«-Vamos
ver quanto tempo aguentas debaixo de água; bem podes berrar que
ninguém te vai ouvir».
Entretanto
rebentei os pulmões. Esqueceram-se de mim. E quando se aperceberam,
disseram que não faz mal. As pessoas à volta justificaram-se,
pensaram que tinha mergulhado voluntariamente, como qualquer outra
pessoa. Mas eu estive a esbracejar e espernear, com os braços e as
pernas amputadas. E a ensurdecer num berro que morre antes de ser
berro. E o pior, é que de tanto mo repetirem, menosprezando o
sofrimento, eu estou a habituar-me a concordar, até porque é menos
múltiplo, e digo «foi só um mergulho, e estou pronta para outro»,
enganando-me, despersonalizando-me, e sentindo-me menos só, porque a
compreensão do acto realizado é igual à percepção alheia. E por
ceder, por não me permitir entrar constantemente em conflito com a
leitura dos outros, um dia, quando me queixar, vou ser credível.

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