quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

4º Diário - Anotamento de um Estado Mental

«-Vamos ver quanto tempo aguentas debaixo de água; bem podes berrar que ninguém te vai ouvir».

Entretanto rebentei os pulmões. Esqueceram-se de mim. E quando se aperceberam, disseram que não faz mal. As pessoas à volta justificaram-se, pensaram que tinha mergulhado voluntariamente, como qualquer outra pessoa. Mas eu estive a esbracejar e espernear, com os braços e as pernas amputadas. E a ensurdecer num berro que morre antes de ser berro. E o pior, é que de tanto mo repetirem, menosprezando o sofrimento, eu estou a habituar-me a concordar, até porque é menos múltiplo, e digo «foi só um mergulho, e estou pronta para outro», enganando-me, despersonalizando-me, e sentindo-me menos só, porque a compreensão do acto realizado é igual à percepção alheia. E por ceder, por não me permitir entrar constantemente em conflito com a leitura dos outros, um dia, quando me queixar, vou ser credível.

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