quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

6º Diário - Anotamento de um Estado Mental
















Um outro eu, contrai um grito no estômago tenso, enrijece o pescoço, dilata as bochechas como se fosse um peixe, e deixa a língua-morta caír - porque não tem voz.
Às vezes, não consigo parar de mexer os dedos, mexer, mexer, mexer, corro-os todos, principalmente os dedos da mão esquerda, principalmente quando ando na rua sozinha, antes, utilizava a justificação de que corria a escala de «Dó», contava 5 dedos – 1, 2, 3, 4, 5!, 4, 3, 2, 1!, 2, 3, 4, 5! - depois o dedo médio cruza por cima do polegar e contava mais 3 - 6, 7, 8!, 7,6 -, mas agora não, agora só mexo, mexo, mexo. Às vezes, tenho a impressão de que a intenção é manter-me concentrada. Porque estou sempre sonolenta. Agora que penso nisso, outras vezes, em vez de mexer os dedos das mãos, contraio os dedos dos pés, dobro-os, desdobro-os, e encavalito-os uns em cima dos outros, até ter cãimbras. Também tenho cãimbras na língua. E estico a língua histericamente para as contrariar.
Quatro pontos mentais: direito/ esquerdo!/ esquerdo/ direito; esquerdo/ direito!/ direito/ esquerdo; esquerdo/ direito!/ direito/ esquerdo; direito/ esquerdo!/ esquerdo/ direito. Um, dois, três, qua-trum!, dois três, quaaaaa-truuuuuum!
Vermelho, laranja, amarelo, verde. Amarelo, verde, vermelho, laranja. Laranja, vermelho, verde, amarelo. Verde, amarelo, laranja, vermelho.
Cima, cima, baixo, baixo. Baixo, baixo, cima, cima. Cima, cima, baixo, baixo. Baixo, baixo, cima, cima.
Direito-cima-vermelho/ Esquerdo-cima-laranja/ Esquerdo-baixo-amarelo/ Direito-baixo-verde... Esquerdo-baixo-amarelo/ Direito-baixo-verde/ Direito-cima-vermelho/ Esquerdo-cima-laranja... Esquerdo-cima-laranja/ Direito-cima-vermelho/ Direito-baixo-verde/ Esquerdo-baixo-amarelo... Direito-baixo-verde/ Esquerdo-baixo-amarelo/ Esquerdo-cima-laranja/ Direito-cima-vermelho... 
Ponta do pé direito, ponta do pé esquerdo, calcanhar esquerdo, calcanhar direito... Direito, esquerdo!, esquerdo, direito... Esquerdo, direito, direito, esquerdo... Calcanhar esquerdo, calcanhar direito, ponta do pé direito, ponta do pé esquerdo...
Agora com os pés trocados (pernas cruzadas)...
Agora com as cores...
Agora com os números...
Agora troco as pontas dos pés e os calcanhares pelas pontas dos dedos das mãos e pelos pulsos... Agora os pulsos fazem par com os cotovelos...
Repetir, repetir, repetir. Associar, associar, associar. Fixar, fixar, fixar.
Assim não vou esquecer nem o esquerdo nem o direito.
As pessoas normais não se perdem nestes jogos maníacos, pois não?   

5º Diário - Metáfora do Pânico Dissociativo

















Estou sentada na berma de um copo de água,
com paredes de vidro e sem tecto:
ausente - o rosto apático, o corpo indolente.
O movimento de uma perna,
para a frente, para trás, repetitivamente.
 
Pontualmente, a ponta do pé toca a superfície aquosa,
e ouço um grito estridente, distante -
não como se fosse um eco,
antes como se fosse uma memória.
«Está alguém a gritar» - sei.
Humideço o pé - o grito ressoa
e torna côncavas as paredes de vidro do copo. 
 
O grito-agonia, o grito-estilhaço-de-vidro...!
«É uma menina» - sei.
É urgente. É intermitente:
a indolência, o movimento desobediente da perna morta, o eco do grito.
Um vago incómodo faz-me perguntar:
«quem é?».
 
