas reflexos da realidade de toda a humanidade, e, as vozes não são mais que ecos longínquos, ecos da real melodia…”.
Procurava-me com uma desesperante fúria selvagem que só eu podia compreender.
Numa certa manhã, não muito cedo, já o sol raiava vaidoso, passeei-me pela cidade, uma cidade pacata com as suas tradições apetrechadas. Passeei-me pela praça principal, era hora alta do comércio e aquela zona tornava-se de feira.
No meio daquele mais movimentado que animado cenário feirante, fantasiei um romance.
Um romance em que, o típico mendigo português, sentado na calçada da rua rica soltava a criatividade nas cordas de uma viola.
Mas uma pequena diferença distinguia-o da maioria dos mendigos, este não estendia a boina nem mostrava a pena que sentia de si próprio. Tocava alegremente, apesar do ar fatigado e carente, tinha um sorriso aliciante.
No outro lado do passeio, onde calcariam os meus passos, marchava uma moça fina, “fina de nota” e fina de delicadeza, de classe, de sensibilidade.
Sentei-me no banco de jardim mais próximo, cruzei as pernas à maneira feminina, ergui o isqueiro à boca e suguei da boquilha. Amorteci-me um pouco mais.
A moça pousou no banco de jardim mais próximo, dobrou as pernas ao jeito de princesa, pousou as mãos níveas sobre as pernas e apertou-as com força uma contra a outra, causando uma ligeira dor aos dedos, inclinou ligeiramente a cabeça e assim permaneceu durante horas.
Sem ousar sequer um bocejar, magicava sobre que estaria pensando o pobre músico. Teria ele sentido o mesmo estremecer aquando se dera o cruzar dos olhares? O mesmo efeito de ferver da face envergonhada? O mesmo desequilibrar das pernas? A mesma aceleração do tambor da existência que salta e sufoca no peito?
Enfim… eu chamar-lhe ia paixão, mas quem sou eu para insultar os sentimentos das personagens mistério que me surgem na mente!
E ele tão perto, há distância de um toque… distância essa que se quebraria com uma abertura de diálogo ou um simples aceno.
E pensei eu, tentando abstrair-me de toda esta fantasia soturna e taciturna, que existem coisas que são mais belas quando imaginadas do que quando realizadas. Certos amores platónicos quando transpostos para o mundo físico poder-se-iam detiorar. A distância entre esses dois mundos é menor que um palmo, a distância entre a utopia platónica e o prazer corporal é menor que um palmo, a fantasia e a realidade vivem à distância de um toque uma da outra… como a genialidade da loucura.
Depois de um profundo suspiro, dei por mim a centrar os meus pensamentos em mim própria, afinal era esse o objecto buscado, o grande alvo a ser flechado, EU.
Estivera sempre ali, quando admirava os meus olhos, negros que nem duas azeitonas encaroçadas, frente a frente com o meu reflexo espelhado, à distância de um toque, um singelo toque, ou quando recostava levemente as pálpebras para partir para um profundo descanso, aí a alma se despegava do meu corpo e voava rumo ao seu mundo mais perfeito, o mundo dos sonhos para lá do mundo dos lençóis, uma dimensão que me estava à distância de um toque.
E que mais estará eternamente há distância de um toque?
O mundo da fantasia, do outro lado do espelho! Alice tomou a ousadia de o tocar e para lá se lançou.
O mundo do prazer e dos sonhos, ambos para lá dos lençóis.
A felicidade! Que por vezes está ao nosso alcance através de um diálogo produtivo, de uma actividade excêntrica, de uma nova experiência capaz de nos guiar para o caminho da auto realização.
Mas não. Não aceitamos a chave para todas estas portas.
Somos demasiado cegos quando olhamos o espelho, pois, não contemplamos as curvas do nosso corpo compreendendo que é realmente nosso, e que precisa de ser acarinhado, que é um elo de ligação entre dois mundos imparciais, que é a ele a quem devemos a curta distância de um toque para permanecermos vivos e completos.
Estamos demasiado acordados quando sonhamos, não deixando que a alma liberte os seus desejos.
Não ouvimos as vozes da sabedoria nem que nos gritem com um megafone.
E porquê?
Somente por medo (penso eu) por fobia, enfim. Por fobia de nos encontrarmos.
Não é como passear pela praça rica da cidade e chocar contra alguém que não víamos a muito tempo, alguém que vamos conhecer, não. Chocar contra nós próprios, ganhar a noção de que somos mais imperfeitos do que julgávamos e, de que as nossas verdadeiras virtudes estavam tão camufladas que nunca as reconheceríamos, nem que nos desmontássemos com as instruções de Deus “o construtor”.
E porque aquilo que nos sustenta é a energia da ânsia e esperança desse divino encontro!
Quando nos encontrarmos, que luta nos sustentará?
Alguns acreditam que, a auto realização do ser, vence a morte, abrindo mais uma porta… mas e aqueles que não são crentes?
Viverão sempre à distância de um toque de eles mesmos, da felicidade, do horizonte que temem descobrir…
Como uma “cabra cega”, o jogo em que buscamos por brincadeira, para passar o tempo, para estar ali ,enfim, sem realmente querermos encontrar algo, acertar no alvo.
A cabra cega à distância de um toque…

