
sábado, 20 de outubro de 2007
Contrariedades

segunda-feira, 15 de outubro de 2007
...

Embalsamaria os nossos corpos, em ligaduras de linho e bálsamo suave, para mumificar o sentimento. E o nosso sarcófago seria caixinha de magia e segredos, pausando na terra dos sonhos.
Agora as asas do tempo já não bateriam mais, não levantariam a poeira que traz a velhice, a exaustão do afecto.
Seriamos almas vagabundas, dançando a cintura nos arcos do amargurado Saturno.
Murmurariamos sopros de fogo, que nos saltariam de boca para boca.
Trajados de nudez e tinta, rebolariamos por uma pauta musical fora. Traçando-lhe oscilações melodiosas, desenhariamos uma ópera romântica que é carta de amor.
Escrita automática

Joan Miró
“E é assim que me sinto. Engaiolada numa envidraçada bola de sabão. Olho o céu em cinza e as nuvens não passam de giz. E as arestas das formas não são mais que um traço a carvão. A cor do dia limita-se à aguarela tingida no papel que tudo é.
Diria que sinto os martelos das teclas agudas de um piano velho a baterem-me dentro do peito, que o canto me possui o corpo e eu lhe dou voz e fôlego para rebentar em fulgor de amor.
Sei de cor o odor do mar, a textura e as fissuras das pedras de outro universo, os mistérios e segredos desse sonho sobre que tu dormitaste em flagrante noite de pura ingenuidade.
Criança e convalescença, é o sabor da autoria desse sangue por ti pisado e por mim derramado. (...) esse éter do segredo embaciado.
Não sou mais que uma laranja sem fronte nem hoste.
Não sou mais que a vela de um barco em fuste.
- Adentro mar agreste sem leste!
Porque ele é marinheiro.
E cavalga comigo numa falua em nuvens de espuma.
Sopra pétalas brancas de lua flauta fora.
E reinamos num castelo de areia, rodeado de rosas de espuma, onde sou princesa de violeta em veludo.
Somos piratas clandestinos de pesadelos e agonias!
Duendes azuis cintilantes cobrem-nos de chuva doirada e pirilampos invisíveis!
E aqui estamos nós dois no mundo do cubo transparente. Onde o tempo é passado, presente e futuro a tempo inteiro.
E deixas cair migalhas de ouro, para que o sonhador do outro mundo nos encontre, enquanto persegue borboletas e inexistências com a rede que não trás ao ombro dia sim, dia não.
Porque a paz, é fenda ténue, é o fio de seda roxa que não te laça a mim. E isto para mim é ferida e é sangue, é dor e é lamento, é peso, agonia, cardume de incertezas que flúem neste oceano que é o sentimento.”
“Escuto sinais do canto Flausino que me sonhas… leio retratos de memorias que não aconteceram.”
“Fogueiras de recordações de onde saltam sorrisos e brinquedos. A depressão e angústia do abandono e (...).”
“Sou farrapo de teatro, que bailo numa caixa de música, encantada por sopranos de violinos.”
domingo, 14 de outubro de 2007
Publicidade Comercial
objecto publicitado: perfume "Amor-amor"
banda sonora: "Pretty Woman", Elvis Presley
interpretes: Nu e Nuno Miguel
câmara: Inês Luís
Técnico: Oleskiy Borsenko
( xD )
Cenário preto e branco e Música antiga -> passado + Slogan e logotipo colorido -> presente = o produto está sempre na moda
. os intérpretes são jovens, e de ambos os sexos, sendo o produto juvenil e unissexo.
. a sensação de tranquilidade que a natureza transmite, contrasta com o transtorno dramatizado pelos intérpretes, mas no final, os intérpretes estão felizes, em harmonia com a natureza, então, o produto é a solução para todos os problemas. Comprovamos que o seu aroma é fatal no momento em que os olhares das personagens frustradas se encontram.
. slogan: “Amor-amor, aroma sedutor,
paixão em furor.
As palavras-chave estão destacadas, assim sobressaímos a ideia de que o perfume Amor-amor tem para oferecer o poder da sedução e o furor. Além disto, a rima e o jogo de palavras entre “amor” e “aroma” atribui-lhe uma maior ênfase, ficando no ouvido.
Trabalho realizado no âmbito da disciplina de Português.
quarta-feira, 10 de outubro de 2007
Filosofia, Ciência, Lógica

Comprovemos.
