«(...) quão pouco podia dilatar o que ainda lhe restava, e absorver, como nos dias juvenis, as cores, o sabor, o tom da existência.» Virgínia Woolf
- Comportamento anti-social/ Comportamento histeriónico
- Conflito: contextos diversos; realidades alternativas
Julgava-me uma criança introspectiva – entretanto ocorreu-me que talvez tivesse sofrido episódios dissociativos desde a infância, e resolvi noemar alguns.
Tinha 9 anos quando comecei a envolver-me com os meus pares - as meninas da minha classe.
Recordo-me de num intervalo estarmos quatro raparigas fechadas numa casa-de-banho minúscula - uma contra a porta, outra em cima da sanita, e as outras duas, incluindo eu, encostadas às paredes laterais, com as nossas batas azul-escolar.
Tinha percepção do porquê da sensação de cumplicidade e euforia das meninas: estavam a partilhar um momento ultra-secreto, eram elas e só elas – ou nós e só nós – longe dos meninos e das professoras, que só serviam para nos contrariar – zombar das nossas brincadeiras e dar-nos ordens – aquela casa-de-banho era reservada às professoras e nós infringíamos a regra.
Todos elas tinham um lugar: a que tinha as ideias e tomava as iniciativas; a que expunha as prudências a tomar facilitando o plano; a que as imitava; e eu, que as observava a conversar, conversar, conversar, rir e conversar, entreolharem-se intimamente. Pensava «como é que elas conseguem simplesmente falar, simplesmente rir, simplesmente gesticular, simplesmente estar, sem que sequer se apercebam ? As sensações de euforia e cumplicadade são maiores do que a percepção do passo-a-passo.».
Eu não costumava opinar. Até porque os assuntos não me sensibilizavam particularmente: rapazes do 4º ano, soutiens, lanches em casa umas das outras, castigos ao fim-de-semana, trabalhos-de-casa de inglês, o grupo de dança, a novela da Sic.
Eu, em casa, pensava nas respostas às questões, e concluía que não ia ser capaz de lhes explicar...
Os rapazes do 4º ano eram grandes e assustadores – porque faziam tudo mais rápido do que nós, corriam mais, falavam mais alto, e isolavam-se num outro recreio onde falavam baixinho e davam grandes gargalhadas - , mas o que se sentava ao meu lado interessava-me, porque acertava em todas as contas, e o que se sentava à minha frente interessava-me, porque a professora lhe batia, e o que era repetente interessava-me, porque cheirava mal como se não lhe dessem banho e faltava-lhe material escolar, também me interessava o que não trazia bata e se vestia de benfiquista, porque apesar de dar muito nas vistas era ignorado.
Eu não usava soutien nem para lá caminhava, porque era muito enfezadinha - «oh, não iria chegar o meu dia!, não iriam reparar em mim» (tomára que chegasse) ; «oh, e se chegasse...?, como iria explicar e pedir à minha mãe...?» (tomára que não chegasse).
Nunca frequentára a casa de uma colega, nem sequer para um aniversário: mas nesse ano fui ao lanche do rapaz das contas, foi a primeira vez.
Castigos, não tinha, não tinha regras, aliás, se não quisesse ir para a escola, não ia, bastava fingir que ainda estava a dormir, para não ouvir a pergunta monocórdica «Vais para a escola? Queres Nestum? Ou ficas a brincar com as bonecas e a ver Tom & Jerry?»
Era esse o meu mundo: as bonecas e as suas 30 personalidades e os desenhos animados - tinha 10 anos, o meu pai ia retirar o vidro exterior do televisor para o limpar, e eu entrei em pânico a pensar que ia matar os desenhos animados -, chegou a uma altura em que a minha resposta dependia da do meu irmão, e vice-versa.
Os trabalhos-de-casa eram fáceis. Muitas vezes não ia à escola, mas até gostava que a minha mãe passasse por lá para me trazer o apontamento dos trabalhos a cumprir. E às vezes, inventava-os: perguntas e respostas acerca das histórias dos meus livros.