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Vento e poeira


«E tudo o vento levou…»
Não!
A poeira ficou.
As sobras do esboço que eu nunca tracei…
Num longínquo, para além do horizonte que admiro com a minha ampla visão, de olho bem desperto, um distante que alcanço apenas de olhos bem cerrados e mente vasta…
Contudo serena, mantive entreabertos os lábios gretados, para sentir a energia da brisa do vento.
E lá nesse remoto antes desconhecido, avistei… uma miragem, julgo!
A perfeição, uma quimera.
Era o fim da pintura... Lembro-me… de um campo espalhado e inacabável, imenso de girassóis. Ainda mais longe, conseguia ouvir o bravo e selvagem galopar dos cavalos livres.
Ele estava lá… ele o artista.
E eu perdia-me no calor do momento, estendida no campo amarelo gemado, os raios áureos batiam-me na cara, coravam de rosa minhas faces.
Ou seria ele?
O sol mais ansiado pelo meu fundo, quem tornava a pura essência tão especial.
Ele o artista.
Imundo de ardência, capaz de reluzir os meus cantos mais tímidos, cobertos e refundidos… tão íntimos que nem o meu próprio os conhecia.
Seria?
Não me sentia no meu mundo mais real, não sonhava, nem tão pouco pensava…
Uma atmosfera calorosa e húmida, delírio.
Estranho, diferente de tudo o que até ali fora sensação.
E o Sol de paleta na mão, levantou a boina e soprou:
-Paz?
Abri os olhos vagarosamente, na verdade, aquele instante de separar de pálpebras, aquele curto tremer de que nem nos apercebemos, pareceu-me imenso. Não só imenso! De uma lonjura infindável, que julgara inalcançável.
E pensei, durante aquela eternidade de paz, cada curto tremer, nasce, respira, sente, pensa… e a Lua no cume inatingível escuta o tambor da existência, que persiste dentro de cada um de nós.
E cada tremer, uma nota quebra, cai.
Pensei como era bom eternizar aquele meu instante de alucinação paradisíaca… como o mundo seria perfeito, numa onda de paz, se cambaleasse por toda aquela ardência que senti enquanto estendida no campo…
A melodia da vida tornar-se-ia tão ingénua e sedutora…
Mas acordei.
Da pintura nem tinta sobrou para eu salgar e borrar com minhas lágrimas.
Apenas o golpe vazio da tela em branco…Sentimentos voam com o vento, recordações trazem-nos de volta… a poeira é a minha recordação.



* Aquelas palavras antigas da nossa própria autoria, que só nos dão gozo ler mais tarde...