Toco com as pontas dos dedos na boca:
está em forma de «O».
«Estou calada – porquê a forma em «O» da minha boca?
«O» de ontem – fiz um intervalo no tempo e não voltei:
não tenho reacção à hora do agora.
«O» redondo como a boca do copo,
«O» com fome de realidades convertidas em ilusões,
«O» de um bocejo sonolento e arreliado por ser desperto.

O pé éstá a ser beijado e engolido pela boca em «O» do copo.
A menina grita até rasgar a boca.
É urgente. É intermitente.
Distante. Distante.
A voz va-ga-rooooosa
a compenetrar a parede de vidro entre nós.
Ruído incisivo na dormência eléctrico-estática impenetrável.
 
O «O» escuro da boca sem fundo engole a água asfixiando.
O grito é asfixiante.
A asfixia é a água engolida contra o berro não berrado.
O «O» da boca contorce-se,
afasicamente,
descaindo para a esquerda, enviesando-se num «V»,
de «volta». 
 
Volta! É urgente!
«Sou eu que estou a gritar?, sou eu?, sou eu?, sou eu?»
- pergunta repetitiva, tom mecanizado.
«Não, não posso ser eu (elucido-me):
ouço o eco ao longe
- vago, distante, intermitente.
Mas a minha boca está aberta!
O meu pescoço está hirto!
Estou a asfixiar!»
É urgente! É intermitente!

Estou lúcida e calada,
a boca está dormente e desobediente.
Obedeço-lhe. Grito agoniada.
«AAAAAAAAAAAAH!»
Agora sou um só.

Sentada no grande «O»
do sem-tecto do copo
dou voz à boca aberta
em forma de «O» sonolento.
Associo-me ao eu que asfixia
em gritos-aquosos-de-socorro,
no sem-chão do copo.
O grito estilhaçou
a parede de vidro que distanciava o dúo-eu.
O grito é a ponte
do pânico-dissociativo para o eu-todo.
Distendo os membros mortos-vivos.
Sou um só.
-Sou um só.
 

4º Diário - Anotamento de um Estado Mental

«-Vamos ver quanto tempo aguentas debaixo de água; bem podes berrar que ninguém te vai ouvir».

Entretanto rebentei os pulmões. Esqueceram-se de mim. E quando se aperceberam, disseram que não faz mal. As pessoas à volta justificaram-se, pensaram que tinha mergulhado voluntariamente, como qualquer outra pessoa. Mas eu estive a esbracejar e espernear, com os braços e as pernas amputadas. E a ensurdecer num berro que morre antes de ser berro. E o pior, é que de tanto mo repetirem, menosprezando o sofrimento, eu estou a habituar-me a concordar, até porque é menos múltiplo, e digo «foi só um mergulho, e estou pronta para outro», enganando-me, despersonalizando-me, e sentindo-me menos só, porque a compreensão do acto realizado é igual à percepção alheia. E por ceder, por não me permitir entrar constantemente em conflito com a leitura dos outros, um dia, quando me queixar, vou ser credível.

3º Diário - Adulta














- Riqueza Patológica versus Pobreza Cognitiva
- Auto-focus; Incércia; Hiperactividade

