- Esgotamento Mental – Insónias e Esquemas Mentais
Tinha
12 anos, ganhei o hábito de baixar a persiana todas as noites ao
mesmo nível, sentia-me feliz, como se me aconchegassem o lençol ao
pescoço, com a luz amarela dos candeeiros da rua a entrar pelo
quarto adentro através dos furinhos mínimos das persianas, e com o
som leve, breve e suave dos carros de passagem e do vento. Sentia-me
feliz, como se recebesse um presente-surpresa, quando acordava a meio
do sono e constatava que não - não tinha mudado nada.
Tinha
13 anos, adormecia com o televisor ligado, reconfortada com os
reflexos luminosos incertos, o meu pai vinha desligá-lo quando
julgava que eu já estava a dormir, e eu, envergonhada, esperava por
ele sair para voltar o acender. Outras vezes tinha realmente
adormecido, mas despertava com o ruído do televisor a desligar.
Entretanto
comecei a adormecer com o comando perto da almofada para desligar o
televisor mesmo antes de adormecer. Cheguei a uma altura em que nem
lembrava de o desligar. E também não me lembrava de dobrar o
pijama, mas acordava com o pijama dobrado ao meu lado, por vezes,
acordei com o movimento dos braços a dobrarem o pijama, pousando-o
cuidadosamente ao lado da almofada. E os lençóis sempre
impecavelmente esticados como se lá não tivesse dormido ninguém.
Tenho
24 anos. Adormeço com uma vela acesa na mesinha-de-cabeceira. Não
suporto qualquer ruído. Certifico-me do silêncio antes de me
permitir descomprimir. Não suportaria que interferissem com o meu
repouso que exige uma cuidadosa sequência de hábitos. Acordo em
pânico quando me interrompem o sono. Não suporto o ruído. Excepto
o som incerto da chuva grossa: não estou só, toda a gente está
igualmente expectante, à espera que passe - eu sou assim. Não
suporto o ruído, ao ponto de acordar quando a minha mãe varre a
casa, por isso proibi-a de varrer, entretanto comecei a acordar com a
esfregona, por isso proibi-a de esfregar, entretanto acordei com um
outro ruído: «não é uma vassoura, mas parece; também não é uma
esfregona, preciso de me levantar para saber o que é: um espanador;
acordei com o varrer de um espanador...?».
Acordo
com a sensação de que tomei uma caixa de benzodiazepinas, estou
muito lenta, muito cansada, muito distante, e tenho de reaprender
tudo, vou seguir a rotina direitinho para voltar a entrar no ritmo
normal, se me fizerem as exigências habituais, automatizo as
respostas habituais.
Agora
suporto a manhã, agora suporto o almoço, agora suporto a tarde,
agora suporto o regresso a casa, agora suporto as actividades
caseiras, agora suporto a noite, mais uma noite, amanhã recomeça
tudo outra vez. Depois tenho de me levantar, depois tenho de tomar o
pantoprazole, depois tenho de desligar o aquecedor, depois tenho de
atirar os lençóis para trás, depois tenho de abrir a janela,
depois tenho de ir à casa-de-banho … Se aguentei ontem, aguento
hoje. Se aguentei ontem, aguento hoje. Se aguentei ontem, aguento
hoje …
Há
2 anos ficava presa ao acordar. Estava lúcida e paralisada –
incapacitada de um movimento muscular mínimo – nem sequer o olho
aberto. Tentava gritar, gritar em vão. Calava-me, unia as forças
todas para de uma só vez tornar o corpo hirto e expelir o grito.
Quando
o corpo despertava estava exausta, transpirada, taquicárdica e
ofegante, tinha tonturas e ia para a casa-de-banho vomitar. O
esforço para gritar era de tal forma real que tinha a garganta
dorida e ligeiramente enrouquecida. O pescoço e o estômago estavam
muito tensos. Tinha cãimbras na língua.
Mas
a cama estava intacta, como se fosse impossível que algum corpo ali
tivesse lutado.
Por
vezes rendia-me e esforçava-me por adormecer, já que aparentemente
estava a dormir, e não ia conseguir acordar.
Por
vezes aconteciam coisas à minha volta. Entravam no quarto, falavam
comigo, saiam, e eu queria tanto reagir, que soubessem que precisava
que me acordassem, por vezes, simplesmente imaginava que aconteciam
coisas à minha volta.
Por
vezes, o sonho era mais real – a percepção da luz e do som era
mais intensa – e ao acordar o cenário era vago – como se visse
mal, ouvisse mal ! Era mais matérica no sonho. Quando acordava
sentia-me distante, dormente, sem tacto. Menos emotiva. Desrealizada.
Estranhava os movimentos, que não correspondiam à velocidade que eu
impunha, tentava disfarçar barrando um pão com manteiga com pressa,
e era quando o meu pai me perguntava «o que é que tens?, o que é
que tomaste?», «eu?, eu não tomei nada...».
Acordava
num estado de exaustão quando tinha sonhos visualmente muito
cansativos. Sonhos conscientes mas impossíveis de interromper.
Sonhos em que as personagens têm formas sinuosas, prolongadas,
esticadas, como sombras esguias, e os meus movimentos são muito
lentos, a sensação é de frustração e impotência, porque «nunca
vou a tempo de algo importante», e por mais esquemas e jogos mentais
que faça, caio sempre num cenário sem soluções.
Durante
muitos anos sonhei que me afogava, o mar engolia-me e eu agarrava-me
ao areal tentando trepá-lo. No último instante emergia das ondas e
respirava de alívio. No último sonho com esse tema, quando
finalmente alcancei o rochedo seguro, fui surpreendida por uma onda
vinda dum lado onde supostamente não existia mar. Não voltei a
sonhá-lo.
Esta
sensação de luta dentro de um jogo interminável cheio de
armadilhas e soluções improvisadas, chegava a acompanhar situações
de crise emocional, em que, por mais que tivesse noção do absurdo
do pensamento, questionava «quando é que o jogo acaba?, quando é
que me dizem que já prestei provas suficientes e que a minha vida
vai começar?»
Entretanto,
essa ilusão de que um dia o jogo terminará e terei uma vida normal,
passou a ser acompanhada de fantasias desproporcionalmente
gloriosas como por exemplo, ir a Nova York receber um prémio de «o
melhor negociante» e ficar noiva de um banqueiro. Passei dias
inteiros, a alimentar a minha boa-disposição com a elaboração de
uma história pormenorizada dessa fantasia, e terminava o dia
eufórica, exausta, com dor de cabeça latejante, e vómitos.
Aos
17 anos, levantava-me da cama para tirar as pilhas do relógio da
cozinha «tcheque tcheqe tcheque», para desligar o frigorífico,
porque ouvia as gotas escorrerem no fundo «...guite ...guite
…guite», perguntava incessantemente quem é que estava a escrever
mensagens no telemóvel, porque ouvia as teclas ''bip bip bip''.
Entretanto virei-me para o lado, e sinto o lençol engelhado, e o
peso dos cobertores está mal distribuído, e o algodão da almofada
está todo acumulado numa só ponta.


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