Estou
sentada na berma de um copo de água,
com
paredes de vidro e sem tecto:
ausente
- o rosto apático, o corpo indolente.
O
movimento de uma perna,
para
a frente, para trás, repetitivamente.
Pontualmente,
a ponta do pé toca a superfície aquosa,
e
ouço um grito estridente, distante -
não
como se fosse um eco,
antes
como se fosse uma memória.
«Está alguém a gritar» - sei.
Humideço
o pé - o grito ressoa
e
torna côncavas as paredes de vidro do copo.
O
grito-agonia, o grito-estilhaço-de-vidro...!
«É
uma menina» - sei.
É
urgente. É intermitente:
a
indolência, o movimento desobediente da perna morta, o eco do grito.
Um
vago incómodo faz-me perguntar:
«quem
é?».
Toco
com as pontas dos dedos na boca:
está
em forma de «O».
«Estou
calada – porquê a forma em «O» da minha boca?
«O»
de ontem – fiz um intervalo no tempo e não voltei:
não
tenho reacção à hora do agora.
«O»
redondo como a boca do copo,
«O»
com fome de realidades convertidas em ilusões,
«O»
de um bocejo sonolento e arreliado por ser desperto.
O
pé éstá a ser beijado e engolido pela boca em «O» do copo.
A
menina grita até rasgar a boca.
É
urgente. É intermitente.
Distante.
Distante.
A
voz va-ga-rooooosa
a
compenetrar a parede de vidro entre nós.
Ruído
incisivo na dormência eléctrico-estática impenetrável.
O
«O» escuro da boca sem fundo engole a água asfixiando.
O
grito é asfixiante.
A
asfixia é a água engolida contra o berro não berrado.
O
«O» da boca contorce-se,
afasicamente,
descaindo
para a esquerda, enviesando-se num «V»,
de
«volta».
Volta! É urgente!
«Sou
eu que estou a gritar?, sou eu?, sou eu?, sou eu?»
-
pergunta repetitiva, tom mecanizado.
«Não,
não posso ser eu (elucido-me):
ouço
o eco ao longe
-
vago, distante, intermitente.
Mas
a minha boca está aberta!
O
meu pescoço está hirto!
Estou
a asfixiar!»
É
urgente! É intermitente!
Estou
lúcida e calada,
a
boca está dormente e desobediente.
Obedeço-lhe.
Grito agoniada.
«AAAAAAAAAAAAH!»
Agora
sou um só.
Sentada
no grande «O»
do
sem-tecto do copo
dou
voz à boca aberta
em
forma de «O» sonolento.
Associo-me
ao eu que asfixia
em
gritos-aquosos-de-socorro,
no
sem-chão do copo.
O
grito estilhaçou
a
parede de vidro que distanciava o dúo-eu.
O
grito é a ponte
do
pânico-dissociativo para o eu-todo.
Distendo
os membros mortos-vivos.
Sou
um só.
-Sou um só.
-Sou um só.


Um comentário:
Fabuloso!!!
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