* Parte I
  
Tenho 24 anos. Recuso-me a acender a luz do quarto a meio da noite, para não fixar transtornada a desarrumação visualmente cansativa: está tudo um milímetro ao lado do planeado, as dobras das cortinas nunca caem como devem, a cama não precisa de ser refeita porque eu durmo es-tá-ti-ca. Se começo a arrumar, não durmo. Uma vez faltei a um teste porque não podia começar a estudar enquanto não estivesse tudo aspirado, esfregado e milimetricamente organizado – a arrumação é a minha única obssessão. Tenho sempre coisas para fazer antes das coisas que (realmente ) tenho para fazer. Os preparativos são sempre mais exigentes e prolongados do que as próprias actividades. Eram 3h da manhã e eu precisava de dormir. Portanto inventei uma ruptura num cano. Não posso estudar sem arrumar. Não posso ler sem arrumar. Não posso escrever sem arrumar. Não posso falar sem arrumar. A desarrumação interfere com a linha do discurso. Faz-me tropeçar, enrolar a língua, engasgar, ranger os dentes, esticar os lábios. Por falar nisso, auto-focar-me durante as refeições também é proibido – como é que compatibilizo o movimento do maxilar, com o movimento da língua...? Como é que sei se já posso engolir...? Como é que posso mastigar e simultaneamente coordenar os talheres? Os mecanismos confudem-se. As velocidades confundem-se. E aquelas pessoas que conseguem comer e ver televisão ao mesmo tempo ?! E conversar, conversar, conversar...

Talvez eu tenha sido sempre dissociada, descobri a histeria para conseguir envolver-me com os outros. E quando não suporto mais não ser eu, faço conversões.

Na infância, a sensação de ausência nos envolvimentos com os outros, levava-me a usar o tom de quem canta para romper a distância, sendo que o meu comportamento anti-social fora substituído por um comportamento activo, evasico, brusco, desajeitado, com oscilações entre momentos de seriedade intensa e momentos de frivolidade discursiva. 



* Parte II 

Hoje, quanto mais dissociada estou, mais falo, falo compulsivamente, para ter a certeza de que não desapareço, e quando estou muito vulnerável ao pânico, se não me respondem imediatamente perco a certeza se terei falado ou não, se estarei presa dentro de mim. Ouço a minha voz ao longe, em eco, como uma lengalenga gravada, utilizo bengalas linguísticas, apoiando-me em frases de conveniência, tenho a sensação de que uso um disfarse, e ouço de fora essa farsa tão convincente, e diferente de quem sou, do que quero dizer, do que diria se tivesse a velocidade mental e verbal correcta. Lembro-me de ser sóbria, de ter um raciocínio claro e limpo, e de controlar cada palavra, entoação, gesto e expressão, o que também me parece anti-natural. Mas pelo menos era mais real, apesar de excessivamente racionalizado e auto-focado. E era a minha vantagem na aprendizagem do teatro.

Os meus músculos são rígidos e a minha fala é farsada – pareço o pinóquio, que sempre quis ser como uma criança de carne, fluida e fluente.

Recordo-me de faltar às aulas da escola primária durante semanas, quando voltava a professora testava a minha capacidade de leitura e dizia enfurecida «eu não sei como é que tu sabes ler», nas aulas de produção textual, o meu texto era sempre nomeado para leitura em voz alta, e eu preferia que fosse um colega a lê-lo por achar que era muito presunçoso além de expôr boas palavras, expô-las numa boa entoação.

Hoje, não tenho palavras, não tenho expressão. Reproduzo um número limitado de conversas, com um vocabulário pobre e uma construção frásica labiríntica; não selecciono informação e tenho dificuldade com perguntas de resposta «sim/ não»; por vezes, adopto flexões de discurso num ritmo repetitivo, com a intenção de proporcionar o discorrer do discurso, sem que perca a memória das ideias – acho que aprendi isso com o exercício da tabuada, e, acompanho o discurso com expressões faciais ou desadequadas ou bastante mais acentuadas do que pretendo. A prioridade é falar, falar, falar continuamente para não desaparecer.

Por vezes falo, falo mesmo sem ocasião – não há relação com a acção, não há relação com a sensação, não há relação com a ideia. Pode ser qualquer coisa. Posso mesmo estar sozinha.

Por vezes ouço um turbilhão de letras: SKDFHSDFHSIFHIU. E por vezes reproduzo o ruído. Por vezes, sacudo os pulsos freneticamente como se quisesse retirar o que disse - tal como as pessoas abanam a cabeça quando querem esclarecer um mal-entendido.

