quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

5º Diário - Metáfora do Pânico Dissociativo

















Estou sentada na berma de um copo de água,
com paredes de vidro e sem tecto:
ausente - o rosto apático, o corpo indolente.
O movimento de uma perna,
para a frente, para trás, repetitivamente.
 
Pontualmente, a ponta do pé toca a superfície aquosa,
e ouço um grito estridente, distante -
não como se fosse um eco,
antes como se fosse uma memória.
«Está alguém a gritar» - sei.
Humideço o pé - o grito ressoa
e torna côncavas as paredes de vidro do copo. 
 
O grito-agonia, o grito-estilhaço-de-vidro...!
«É uma menina» - sei.
É urgente. É intermitente:
a indolência, o movimento desobediente da perna morta, o eco do grito.
Um vago incómodo faz-me perguntar:
«quem é?».
 
Toco com as pontas dos dedos na boca:
está em forma de «O».
«Estou calada – porquê a forma em «O» da minha boca?
«O» de ontem – fiz um intervalo no tempo e não voltei:
não tenho reacção à hora do agora.
«O» redondo como a boca do copo,
«O» com fome de realidades convertidas em ilusões,
«O» de um bocejo sonolento e arreliado por ser desperto.

O pé éstá a ser beijado e engolido pela boca em «O» do copo.
A menina grita até rasgar a boca.
É urgente. É intermitente.
Distante. Distante.
A voz va-ga-rooooosa
a compenetrar a parede de vidro entre nós.
Ruído incisivo na dormência eléctrico-estática impenetrável.
 
O «O» escuro da boca sem fundo engole a água asfixiando.
O grito é asfixiante.
A asfixia é a água engolida contra o berro não berrado.
O «O» da boca contorce-se,
afasicamente,
descaindo para a esquerda, enviesando-se num «V»,
de «volta». 
 
Volta! É urgente!
«Sou eu que estou a gritar?, sou eu?, sou eu?, sou eu?»
- pergunta repetitiva, tom mecanizado.
«Não, não posso ser eu (elucido-me):
ouço o eco ao longe
- vago, distante, intermitente.
Mas a minha boca está aberta!
O meu pescoço está hirto!
Estou a asfixiar!»
É urgente! É intermitente!

Estou lúcida e calada,
a boca está dormente e desobediente.
Obedeço-lhe. Grito agoniada.
«AAAAAAAAAAAAH!»
Agora sou um só.

Sentada no grande «O»
do sem-tecto do copo
dou voz à boca aberta
em forma de «O» sonolento.
Associo-me ao eu que asfixia
em gritos-aquosos-de-socorro,
no sem-chão do copo.
O grito estilhaçou
a parede de vidro que distanciava o dúo-eu.
O grito é a ponte
do pânico-dissociativo para o eu-todo.
Distendo os membros mortos-vivos.
Sou um só.
-Sou um só.