Para chegar à verdade universal, o Homem enquanto filósofo, filósofa, isto é, pensa, mais concretamente, usa uma diversidade de faculdades – raciocinar, avaliar, criticar, comprometer, abstrair de crenças, de preconceitos, de probabilidades, da própria imaginação, das suas estruturas subjectivas (o que implica que tantas vezes se autodestrua, reconstruindo-se seguidamente com novas ideias) – para que consiga traduzir uma determinada realidade, no mundo das ideias, e, evidentemente, transcreve-la para o exterior, pois como sabemos o pensamento é absolutamente indissociável do discurso.
Além do mais, o Homem deve discursar. O que quero dizer é que, vivendo o Homem inteiramente dependente do outro – e depende também das instituições – tem obrigação de contribuir para a sua felicidade, e uma forma de o fazer é respeitando-o. Tal respeito é demonstrado (por exemplo e com grande importância) através da transmissão dos seus conhecimentos, isto é, tanto simplesmente partilhando as nossas conclusões, como revelando a nossa insatisfação face às suas perspectivas, que tantas vezes achamos não se ajustarem à realidade. Desta forma, contribuímos para o crescimento e desenvolvimento da sua pessoa – e quando digo “pessoa”, refiro-me, humanistamente, ao sujeito que é livre, participativo, activo e espontâneo, e refiro-me, filosoficamente, ao sujeito que age de forma livre e voluntária – conduzindo-o ao caminho para a felicidade.
Esta atitude cooperativa, não é se não, um passo adiante para o sucesso do grande desafio e conflito da humanidade: a comunidade das antagónicas culturas, a união global.
É também de focar, que, ainda que o Homem exija de si o ciclo da constante aprendizagem, não poderá nunca alcançar o conhecimento máximo, por este ser infinito - o que nos leva ao redimir perante as informações disponíveis - e por termos de nos limitar às nossas estruturas subjectivas e cognitivas.
Falava eu do lado benéfico do diálogo, mas precisamos também de atentar para o seu lado prejudicial. Passo a explicar, no nosso dia-a-dia, somos constantemente “bombardeados” com informação que, certas vezes, não corresponde à realidade, e contudo aparece inserida num discurso válido – isto é, num discurso aceitável por ser lógico – a mentira, e também a ilusão. Temos o bom exemplo da publicidade politica – que retrata uma atitude politica que contradiz o seu próprio principio, pois o seu objectivo seria supostamente a organização, a união, e não o desequilíbrio alimentado pelos privilégios governativos. Ora, esta mentira/ ilusão, é capaz não só de nos influenciar, como também de manipular, pois o emissor da mensagem domina a persuasão. A persuasão define-se como o poder do convencimento, a capacidade de discursar validamente, através do emprego do argumento, que por sua vez se define como a materialização do raciocínio, que tem como base a premissa, e é esta que nos induz para uma nova proposição, isto é, a conclusão.
E é precisamente isto que a persuasão na filosofia pretende, induzir a condução de certas observações particulares para enunciados universais, neste caso então, a sua intenção não é benéfica maliciosamente.
Mas, apartando-nos deste último ponto, focando a questão da mentira e ilusão, temos factuado que a linguagem é ambígua, equivoca. E não só quando se trata de persuadir, mas também porque o dialecto comum não é rigoroso (no entanto temos vindo a desenvolve-lo de época para época).
Dito isto, concordamos que devemos censurar Aristóteles, quando este creu que o conjunto de sinais ou símbolos a que atribuímos o nome de discurso, se assemelhava às ideias, a matéria-prima do pensar.
Congeminando agora acerca da atitude do Homem enquanto cientista, buscando a verdade universal.
Diz-nos Karl Popper que, é sempre possível discutir os pressupostos da Ciência nos quadros da racionalidade. Enquanto que na filosofia falamos de indução – o raciocínio que tira uma conclusão a partir de afirmações de factos observados, ampliando os nossos conhecimentos ( e eu chamar-lhe ia persuasão) – na Ciência falamos de conjectura - o que Popper que dizer é que, uma teoria é tanto mais forte em termos científicos quanto maior for a sua capacidade de resistir às tentativas de a falsificar.
Tal como vemos acontecer na complexidade Filosófica, diz-nos Thomas Kuhn que a Ciência de desenvolve dentro dos limites institucionais, sociais e cognitivos que são impostos ao cientista, pela comunidade cientifica em que trabalha.