Por vezes, depois caio no vácuo. Estou lenta, muito lenta, com a maior lentidão do mundo. As palavras ocorrem-me vagarosas, improferíveis. As conversas são incompreensíveis: como é que falam tão rápido? Tão, tão rápido? Não consigo acompanhar. Também não me ocorrem respostas. A própria voz está cansada. Falo baixo.

Há outros ruídos – que não são reproduzíveis, porque não são sequer exactamente audíveis, mas a sensação é comparável: ao canal do televisor sem frequência.

Sou cega. Sou surda. Sou muda.

2º Diário – Visão Geral : Pré-adolescência; Adolescência; Adulta

















- Esgotamento Mental – Insónias e Esquemas Mentais

Tinha 12 anos, ganhei o hábito de baixar a persiana todas as noites ao mesmo nível, sentia-me feliz, como se me aconchegassem o lençol ao pescoço, com a luz amarela dos candeeiros da rua a entrar pelo quarto adentro através dos furinhos mínimos das persianas, e com o som leve, breve e suave dos carros de passagem e do vento. Sentia-me feliz, como se recebesse um presente-surpresa, quando acordava a meio do sono e constatava que não - não tinha mudado nada.
Tinha 13 anos, adormecia com o televisor ligado, reconfortada com os reflexos luminosos incertos, o meu pai vinha desligá-lo quando julgava que eu já estava a dormir, e eu, envergonhada, esperava por ele sair para voltar o acender. Outras vezes tinha realmente adormecido, mas despertava com o ruído do televisor a desligar.
Entretanto comecei a adormecer com o comando perto da almofada para desligar o televisor mesmo antes de adormecer. Cheguei a uma altura em que nem lembrava de o desligar. E também não me lembrava de dobrar o pijama, mas acordava com o pijama dobrado ao meu lado, por vezes, acordei com o movimento dos braços a dobrarem o pijama, pousando-o cuidadosamente ao lado da almofada. E os lençóis sempre impecavelmente esticados como se lá não tivesse dormido ninguém.
Tenho 24 anos. Adormeço com uma vela acesa na mesinha-de-cabeceira. Não suporto qualquer ruído. Certifico-me do silêncio antes de me permitir descomprimir. Não suportaria que interferissem com o meu repouso que exige uma cuidadosa sequência de hábitos. Acordo em pânico quando me interrompem o sono. Não suporto o ruído. Excepto o som incerto da chuva grossa: não estou só, toda a gente está igualmente expectante, à espera que passe - eu sou assim. Não suporto o ruído, ao ponto de acordar quando a minha mãe varre a casa, por isso proibi-a de varrer, entretanto comecei a acordar com a esfregona, por isso proibi-a de esfregar, entretanto acordei com um outro ruído: «não é uma vassoura, mas parece; também não é uma esfregona, preciso de me levantar para saber o que é: um espanador; acordei com o varrer de um espanador...?».
Acordo com a sensação de que tomei uma caixa de benzodiazepinas, estou muito lenta, muito cansada, muito distante, e tenho de reaprender tudo, vou seguir a rotina direitinho para voltar a entrar no ritmo normal, se me fizerem as exigências habituais, automatizo as respostas habituais.
Agora suporto a manhã, agora suporto o almoço, agora suporto a tarde, agora suporto o regresso a casa, agora suporto as actividades caseiras, agora suporto a noite, mais uma noite, amanhã recomeça tudo outra vez. Depois tenho de me levantar, depois tenho de tomar o pantoprazole, depois tenho de desligar o aquecedor, depois tenho de atirar os lençóis para trás, depois tenho de abrir a janela, depois tenho de ir à casa-de-banho … Se aguentei ontem, aguento hoje. Se aguentei ontem, aguento hoje. Se aguentei ontem, aguento hoje …
Há 2 anos ficava presa ao acordar. Estava lúcida e paralisada – incapacitada de um movimento muscular mínimo – nem sequer o olho aberto. Tentava gritar, gritar em vão. Calava-me, unia as forças todas para de uma só vez tornar o corpo hirto e expelir o grito.
