quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

3º Diário - Adulta














- Riqueza Patológica versus Pobreza Cognitiva
- Auto-focus; Incércia; Hiperactividade

* Parte I
  
Tenho 24 anos. Recuso-me a acender a luz do quarto a meio da noite, para não fixar transtornada a desarrumação visualmente cansativa: está tudo um milímetro ao lado do planeado, as dobras das cortinas nunca caem como devem, a cama não precisa de ser refeita porque eu durmo es-tá-ti-ca. Se começo a arrumar, não durmo. Uma vez faltei a um teste porque não podia começar a estudar enquanto não estivesse tudo aspirado, esfregado e milimetricamente organizado – a arrumação é a minha única obssessão. Tenho sempre coisas para fazer antes das coisas que (realmente ) tenho para fazer. Os preparativos são sempre mais exigentes e prolongados do que as próprias actividades. Eram 3h da manhã e eu precisava de dormir. Portanto inventei uma ruptura num cano. Não posso estudar sem arrumar. Não posso ler sem arrumar. Não posso escrever sem arrumar. Não posso falar sem arrumar. A desarrumação interfere com a linha do discurso. Faz-me tropeçar, enrolar a língua, engasgar, ranger os dentes, esticar os lábios. Por falar nisso, auto-focar-me durante as refeições também é proibido – como é que compatibilizo o movimento do maxilar, com o movimento da língua...? Como é que sei se já posso engolir...? Como é que posso mastigar e simultaneamente coordenar os talheres? Os mecanismos confudem-se. As velocidades confundem-se. E aquelas pessoas que conseguem comer e ver televisão ao mesmo tempo ?! E conversar, conversar, conversar...

Talvez eu tenha sido sempre dissociada, descobri a histeria para conseguir envolver-me com os outros. E quando não suporto mais não ser eu, faço conversões.

Na infância, a sensação de ausência nos envolvimentos com os outros, levava-me a usar o tom de quem canta para romper a distância, sendo que o meu comportamento anti-social fora substituído por um comportamento activo, evasico, brusco, desajeitado, com oscilações entre momentos de seriedade intensa e momentos de frivolidade discursiva. 



* Parte II 

Hoje, quanto mais dissociada estou, mais falo, falo compulsivamente, para ter a certeza de que não desapareço, e quando estou muito vulnerável ao pânico, se não me respondem imediatamente perco a certeza se terei falado ou não, se estarei presa dentro de mim. Ouço a minha voz ao longe, em eco, como uma lengalenga gravada, utilizo bengalas linguísticas, apoiando-me em frases de conveniência, tenho a sensação de que uso um disfarse, e ouço de fora essa farsa tão convincente, e diferente de quem sou, do que quero dizer, do que diria se tivesse a velocidade mental e verbal correcta. Lembro-me de ser sóbria, de ter um raciocínio claro e limpo, e de controlar cada palavra, entoação, gesto e expressão, o que também me parece anti-natural. Mas pelo menos era mais real, apesar de excessivamente racionalizado e auto-focado. E era a minha vantagem na aprendizagem do teatro.

Os meus músculos são rígidos e a minha fala é farsada – pareço o pinóquio, que sempre quis ser como uma criança de carne, fluida e fluente.

Recordo-me de faltar às aulas da escola primária durante semanas, quando voltava a professora testava a minha capacidade de leitura e dizia enfurecida «eu não sei como é que tu sabes ler», nas aulas de produção textual, o meu texto era sempre nomeado para leitura em voz alta, e eu preferia que fosse um colega a lê-lo por achar que era muito presunçoso além de expôr boas palavras, expô-las numa boa entoação.

Hoje, não tenho palavras, não tenho expressão. Reproduzo um número limitado de conversas, com um vocabulário pobre e uma construção frásica labiríntica; não selecciono informação e tenho dificuldade com perguntas de resposta «sim/ não»; por vezes, adopto flexões de discurso num ritmo repetitivo, com a intenção de proporcionar o discorrer do discurso, sem que perca a memória das ideias – acho que aprendi isso com o exercício da tabuada, e, acompanho o discurso com expressões faciais ou desadequadas ou bastante mais acentuadas do que pretendo. A prioridade é falar, falar, falar continuamente para não desaparecer.

Por vezes falo, falo mesmo sem ocasião – não há relação com a acção, não há relação com a sensação, não há relação com a ideia. Pode ser qualquer coisa. Posso mesmo estar sozinha.

Por vezes ouço um turbilhão de letras: SKDFHSDFHSIFHIU. E por vezes reproduzo o ruído. Por vezes, sacudo os pulsos freneticamente como se quisesse retirar o que disse - tal como as pessoas abanam a cabeça quando querem esclarecer um mal-entendido.

Por vezes, depois caio no vácuo. Estou lenta, muito lenta, com a maior lentidão do mundo. As palavras ocorrem-me vagarosas, improferíveis. As conversas são incompreensíveis: como é que falam tão rápido? Tão, tão rápido? Não consigo acompanhar. Também não me ocorrem respostas. A própria voz está cansada. Falo baixo.

Há outros ruídos – que não são reproduzíveis, porque não são sequer exactamente audíveis, mas a sensação é comparável: ao canal do televisor sem frequência.

Sou cega. Sou surda. Sou muda.

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