Relacionando estas ideias, podemos dizer que o Mundo que nos rodeia é o laboratório do filósofo.
Concluindo, para que no nosso quotidiano sejamos capazes de distinguir a mentira da verdade, para que o sentido da nossa vida não se cinja a uma realidade ilusória, para que alcancemos a verdade universal da Filosofia e da Ciência, precisamos da Lógica.
A Lógica, define-se como a Ciência que estuda o próprio pensamento e, em simultâneo, é o seu essencial instrumento.
Não esquecendo que o pensamento é indissociável do discurso, podemos dizer que a lógica funciona como a matemática do pensamento e a gramática da verbalização, e ainda, compreendemos que assim como devemos pensar de uma forma lógico-formal – conjunto de métodos e regras do pensamento – devemos também discursar de forma rigorosa, coerente, clara (quanto à significância), fundamentada e consistente.Empregando a Lógica, desenvolvemos a técnica que nos permite avaliar correctamente tanto os nossos próprios argumentos como os argumentos dos outros, por muito complexos que eles se aparentem, demonstraremos a razão das nossas opiniões, pois saberemos fundamentá-las e aumentaremos a velocidade e eficácia do raciocínio, e ainda, seremos capazes de “Criticar as falhas inevitáveis dos raciocínios dos sábios ou dos outros seres humanos, falhas imputáveis seja à distracção, seja à fadiga ou à paixão, seja à subtileza do raciocínio que ultrapassa as capacidades intelectuais do individuo.” Maurice Gex
domingo, 7 de outubro de 2007
Sinais

E nós… nós somos “todo corpo”. Somos suor e lágrimas de arrepios. Saudade do próprio instante. Representamos o querer e declamamo-lo desenfreadamente.
Pintamos perfume de paixão, e somos canção de amor que agasalha os inocentes. Canção de fervor.
E as palavras libertam-se para retratar as agitações: o frenesi, o abalo.
Uma viagem à beleza do inconsciente.
Decoramos cada feição do instante e todo o constante é tão fugaz!
Calor das mãos com que travas jornadas pelo meu corpo fora. E eu solto mais suor e lágrimas de arrepios.
A única constância dos nossos passeios, dançados pela calçada da noite, é a loucura: o irracional e o excessivo.
Por isso todos os momentos são o infinito efémero. Porque saboreamos a cor de cada pedaço de tempo e decoramos cada face um do outro.
E no fim do encontro travamos guerras contra as vontades. Porque quando o encontro acaba, a cidade à volta ruína. Mas nós preferimos assim. Beber do silêncio, alcançar a máxima amargura: o desejar rasgar a pele, que sente suave afogo que já não toma.
Preferimos a distância do perfume do corpo um do outro. Fingir uma fúria de cansaço. Para que o fogo não se extinga nunca. Para que tudo seja sempre tão deslumbrante como no primeiro encontro. Para que a magia do primeiro olhar perdure sempre e sempre aspire labaredas azuis.
E eu não consisto em nada mais que tudo isto. Consisto em ti. Consisto na empatia e na intimidade. Consisto no sentimento que somos.
O dia madruga.
Quarto minguante, nosso berço, já não está.
Fumo um cigarro pensativo e sopro nuvens de ânsia e desafogo.
sábado, 6 de outubro de 2007
The Barn - Paula Rego

Segundo a minha perspectiva, o sujeito artístico pretendia levar o leitor da ilustração à reflexão acerca da busca pelo conhecimento e da sexualidade/maternidade.
A protagonista é a menina do vestido branco, cujo objectivo era o alcance do conhecimento verdadeiro, um momento de epifania, a revelação total, a essência, o auto conhecimento, o amor-próprio.
Tal ideia fora-me sugerida pela presença do girassol e do narciso; passo a explicar, o girassol segue o sol, e o sol remete-me para a simbologia de “Iluminação/conhecimento”, enquanto que o narciso me imediata para a ideia do amor egocêntrico.
A menina do vestido branco, convicta do misticismo oriental, guiou-se pelas ideias esotéricas para alcançar o seu objectivo, movida pela iniciativa que o martelo sugere; o martelo, que representa o operariado urbano, sugere força, que sensacionalmente me inclina para a ideia de iniciativa.