Quando o corpo despertava estava exausta, transpirada, taquicárdica e ofegante, tinha tonturas e ia para a casa-de-banho vomitar. O esforço para gritar era de tal forma real que tinha a garganta dorida e ligeiramente enrouquecida. O pescoço e o estômago estavam muito tensos. Tinha cãimbras na língua.
Mas a cama estava intacta, como se fosse impossível que algum corpo ali tivesse lutado.
Por vezes rendia-me e esforçava-me por adormecer, já que aparentemente estava a dormir, e não ia conseguir acordar.
Por vezes aconteciam coisas à minha volta. Entravam no quarto, falavam comigo, saiam, e eu queria tanto reagir, que soubessem que precisava que me acordassem, por vezes, simplesmente imaginava que aconteciam coisas à minha volta.
Por vezes, o sonho era mais real – a percepção da luz e do som era mais intensa – e ao acordar o cenário era vago – como se visse mal, ouvisse mal ! Era mais matérica no sonho. Quando acordava sentia-me distante, dormente, sem tacto. Menos emotiva. Desrealizada. Estranhava os movimentos, que não correspondiam à velocidade que eu impunha, tentava disfarçar barrando um pão com manteiga com pressa, e era quando o meu pai me perguntava «o que é que tens?, o que é que tomaste?», «eu?, eu não tomei nada...».
Acordava num estado de exaustão quando tinha sonhos visualmente muito cansativos. Sonhos conscientes mas impossíveis de interromper. Sonhos em que as personagens têm formas sinuosas, prolongadas, esticadas, como sombras esguias, e os meus movimentos são muito lentos, a sensação é de frustração e impotência, porque «nunca vou a tempo de algo importante», e por mais esquemas e jogos mentais que faça, caio sempre num cenário sem soluções.
Durante muitos anos sonhei que me afogava, o mar engolia-me e eu agarrava-me ao areal tentando trepá-lo. No último instante emergia das ondas e respirava de alívio. No último sonho com esse tema, quando finalmente alcancei o rochedo seguro, fui surpreendida por uma onda vinda dum lado onde supostamente não existia mar. Não voltei a sonhá-lo.
Esta sensação de luta dentro de um jogo interminável cheio de armadilhas e soluções improvisadas, chegava a acompanhar situações de crise emocional, em que, por mais que tivesse noção do absurdo do pensamento, questionava «quando é que o jogo acaba?, quando é que me dizem que já prestei provas suficientes e que a minha vida vai começar?»
Entretanto, essa ilusão de que um dia o jogo terminará e terei uma vida normal, passou a ser acompanhada de fantasias desproporcionalmente gloriosas como por exemplo, ir a Nova York receber um prémio de «o melhor negociante» e ficar noiva de um banqueiro. Passei dias inteiros, a alimentar a minha boa-disposição com a elaboração de uma história pormenorizada dessa fantasia, e terminava o dia eufórica, exausta, com dor de cabeça latejante, e vómitos.
Aos 17 anos, levantava-me da cama para tirar as pilhas do relógio da cozinha «tcheque tcheqe tcheque», para desligar o frigorífico, porque ouvia as gotas escorrerem no fundo «...guite ...guite …guite», perguntava incessantemente quem é que estava a escrever mensagens no telemóvel, porque ouvia as teclas ''bip bip bip''. Entretanto virei-me para o lado, e sinto o lençol engelhado, e o peso dos cobertores está mal distribuído, e o algodão da almofada está todo acumulado numa só ponta.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

1º Diário - Infância

«(...) quão pouco podia dilatar o que ainda lhe restava, e absorver, como nos dias juvenis, as cores, o sabor, o tom da existência.» Virgínia Woolf













- Comportamento anti-social/ Comportamento histeriónico
- Conflito: contextos diversos; realidades alternativas

