sábado, 6 de outubro de 2007

The Barn - Paula Rego


A minha interpretação da pintura foca-se essencialmente na história das personagens centrais, lendo o restante como objecto de apoio/ alimento ao conflito principal.
Segundo a minha perspectiva, o sujeito artístico pretendia levar o leitor da ilustração à reflexão acerca da busca pelo conhecimento e da sexualidade/maternidade.
A protagonista é a menina do vestido branco, cujo objectivo era o alcance do conhecimento verdadeiro, um momento de epifania, a revelação total, a essência, o auto conhecimento, o amor-próprio.
Tal ideia fora-me sugerida pela presença do girassol e do narciso; passo a explicar, o girassol segue o sol, e o sol remete-me para a simbologia de “Iluminação/conhecimento”, enquanto que o narciso me imediata para a ideia do amor egocêntrico.
A menina do vestido branco, convicta do misticismo oriental, guiou-se pelas ideias esotéricas para alcançar o seu objectivo, movida pela iniciativa que o martelo sugere; o martelo, que representa o operariado urbano, sugere força, que sensacionalmente me inclina para a ideia de iniciativa.
Como sabemos, “O Kamasutra” é uma obra oriental, que além de ser um guia que nos conduz ao prazer, visa acima disso, elevar ao Homem espiritualmente.
Partindo deste princípio, a menina do vestido branco quis provar a “melancia” (sexualidade). Acreditava que desta forma subiria as escadas da ascensão alcançando o infinito céu e o sol, isto é, o infinito conhecimento.
O pequeníssimo Capuchinho Vermelho é mais uma das figuras que me serviu de argumento para fundamentar esta ficção.
Segundo o psicanalista Bruno Betellheinem, a história do CV traduz um episódio pelo qual todas as adolescentes passam: a ditadura do Princípio da Realidade versus o Princípio do Prazer.
As personagens intervenientes na teoria do Principio da Realidade são os pais das adolescentes, que na história do CV equivalem à sua mãe e avó. Exigindo a CV que siga pelo caminho mais seguro, representam a questão do zelar da virgindade das adolescentes por parte das suas famílias. Na teoria do Principio do Prazer, o prazer sexual é representado pela floresta e todos os seus encantos e o representante masculino que induz as adolescentes à vida sexual é o Lobo Mau.
Continuando a reflectir acerca dos objectos circundantes da acção principal, atentemos para os morcegos. Os morcegos funcionam como o representante antagónico do girassol, na ilustração parecem querer cobrir o céu e o sol, figurando os religiosos que, na antiguidade, proibiam o povo de chegar aos livros da igreja, ao conhecimento.
Desta forma, desempenham o papel de entrave na busca da menina do vestido branco. Tal como as meninas que a agridem. Passo a explicar, atentemos para o vestuário dessas meninas, uma delas traja um vestido com rosas, que eram, na Idade Média, atribuídas às virgens (e a Virgem Maria especialmente), assim podemos compreender que esta menina fosse cristã, e agredisse a menina do vestido branco, para a castigar por pecar: pecar, atrevendo-se a chegar ao conhecimento, e pecar o pecado carnal. Quanto à outra menina, reparemos que usa um vestuário simples e banal, talvez surja na ilustração apenas para se acrescentar à outra, representando uma maioria religiosa.
Em relação à vaca, esta consegue funcionar tanto como alimento para a questão do conhecimento como para a questão da sexualidade/maternidade.
Horus, que é um representante egípcio do conhecimento abstracto e concreto, era alimentado por uma deusa vaca. O rato, que mama da teta da vaca, é para os hindus um representante da sabedoria. Conclusão, temos a sabedoria a alimentar-se daquilo que a vaca representa. Filosoficamente, a sabedoria alimenta-se da curiosidade. Podemos então associar a vaca à curiosidade.
Lançando-lhe uma segunda visão, no hinduísmo é atribuído à vaca o título de “grande criadora mãe do mundo”.
Desta forma, a vaca tem um pouco da mesma função representativa da galinha, que é distinta pela protecção maternal dos seus ovos. E falando de ovos, na cultura egípcia temos uma maioria que acredita que o Deus Sol, pai do universo nasceu de uma flor de lótus, mas há também aqueles que acreditam que tenha nascido de um ovo.
Teria então, a menina do vestido branco, simplesmente assaltado o estaleiro, à procura do ovo que continha o grande mestre dos segredos do universo? Para que assim, chegasse ao tão ansiado conhecimento?
Além disto, “ovo e galinha” remete-nos de imediato para a questão: “ Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?”, assim temos mais alimento para fundamentar a minha interpretação geral.
Perto da estante das galinhas está uma senhora, de costas voltadas, a servir-se dos ovos, ignorando o conflito entre as meninas. Compreendo daqui, que a senhora represente a parte da sociedade que é indiferente à disputa religiosa.
Voltando-nos agora para a palha, em certas zonas de África e também no Brasil, existem crentes em orixás, umas divindades inferiores a Deus, e essa sua crença compreende também a atribuição do significado “ascensão e imortalidade da alma” a um género especifico de palha.
Esta ideia inspira-me a conclusão da história da menina do vestido branco, fora agredida até à morte - o próprio facto de estar sobre um manto escuro soa-me a “aqui jaz” (negrume – funerais), e desta vez trajada de rosa claro, a cor do quartzo que transmite amor-próprio, a sua alma ergueu-se do corpo rumo ao céu e ao sol. A menina alcançou o seu ambicioso objectivo.

2 comentários:

Anônimo disse...

Uma explicação deveras exclarecedora.

Sermões Silenciosos disse...

Sensacional. Nem a Paula Rego o interpretaria tão bem. E mete Bruno Benthleihem e Psicanálise dos Contos de Fadas e tudo...Very good!