Grupo de dança? Eu não tinha nenhuma actividade fora da escola, e recusar-me-ia a dançar, só de imaginar envergonhava-me: corava as bochechas, tremia as mãos apertadas com força, baixava a cabeça para esconder os olhos húmidos e engolia discretamente o nó na garganta. Depois tive de aprender a falar (a reagir), abria um sorriso muito nervoso, inclinava a cabeça e dizia como quem canta que não tinha muito jeito para isso, e perguntava se podia assistir ao ensaio.
No final da 4ª classe, dançava na fila da frente, fazia carinhas para as fotografias, e esquecia-me do embaraço. Só recusava usar uma saia demasiado curta, e uma camisola demasiado justa, como as outras meninas preferiam, e decidi usar um rabo-de-cavalo, porque era mais prático, para os cabelos não me cobrirem os olhos nas piruetas, apesar de as outras meninas concordarem que o cabelo solto ficava mais bonito.
Quanto à novela, eu não via a brasileira da Sic, até porque nem entendia as conversas, via a portuguesa da Rtp1, e achava demasiado íntimo para expor o facto de não suportar cada último episódio: aumentava o volume na introdução e no final, queria fixar todas as caras, e chorava durante horas no fim, até adormecer, a pensar que não iria ser capaz de esquecer aquelas pessoas, e que assistir à novela seguinte era uma traição. Uma vez, para me consolarem, a minha mãe e a minha avó responderam-me «oh Ana, deixa lá, era só a fingir», o que foram elas dizer, como é que eu poderia imaginar que fosse a fingir?, pensei que fossem vidas reais, de pessoas incríveis, tão incríveis que as suas histórias mereciam ser vividas por outras pessoas pela televisão. Certamente, por vezes perguntava-me «o que é que eles estarão a fazer agora?, agora que não os estão a gravar?, pode ter mudado tudo, e eu perdi isso, há coisas que nunca vou saber».
Como é que poderia não sentir-me desenquadrada, se até aos 7 anos, tinha o temível segredo de que durante a noite usava chupeta?
A primeira vez que me disseram que ia para a escola, e a partir daí, todos os domingos à noite, chorava, chorava, chorava, repetia incessantemente «mas eu não consiiigo», e perguntava «como é que se lê?», respondiam-me «vais aprender, tal como as outras meninas», e eu corrigia, «não é isso», e perguntava desesperadamente num choro compulsivo «como é que se aprende?, como é que se aprende?, como é que se aprende?», e depois repetia para mim «é automático, nas outras pessoas é automático», e agarrava as mãos à cabeça a pensar como seria aprender automaticamente.
Estudava: «uma estrela, uma estrela, uma estrela», «é, é, é», «uma estrela é, uma estrela é, uma estrela é», «um astro, um astro, um astro», «uma estrela é um astro, uma estrela é um astro, uma estrela é um astro», «vírgula, vírgula, vírgula», «com luz própria, com luz própria, com luz própria», «uma estrela é um astro (vírgula) com luz própria, uma estrela é um astro (vírgula) com luz própria, uma estrela é um astro (vírgula) com luz própria». «Mã, pergunta-me para ver se eu sei.» Quando ia dormir, fechava os olhos e repetia, repetia, repetia, com medo de me esquecer durante o sono.
Tinha 10 anos, deitava-me na cama para dormir, e no instante em que estava prestes a adormecer, abria os olhos de repente e fixava os números vermelhos no relógio-despertador, e repetia as horas que lia, ou vocalizava um ditongo qualquer ou só mesmo um vocativo «Ah», «Oh», «Hm», mais tarde comecei a dizer «Teste». A intenção era garantir que o acto de dormir não ia fazer com que me esquecesse de «como se vê», «como se fala», «como se ouve». E esta sequência: deixar-me adormecer, despertar-me repentinamente, fixar o relógio e vocalizar qualquer coisa discreta num volume não perceptível nas outras divisões, repetia-se cerca de 3 vezes por noite. Até que o meu pai instalou uma luz de presença ao lado da cama, e eu adormecia a fixá-la, constantemente a deixar-me adormecer permitindo que as pálpebras cedessem ao cansaço e a forçá-las a abrirem-se quando a luz se extinguia.