Julgava-me uma criança introspectiva – entretanto ocorreu-me que talvez tivesse sofrido episódios dissociativos desde a infância, e resolvi noemar alguns.
Tinha 9 anos quando comecei a envolver-me com os meus pares - as meninas da minha classe.
Recordo-me de num intervalo estarmos quatro raparigas fechadas numa casa-de-banho minúscula - uma contra a porta, outra em cima da sanita, e as outras duas, incluindo eu, encostadas às paredes laterais, com as nossas batas azul-escolar.
Tinha percepção do porquê da sensação de cumplicidade e euforia das meninas: estavam a partilhar um momento ultra-secreto, eram elas e só elas – ou nós e só nós – longe dos meninos e das professoras, que só serviam para nos contrariar – zombar das nossas brincadeiras e dar-nos ordens – aquela casa-de-banho era reservada às professoras e nós infringíamos a regra.
Todos elas tinham um lugar: a que tinha as ideias e tomava as iniciativas; a que expunha as prudências a tomar facilitando o plano; a que as imitava; e eu, que as observava a conversar, conversar, conversar, rir e conversar, entreolharem-se intimamente. Pensava «como é que elas conseguem simplesmente falar, simplesmente rir, simplesmente gesticular, simplesmente estar, sem que sequer se apercebam ? As sensações de euforia e cumplicadade são maiores do que a percepção do passo-a-passo.».
Eu não costumava opinar. Até porque os assuntos não me sensibilizavam particularmente: rapazes do 4º ano, soutiens, lanches em casa umas das outras, castigos ao fim-de-semana, trabalhos-de-casa de inglês, o grupo de dança, a novela da Sic.
Eu, em casa, pensava nas respostas às questões, e concluía que não ia ser capaz de lhes explicar...
Os rapazes do 4º ano eram grandes e assustadores – porque faziam tudo mais rápido do que nós, corriam mais, falavam mais alto, e isolavam-se num outro recreio onde falavam baixinho e davam grandes gargalhadas - , mas o que se sentava ao meu lado interessava-me, porque acertava em todas as contas, e o que se sentava à minha frente interessava-me, porque a professora lhe batia, e o que era repetente interessava-me, porque cheirava mal como se não lhe dessem banho e faltava-lhe material escolar, também me interessava o que não trazia bata e se vestia de benfiquista, porque apesar de dar muito nas vistas era ignorado.
Eu não usava soutien nem para lá caminhava, porque era muito enfezadinha - «oh, não iria chegar o meu dia!, não iriam reparar em mim» (tomára que chegasse) ; «oh, e se chegasse...?, como iria explicar e pedir à minha mãe...?» (tomára que não chegasse).
Nunca frequentára a casa de uma colega, nem sequer para um aniversário: mas nesse ano fui ao lanche do rapaz das contas, foi a primeira vez.
Castigos, não tinha, não tinha regras, aliás, se não quisesse ir para a escola, não ia, bastava fingir que ainda estava a dormir, para não ouvir a pergunta monocórdica «Vais para a escola? Queres Nestum? Ou ficas a brincar com as bonecas e a ver Tom & Jerry?»
Era esse o meu mundo: as bonecas e as suas 30 personalidades e os desenhos animados - tinha 10 anos, o meu pai ia retirar o vidro exterior do televisor para o limpar, e eu entrei em pânico a pensar que ia matar os desenhos animados -, chegou a uma altura em que a minha resposta dependia da do meu irmão, e vice-versa.
Os trabalhos-de-casa eram fáceis. Muitas vezes não ia à escola, mas até gostava que a minha mãe passasse por lá para me trazer o apontamento dos trabalhos a cumprir. E às vezes, inventava-os: perguntas e respostas acerca das histórias dos meus livros.
