quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

2º Diário – Visão Geral : Pré-adolescência; Adolescência; Adulta

















- Esgotamento Mental – Insónias e Esquemas Mentais

Tinha 12 anos, ganhei o hábito de baixar a persiana todas as noites ao mesmo nível, sentia-me feliz, como se me aconchegassem o lençol ao pescoço, com a luz amarela dos candeeiros da rua a entrar pelo quarto adentro através dos furinhos mínimos das persianas, e com o som leve, breve e suave dos carros de passagem e do vento. Sentia-me feliz, como se recebesse um presente-surpresa, quando acordava a meio do sono e constatava que não - não tinha mudado nada.
Tinha 13 anos, adormecia com o televisor ligado, reconfortada com os reflexos luminosos incertos, o meu pai vinha desligá-lo quando julgava que eu já estava a dormir, e eu, envergonhada, esperava por ele sair para voltar o acender. Outras vezes tinha realmente adormecido, mas despertava com o ruído do televisor a desligar.
Entretanto comecei a adormecer com o comando perto da almofada para desligar o televisor mesmo antes de adormecer. Cheguei a uma altura em que nem lembrava de o desligar. E também não me lembrava de dobrar o pijama, mas acordava com o pijama dobrado ao meu lado, por vezes, acordei com o movimento dos braços a dobrarem o pijama, pousando-o cuidadosamente ao lado da almofada. E os lençóis sempre impecavelmente esticados como se lá não tivesse dormido ninguém.
Tenho 24 anos. Adormeço com uma vela acesa na mesinha-de-cabeceira. Não suporto qualquer ruído. Certifico-me do silêncio antes de me permitir descomprimir. Não suportaria que interferissem com o meu repouso que exige uma cuidadosa sequência de hábitos. Acordo em pânico quando me interrompem o sono. Não suporto o ruído. Excepto o som incerto da chuva grossa: não estou só, toda a gente está igualmente expectante, à espera que passe - eu sou assim. Não suporto o ruído, ao ponto de acordar quando a minha mãe varre a casa, por isso proibi-a de varrer, entretanto comecei a acordar com a esfregona, por isso proibi-a de esfregar, entretanto acordei com um outro ruído: «não é uma vassoura, mas parece; também não é uma esfregona, preciso de me levantar para saber o que é: um espanador; acordei com o varrer de um espanador...?».
Acordo com a sensação de que tomei uma caixa de benzodiazepinas, estou muito lenta, muito cansada, muito distante, e tenho de reaprender tudo, vou seguir a rotina direitinho para voltar a entrar no ritmo normal, se me fizerem as exigências habituais, automatizo as respostas habituais.
Agora suporto a manhã, agora suporto o almoço, agora suporto a tarde, agora suporto o regresso a casa, agora suporto as actividades caseiras, agora suporto a noite, mais uma noite, amanhã recomeça tudo outra vez. Depois tenho de me levantar, depois tenho de tomar o pantoprazole, depois tenho de desligar o aquecedor, depois tenho de atirar os lençóis para trás, depois tenho de abrir a janela, depois tenho de ir à casa-de-banho … Se aguentei ontem, aguento hoje. Se aguentei ontem, aguento hoje. Se aguentei ontem, aguento hoje …
Há 2 anos ficava presa ao acordar. Estava lúcida e paralisada – incapacitada de um movimento muscular mínimo – nem sequer o olho aberto. Tentava gritar, gritar em vão. Calava-me, unia as forças todas para de uma só vez tornar o corpo hirto e expelir o grito.
Quando o corpo despertava estava exausta, transpirada, taquicárdica e ofegante, tinha tonturas e ia para a casa-de-banho vomitar. O esforço para gritar era de tal forma real que tinha a garganta dorida e ligeiramente enrouquecida. O pescoço e o estômago estavam muito tensos. Tinha cãimbras na língua.
Mas a cama estava intacta, como se fosse impossível que algum corpo ali tivesse lutado.
Por vezes rendia-me e esforçava-me por adormecer, já que aparentemente estava a dormir, e não ia conseguir acordar.
Por vezes aconteciam coisas à minha volta. Entravam no quarto, falavam comigo, saiam, e eu queria tanto reagir, que soubessem que precisava que me acordassem, por vezes, simplesmente imaginava que aconteciam coisas à minha volta.
Por vezes, o sonho era mais real – a percepção da luz e do som era mais intensa – e ao acordar o cenário era vago – como se visse mal, ouvisse mal ! Era mais matérica no sonho. Quando acordava sentia-me distante, dormente, sem tacto. Menos emotiva. Desrealizada. Estranhava os movimentos, que não correspondiam à velocidade que eu impunha, tentava disfarçar barrando um pão com manteiga com pressa, e era quando o meu pai me perguntava «o que é que tens?, o que é que tomaste?», «eu?, eu não tomei nada...».
Acordava num estado de exaustão quando tinha sonhos visualmente muito cansativos. Sonhos conscientes mas impossíveis de interromper. Sonhos em que as personagens têm formas sinuosas, prolongadas, esticadas, como sombras esguias, e os meus movimentos são muito lentos, a sensação é de frustração e impotência, porque «nunca vou a tempo de algo importante», e por mais esquemas e jogos mentais que faça, caio sempre num cenário sem soluções.
Durante muitos anos sonhei que me afogava, o mar engolia-me e eu agarrava-me ao areal tentando trepá-lo. No último instante emergia das ondas e respirava de alívio. No último sonho com esse tema, quando finalmente alcancei o rochedo seguro, fui surpreendida por uma onda vinda dum lado onde supostamente não existia mar. Não voltei a sonhá-lo.
Esta sensação de luta dentro de um jogo interminável cheio de armadilhas e soluções improvisadas, chegava a acompanhar situações de crise emocional, em que, por mais que tivesse noção do absurdo do pensamento, questionava «quando é que o jogo acaba?, quando é que me dizem que já prestei provas suficientes e que a minha vida vai começar?»
Entretanto, essa ilusão de que um dia o jogo terminará e terei uma vida normal, passou a ser acompanhada de fantasias desproporcionalmente gloriosas como por exemplo, ir a Nova York receber um prémio de «o melhor negociante» e ficar noiva de um banqueiro. Passei dias inteiros, a alimentar a minha boa-disposição com a elaboração de uma história pormenorizada dessa fantasia, e terminava o dia eufórica, exausta, com dor de cabeça latejante, e vómitos.
Aos 17 anos, levantava-me da cama para tirar as pilhas do relógio da cozinha «tcheque tcheqe tcheque», para desligar o frigorífico, porque ouvia as gotas escorrerem no fundo «...guite ...guite …guite», perguntava incessantemente quem é que estava a escrever mensagens no telemóvel, porque ouvia as teclas ''bip bip bip''. Entretanto virei-me para o lado, e sinto o lençol engelhado, e o peso dos cobertores está mal distribuído, e o algodão da almofada está todo acumulado numa só ponta.

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