sexta-feira, 2 de março de 2007

À distância de um toque


Devaneando na minha luta ofegante soprava delírios como “vivo num mundo de sombras, onde as figuras que contemplo são apenas reflexos da realidade de toda a humanidade, e, as vozes não são mais que ecos longínquos, ecos da real melodia…”.
Procurava-me com uma desesperante fúria selvagem que só eu podia compreender.
Numa certa manhã, não muito cedo, já o sol raiava vaidoso, passeei-me pela cidade, uma cidade pacata com as suas tradições apetrechadas. Passeei-me pela praça principal, era hora alta do comércio e aquela zona tornava-se de feira.
No meio daquele mais movimentado que animado cenário feirante, fantasiei um romance.
Um romance em que, o típico mendigo português, sentado na calçada da rua rica soltava a criatividade nas cordas de uma viola.
Mas uma pequena diferença distinguia-o da maioria dos mendigos, este não estendia a boina nem mostrava a pena que sentia de si próprio. Tocava alegremente, apesar do ar fatigado e carente, tinha um sorriso aliciante.
No outro lado do passeio, onde calcariam os meus passos, marchava uma moça fina, “fina de nota” e fina de delicadeza, de classe, de sensibilidade.
Sentei-me no banco de jardim mais próximo, cruzei as pernas à maneira feminina, ergui o isqueiro à boca e suguei da boquilha. Amorteci-me um pouco mais.
A moça pousou no banco de jardim mais próximo, dobrou as pernas ao jeito de princesa, pousou as mãos níveas sobre as pernas e apertou-as com força uma contra a outra, causando uma ligeira dor aos dedos, inclinou ligeiramente a cabeça e assim permaneceu durante horas.
Sem ousar sequer um bocejar, magicava sobre que estaria pensando o pobre músico. Teria ele sentido o mesmo estremecer aquando se dera o cruzar dos olhares? O mesmo efeito de ferver da face envergonhada? O mesmo desequilibrar das pernas? A mesma aceleração do tambor da existência que salta e sufoca no peito?
Enfim… eu chamar-lhe ia paixão, mas quem sou eu para insultar os sentimentos das personagens mistério que me surgem na mente!
E ele tão perto, há distância de um toque… distância essa que se quebraria com uma abertura de diálogo ou um simples aceno.
E pensei eu, tentando abstrair-me de toda esta fantasia soturna e taciturna, que existem coisas que são mais belas quando imaginadas do que quando realizadas. Certos amores platónicos quando transpostos para o mundo físico poder-se-iam detiorar. A distância entre esses dois mundos é menor que um palmo, a distância entre a utopia platónica e o prazer corporal é menor que um palmo, a fantasia e a realidade vivem à distância de um toque uma da outra… como a genialidade da loucura.
Depois de um profundo suspiro, dei por mim a centrar os meus pensamentos em mim própria, afinal era esse o objecto buscado, o grande alvo a ser flechado, EU.
Estivera sempre ali, quando admirava os meus olhos, negros que nem duas azeitonas encaroçadas, frente a frente com o meu reflexo espelhado, à distância de um toque, um singelo toque, ou quando recostava levemente as pálpebras para partir para um profundo descanso, aí a alma se despegava do meu corpo e voava rumo ao seu mundo mais perfeito, o mundo dos sonhos para lá do mundo dos lençóis, uma dimensão que me estava à distância de um toque.
E que mais estará eternamente há distância de um toque?
O mundo da fantasia, do outro lado do espelho! Alice tomou a ousadia de o tocar e para lá se lançou.
O mundo do prazer e dos sonhos, ambos para lá dos lençóis.
A felicidade! Que por vezes está ao nosso alcance através de um diálogo produtivo, de uma actividade excêntrica, de uma nova experiência capaz de nos guiar para o caminho da auto realização.
Mas não. Não aceitamos a chave para todas estas portas.
Somos demasiado cegos quando olhamos o espelho, pois, não contemplamos as curvas do nosso corpo compreendendo que é realmente nosso, e que precisa de ser acarinhado, que é um elo de ligação entre dois mundos imparciais, que é a ele a quem devemos a curta distância de um toque para permanecermos vivos e completos.
Estamos demasiado acordados quando sonhamos, não deixando que a alma liberte os seus desejos.
Não ouvimos as vozes da sabedoria nem que nos gritem com um megafone.
E porquê?
Somente por medo (penso eu) por fobia, enfim. Por fobia de nos encontrarmos.
Não é como passear pela praça rica da cidade e chocar contra alguém que não víamos a muito tempo, alguém que vamos conhecer, não. Chocar contra nós próprios, ganhar a noção de que somos mais imperfeitos do que julgávamos e, de que as nossas verdadeiras virtudes estavam tão camufladas que nunca as reconheceríamos, nem que nos desmontássemos com as instruções de Deus “o construtor”.
E porque aquilo que nos sustenta é a energia da ânsia e esperança desse divino encontro!
Quando nos encontrarmos, que luta nos sustentará?
Alguns acreditam que, a auto realização do ser, vence a morte, abrindo mais uma porta… mas e aqueles que não são crentes?
Viverão sempre à distância de um toque de eles mesmos, da felicidade, do horizonte que temem descobrir…
Como uma “cabra cega”, o jogo em que buscamos por brincadeira, para passar o tempo, para estar ali ,enfim, sem realmente querermos encontrar algo, acertar no alvo.
A cabra cega à distância de um toque…

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