segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Escrita automática


Joan Miró

“E é assim que me sinto. Engaiolada numa envidraçada bola de sabão. Olho o céu em cinza e as nuvens não passam de giz. E as arestas das formas não são mais que um traço a carvão. A cor do dia limita-se à aguarela tingida no papel que tudo é.
Diria que sinto os martelos das teclas agudas de um piano velho a baterem-me dentro do peito, que o canto me possui o corpo e eu lhe dou voz e fôlego para rebentar em fulgor de amor.
Sei de cor o odor do mar, a textura e as fissuras das pedras de outro universo, os mistérios e segredos desse sonho sobre que tu dormitaste em flagrante noite de pura ingenuidade.
Criança e convalescença, é o sabor da autoria desse sangue por ti pisado e por mim derramado. (...) esse éter do segredo embaciado.
Não sou mais que uma laranja sem fronte nem hoste.
Não sou mais que a vela de um barco em fuste.
- Adentro mar agreste sem leste!
Porque ele é marinheiro.
E cavalga comigo numa falua em nuvens de espuma.
Sopra pétalas brancas de lua flauta fora.
E reinamos num castelo de areia, rodeado de rosas de espuma, onde sou princesa de violeta em veludo.
Somos piratas clandestinos de pesadelos e agonias!
Duendes azuis cintilantes cobrem-nos de chuva doirada e pirilampos invisíveis!
E aqui estamos nós dois no mundo do cubo transparente. Onde o tempo é passado, presente e futuro a tempo inteiro.
E deixas cair migalhas de ouro, para que o sonhador do outro mundo nos encontre, enquanto persegue borboletas e inexistências com a rede que não trás ao ombro dia sim, dia não.
Porque a paz, é fenda ténue, é o fio de seda roxa que não te laça a mim. E isto para mim é ferida e é sangue, é dor e é lamento, é peso, agonia, cardume de incertezas que flúem neste oceano que é o sentimento.”

“Escuto sinais do canto Flausino que me sonhas… leio retratos de memorias que não aconteceram.”

“Fogueiras de recordações de onde saltam sorrisos e brinquedos. A depressão e angústia do abandono e (...).”

“Sou farrapo de teatro, que bailo numa caixa de música, encantada por sopranos de violinos.”

Um comentário:

Sermões Silenciosos disse...

Sensacional. «esse éter do segredo embaciado»