Grupo de dança? Eu não tinha nenhuma actividade fora da escola, e recusar-me-ia a dançar, só de imaginar envergonhava-me: corava as bochechas, tremia as mãos apertadas com força, baixava a cabeça para esconder os olhos húmidos e engolia discretamente o nó na garganta. Depois tive de aprender a falar (a reagir), abria um sorriso muito nervoso, inclinava a cabeça e dizia como quem canta que não tinha muito jeito para isso, e perguntava se podia assistir ao ensaio.
No final da 4ª classe, dançava na fila da frente, fazia carinhas para as fotografias, e esquecia-me do embaraço. Só recusava usar uma saia demasiado curta, e uma camisola demasiado justa, como as outras meninas preferiam, e decidi usar um rabo-de-cavalo, porque era mais prático, para os cabelos não me cobrirem os olhos nas piruetas, apesar de as outras meninas concordarem que o cabelo solto ficava mais bonito.
Quanto à novela, eu não via a brasileira da Sic, até porque nem entendia as conversas, via a portuguesa da Rtp1, e achava demasiado íntimo para expor o facto de não suportar cada último episódio: aumentava o volume na introdução e no final, queria fixar todas as caras, e chorava durante horas no fim, até adormecer, a pensar que não iria ser capaz de esquecer aquelas pessoas, e que assistir à novela seguinte era uma traição. Uma vez, para me consolarem, a minha mãe e a minha avó responderam-me «oh Ana, deixa lá, era só a fingir», o que foram elas dizer, como é que eu poderia imaginar que fosse a fingir?, pensei que fossem vidas reais, de pessoas incríveis, tão incríveis que as suas histórias mereciam ser vividas por outras pessoas pela televisão. Certamente, por vezes perguntava-me «o que é que eles estarão a fazer agora?, agora que não os estão a gravar?, pode ter mudado tudo, e eu perdi isso, há coisas que nunca vou saber».
Como é que poderia não sentir-me desenquadrada, se até aos 7 anos, tinha o temível segredo de que durante a noite usava chupeta?
A primeira vez que me disseram que ia para a escola, e a partir daí, todos os domingos à noite, chorava, chorava, chorava, repetia incessantemente «mas eu não consiiigo», e perguntava «como é que se lê?», respondiam-me «vais aprender, tal como as outras meninas», e eu corrigia, «não é isso», e perguntava desesperadamente num choro compulsivo «como é que se aprende?, como é que se aprende?, como é que se aprende?», e depois repetia para mim «é automático, nas outras pessoas é automático», e agarrava as mãos à cabeça a pensar como seria aprender automaticamente.
Estudava: «uma estrela, uma estrela, uma estrela», «é, é, é», «uma estrela é, uma estrela é, uma estrela é», «um astro, um astro, um astro», «uma estrela é um astro, uma estrela é um astro, uma estrela é um astro», «vírgula, vírgula, vírgula», «com luz própria, com luz própria, com luz própria», «uma estrela é um astro (vírgula) com luz própria, uma estrela é um astro (vírgula) com luz própria, uma estrela é um astro (vírgula) com luz própria». «Mã, pergunta-me para ver se eu sei.» Quando ia dormir, fechava os olhos e repetia, repetia, repetia, com medo de me esquecer durante o sono.
Tinha 10 anos, deitava-me na cama para dormir, e no instante em que estava prestes a adormecer, abria os olhos de repente e fixava os números vermelhos no relógio-despertador, e repetia as horas que lia, ou vocalizava um ditongo qualquer ou só mesmo um vocativo «Ah», «Oh», «Hm», mais tarde comecei a dizer «Teste». A intenção era garantir que o acto de dormir não ia fazer com que me esquecesse de «como se vê», «como se fala», «como se ouve». E esta sequência: deixar-me adormecer, despertar-me repentinamente, fixar o relógio e vocalizar qualquer coisa discreta num volume não perceptível nas outras divisões, repetia-se cerca de 3 vezes por noite. Até que o meu pai instalou uma luz de presença ao lado da cama, e eu adormecia a fixá-la, constantemente a deixar-me adormecer permitindo que as pálpebras cedessem ao cansaço e a forçá-las a abrirem-se quando a luz se extinguia.