- Riqueza Patológica versus Pobreza Cognitiva
- Auto-focus; Incércia; Hiperactividade
* Parte I
* Parte I
Tenho
24 anos. Recuso-me a acender a luz do quarto a meio da noite, para
não fixar transtornada a desarrumação visualmente cansativa: está
tudo um milímetro ao lado do planeado, as dobras das cortinas nunca
caem como devem, a cama não precisa de ser refeita porque eu durmo
es-tá-ti-ca. Se começo a arrumar, não durmo. Uma vez faltei a um
teste porque não podia começar a estudar enquanto não estivesse
tudo aspirado, esfregado e milimetricamente organizado – a
arrumação é a minha única obssessão. Tenho sempre coisas para
fazer antes das coisas que (realmente ) tenho para fazer. Os
preparativos são sempre mais exigentes e prolongados do que as
próprias actividades. Eram 3h da manhã e eu precisava de dormir.
Portanto inventei uma ruptura num cano. Não posso estudar sem
arrumar. Não posso ler sem arrumar. Não posso escrever sem arrumar.
Não posso falar sem arrumar. A desarrumação interfere com a linha
do discurso. Faz-me tropeçar, enrolar a língua, engasgar, ranger os
dentes, esticar os lábios. Por falar nisso, auto-focar-me durante as
refeições também é proibido – como é que compatibilizo o
movimento do maxilar, com o movimento da língua...? Como é que sei
se já posso engolir...? Como é que posso mastigar e simultaneamente
coordenar os talheres? Os mecanismos confudem-se. As velocidades
confundem-se. E aquelas pessoas que conseguem comer e ver televisão
ao mesmo tempo ?! E conversar, conversar, conversar...
Talvez
eu tenha sido sempre dissociada, descobri a histeria para conseguir
envolver-me com os outros. E quando não suporto mais não ser eu,
faço conversões.
Na
infância, a sensação de ausência nos envolvimentos com os outros,
levava-me a usar o tom de quem canta para romper a distância, sendo
que o meu comportamento anti-social fora substituído por um
comportamento activo, evasico, brusco, desajeitado, com oscilações
entre momentos de seriedade intensa e momentos de frivolidade
discursiva.
* Parte II
Hoje, quanto mais dissociada estou, mais falo, falo compulsivamente, para ter a certeza de que não desapareço, e quando estou muito vulnerável ao pânico, se não me respondem imediatamente perco a certeza se terei falado ou não, se estarei presa dentro de mim. Ouço a minha voz ao longe, em eco, como uma lengalenga gravada, utilizo bengalas linguísticas, apoiando-me em frases de conveniência, tenho a sensação de que uso um disfarse, e ouço de fora essa farsa tão convincente, e diferente de quem sou, do que quero dizer, do que diria se tivesse a velocidade mental e verbal correcta. Lembro-me de ser sóbria, de ter um raciocínio claro e limpo, e de controlar cada palavra, entoação, gesto e expressão, o que também me parece anti-natural. Mas pelo menos era mais real, apesar de excessivamente racionalizado e auto-focado. E era a minha vantagem na aprendizagem do teatro.
* Parte II
Hoje, quanto mais dissociada estou, mais falo, falo compulsivamente, para ter a certeza de que não desapareço, e quando estou muito vulnerável ao pânico, se não me respondem imediatamente perco a certeza se terei falado ou não, se estarei presa dentro de mim. Ouço a minha voz ao longe, em eco, como uma lengalenga gravada, utilizo bengalas linguísticas, apoiando-me em frases de conveniência, tenho a sensação de que uso um disfarse, e ouço de fora essa farsa tão convincente, e diferente de quem sou, do que quero dizer, do que diria se tivesse a velocidade mental e verbal correcta. Lembro-me de ser sóbria, de ter um raciocínio claro e limpo, e de controlar cada palavra, entoação, gesto e expressão, o que também me parece anti-natural. Mas pelo menos era mais real, apesar de excessivamente racionalizado e auto-focado. E era a minha vantagem na aprendizagem do teatro.
Os
meus músculos são rígidos e a minha fala é farsada – pareço o
pinóquio, que sempre quis ser como uma criança de carne, fluida e
fluente.
Recordo-me
de faltar às aulas da escola primária durante semanas, quando
voltava a professora testava a minha capacidade de leitura e dizia
enfurecida «eu não sei como é que tu sabes ler», nas aulas de
produção textual, o meu texto era sempre nomeado para leitura em
voz alta, e eu preferia que fosse um colega a lê-lo por achar que
era muito presunçoso além de expôr boas palavras, expô-las numa
boa entoação.
Hoje,
não tenho palavras, não tenho expressão. Reproduzo um número
limitado de conversas, com um vocabulário pobre e uma construção
frásica labiríntica; não selecciono informação e tenho
dificuldade com perguntas de resposta «sim/ não»; por vezes,
adopto flexões de discurso num ritmo repetitivo, com a intenção de
proporcionar o discorrer do discurso, sem que perca a memória das
ideias – acho que aprendi isso com o exercício da tabuada, e, acompanho o discurso com
expressões faciais ou desadequadas ou bastante mais acentuadas do
que pretendo. A prioridade é falar, falar, falar continuamente para
não desaparecer.
Por
vezes falo, falo mesmo sem ocasião – não há relação com a
acção, não há relação com a sensação, não há relação com
a ideia. Pode ser qualquer coisa. Posso mesmo estar sozinha.
Por
vezes ouço um turbilhão de letras: SKDFHSDFHSIFHIU. E por vezes
reproduzo o ruído. Por vezes, sacudo os pulsos freneticamente como
se quisesse retirar o que disse - tal como as pessoas abanam a cabeça
quando querem esclarecer um mal-entendido.
Por
vezes, depois caio no vácuo. Estou lenta, muito lenta, com a maior
lentidão do mundo. As palavras ocorrem-me vagarosas, improferíveis.
As conversas são incompreensíveis: como é que falam tão rápido?
Tão, tão rápido? Não consigo acompanhar. Também não me ocorrem
respostas. A própria voz está cansada. Falo baixo.
Há
outros ruídos – que não são reproduzíveis, porque não são
sequer exactamente audíveis, mas a sensação é comparável: ao
canal do televisor sem frequência.
Sou
cega. Sou surda. Sou muda.


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