Como sabemos, “O Kamasutra” é uma obra oriental, que além de ser um guia que nos conduz ao prazer, visa acima disso, elevar ao Homem espiritualmente.
Partindo deste princípio, a menina do vestido branco quis provar a “melancia” (sexualidade). Acreditava que desta forma subiria as escadas da ascensão alcançando o infinito céu e o sol, isto é, o infinito conhecimento.
O pequeníssimo Capuchinho Vermelho é mais uma das figuras que me serviu de argumento para fundamentar esta ficção.
Segundo o psicanalista Bruno Betellheinem, a história do CV traduz um episódio pelo qual todas as adolescentes passam: a ditadura do Princípio da Realidade versus o Princípio do Prazer.
As personagens intervenientes na teoria do Principio da Realidade são os pais das adolescentes, que na história do CV equivalem à sua mãe e avó. Exigindo a CV que siga pelo caminho mais seguro, representam a questão do zelar da virgindade das adolescentes por parte das suas famílias. Na teoria do Principio do Prazer, o prazer sexual é representado pela floresta e todos os seus encantos e o representante masculino que induz as adolescentes à vida sexual é o Lobo Mau.
Continuando a reflectir acerca dos objectos circundantes da acção principal, atentemos para os morcegos. Os morcegos funcionam como o representante antagónico do girassol, na ilustração parecem querer cobrir o céu e o sol, figurando os religiosos que, na antiguidade, proibiam o povo de chegar aos livros da igreja, ao conhecimento.
Desta forma, desempenham o papel de entrave na busca da menina do vestido branco. Tal como as meninas que a agridem. Passo a explicar, atentemos para o vestuário dessas meninas, uma delas traja um vestido com rosas, que eram, na Idade Média, atribuídas às virgens (e a Virgem Maria especialmente), assim podemos compreender que esta menina fosse cristã, e agredisse a menina do vestido branco, para a castigar por pecar: pecar, atrevendo-se a chegar ao conhecimento, e pecar o pecado carnal. Quanto à outra menina, reparemos que usa um vestuário simples e banal, talvez surja na ilustração apenas para se acrescentar à outra, representando uma maioria religiosa.
Em relação à vaca, esta consegue funcionar tanto como alimento para a questão do conhecimento como para a questão da sexualidade/maternidade.
Horus, que é um representante egípcio do conhecimento abstracto e concreto, era alimentado por uma deusa vaca. O rato, que mama da teta da vaca, é para os hindus um representante da sabedoria. Conclusão, temos a sabedoria a alimentar-se daquilo que a vaca representa. Filosoficamente, a sabedoria alimenta-se da curiosidade. Podemos então associar a vaca à curiosidade.
Lançando-lhe uma segunda visão, no hinduísmo é atribuído à vaca o título de “grande criadora mãe do mundo”.
Desta forma, a vaca tem um pouco da mesma função representativa da galinha, que é distinta pela protecção maternal dos seus ovos. E falando de ovos, na cultura egípcia temos uma maioria que acredita que o Deus Sol, pai do universo nasceu de uma flor de lótus, mas há também aqueles que acreditam que tenha nascido de um ovo.
Teria então, a menina do vestido branco, simplesmente assaltado o estaleiro, à procura do ovo que continha o grande mestre dos segredos do universo? Para que assim, chegasse ao tão ansiado conhecimento?
Além disto, “ovo e galinha” remete-nos de imediato para a questão: “ Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?”, assim temos mais alimento para fundamentar a minha interpretação geral.
Perto da estante das galinhas está uma senhora, de costas voltadas, a servir-se dos ovos, ignorando o conflito entre as meninas. Compreendo daqui, que a senhora represente a parte da sociedade que é indiferente à disputa religiosa.
Voltando-nos agora para a palha, em certas zonas de África e também no Brasil, existem crentes em orixás, umas divindades inferiores a Deus, e essa sua crença compreende também a atribuição do significado “ascensão e imortalidade da alma” a um género especifico de palha.
Esta ideia inspira-me a conclusão da história da menina do vestido branco, fora agredida até à morte - o próprio facto de estar sobre um manto escuro soa-me a “aqui jaz” (negrume – funerais), e desta vez trajada de rosa claro, a cor do quartzo que transmite amor-próprio, a sua alma ergueu-se do corpo rumo ao céu e ao sol. A menina alcançou o seu ambicioso objectivo.
