Um
outro eu, contrai um grito no estômago tenso, enrijece o pescoço,
dilata as bochechas como se fosse um peixe, e deixa a língua-morta
caír - porque não tem voz.
Às
vezes, não consigo parar de mexer os dedos, mexer, mexer, mexer,
corro-os todos, principalmente os dedos da mão esquerda,
principalmente quando ando na rua sozinha, antes, utilizava a
justificação de que corria a escala de «Dó», contava 5 dedos –
1, 2, 3, 4, 5!, 4, 3, 2, 1!, 2, 3, 4, 5! - depois o dedo médio cruza por cima do polegar e contava mais 3 - 6, 7, 8!, 7,6 -, mas agora não,
agora só mexo, mexo, mexo. Às vezes, tenho a impressão de que a
intenção é manter-me concentrada. Porque estou sempre sonolenta.
Agora que penso nisso, outras vezes, em vez de mexer os dedos das
mãos, contraio os dedos dos pés, dobro-os, desdobro-os, e
encavalito-os uns em cima dos outros, até ter cãimbras. Também
tenho cãimbras na língua. E estico a língua histericamente para as
contrariar.
Quatro pontos mentais: direito/ esquerdo!/ esquerdo/ direito; esquerdo/ direito!/ direito/ esquerdo; esquerdo/ direito!/ direito/ esquerdo; direito/ esquerdo!/ esquerdo/ direito. Um, dois, três, qua-trum!, dois três, quaaaaa-truuuuuum!
Vermelho, laranja, amarelo, verde. Amarelo, verde, vermelho, laranja. Laranja, vermelho, verde, amarelo. Verde, amarelo, laranja, vermelho.
Cima, cima, baixo, baixo. Baixo, baixo, cima, cima. Cima, cima, baixo, baixo. Baixo, baixo, cima, cima.
Direito-cima-vermelho/ Esquerdo-cima-laranja/ Esquerdo-baixo-amarelo/ Direito-baixo-verde... Esquerdo-baixo-amarelo/ Direito-baixo-verde/ Direito-cima-vermelho/ Esquerdo-cima-laranja... Esquerdo-cima-laranja/ Direito-cima-vermelho/ Direito-baixo-verde/ Esquerdo-baixo-amarelo... Direito-baixo-verde/ Esquerdo-baixo-amarelo/ Esquerdo-cima-laranja/ Direito-cima-vermelho...
Ponta do pé direito, ponta do pé esquerdo, calcanhar esquerdo, calcanhar direito... Direito, esquerdo!, esquerdo, direito... Esquerdo, direito, direito, esquerdo... Calcanhar esquerdo, calcanhar direito, ponta do pé direito, ponta do pé esquerdo...
Agora com os pés trocados (pernas cruzadas)...
Agora com as cores...
Agora com os números...
Agora troco as pontas dos pés e os calcanhares pelas pontas dos dedos das mãos e pelos pulsos... Agora os pulsos fazem par com os cotovelos...
Repetir, repetir, repetir. Associar, associar, associar. Fixar, fixar, fixar.
Assim não vou esquecer nem o esquerdo nem o direito.
As pessoas normais não se perdem nestes jogos maníacos, pois não?
Vermelho, laranja, amarelo, verde. Amarelo, verde, vermelho, laranja. Laranja, vermelho, verde, amarelo. Verde, amarelo, laranja, vermelho.
Cima, cima, baixo, baixo. Baixo, baixo, cima, cima. Cima, cima, baixo, baixo. Baixo, baixo, cima, cima.
Direito-cima-vermelho/ Esquerdo-cima-laranja/ Esquerdo-baixo-amarelo/ Direito-baixo-verde... Esquerdo-baixo-amarelo/ Direito-baixo-verde/ Direito-cima-vermelho/ Esquerdo-cima-laranja... Esquerdo-cima-laranja/ Direito-cima-vermelho/ Direito-baixo-verde/ Esquerdo-baixo-amarelo... Direito-baixo-verde/ Esquerdo-baixo-amarelo/ Esquerdo-cima-laranja/ Direito-cima-vermelho...
Ponta do pé direito, ponta do pé esquerdo, calcanhar esquerdo, calcanhar direito... Direito, esquerdo!, esquerdo, direito... Esquerdo, direito, direito, esquerdo... Calcanhar esquerdo, calcanhar direito, ponta do pé direito, ponta do pé esquerdo...
Agora com os pés trocados (pernas cruzadas)...
Agora com as cores...
Agora com os números...
Agora troco as pontas dos pés e os calcanhares pelas pontas dos dedos das mãos e pelos pulsos... Agora os pulsos fazem par com os cotovelos...
Repetir, repetir, repetir. Associar, associar, associar. Fixar, fixar, fixar.
Assim não vou esquecer nem o esquerdo nem o direito.
As pessoas normais não se perdem nestes jogos maníacos, pois não?


2 comentários:
O sistema nervoso funciona como uma natureza em movimento dentro de nós, procurando por níveis de complexidade sempre crescente.
As outras pessoas, das duas uma, ou têm mais estímulos do que tu para onde podem drenar essa procura pela complexidade, ou então, podem não ter igualmente grandes estímulos, mas também não têm a capacidade mental/ fluidez que tens tendência a desvalorizar em ti. Toda tu, procura pela essência, pelo âmago das coisas, pela complexidade.
O teu problema é teres medo, medo de esquecer, medo de não teres a "informação" disponível para que sintas o teu encéfalo vivo de de boa saúde e que não te percas. Talvez se não fosses assim tão "rígida" devido a esse medo, talvez não te questionasses se as outras pessoas se perdem ou não nesses jogos maníacos de que falas.
P.S. e já agora, o titulo do blog, embora que possa parecer um tanto poético e em sintonia com a literatura e estados de espírito que possas estar a experienciar, não é de todo apropriado à tua saúde mental, sendo que, o ideal seria troca-lo por algo mais apropriado e fora desse registo, num sentido de quebrar o ciclo dessa "complexidade" que te desgasta e consome.
Antes de ler esse comentário : Nuno, o meu blog não é um exame de psicologia -.-' ...
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