Imagem: Arlequin -Pablo Picasso (Período Rosa)
Imagino silhuetas negras dos meus braços, mãos e dedos, esguias, esgueirarem-se, esticarem-se como elásticos até quase romperem, procurando pontear algo de sólido, algo estável, algo fixo, algo permanente. A estaticidade escapa-se-me, escorrega-me pelo espaço negativo por entre as sombras dos meus membros lutadores. Esse espaço vazio, sem nome. A dormência efervescente. Que me engole sem que eu dê conta, como um buraco usurpador a quem devemos pagar as dívidas latentes – qual ladrão-juíz. Condena-me engolindo o total-insuficiente. Até que eu dê por mim a sonhar que estou enterrada, a mossa na alcova já tem a forma do meu corpo, em posição de cisne, de tantas horas mortas que perdi adormecida. Ouço os sinos da igreja. Estou à beira do portão da igreja. Já subi os degráus da sentença. Abro os olhos, à minha frente está um rosto símbolo de honestidade e construtividade, que se auto-flagela por nem ele mesmo ser capaz de se ausentar da sensação de desprezo contra aquilo a que eu me reduzo e de que não me consigo subtraír, desgarrar – qual alcatrão fumegante. Uma multidão civilizada manifesta-se ordeiramente, vejo o desfiladeiro de gentes todo muito juntinho, rente às paredes das muralhas que dobram a esquina, o cartaz tem a testa voltada para lá, nunca vou saber do que se trata. Todos uniformizam fatos de palhaço. No meu país das glórias, eu sou o mais pintado e ridículo palhaço, se for essa a personagem designada para o meu actor, contudo, com a maior das paixões e justiça. No entanto, ali, naquela manifestação civilizada, eu sou o único figurino preto – qual camaleão nocturno. À beira do portão da igreja. Politizando um luto que desconheço. Até que um dos palhaços, meu conhecido de passados felizes – ensonsos mas cheios de credulidade no mito do amanhã – com os pés nuns carapins vermelhos, direccionou uns passos sem maneirismos até mim e disse: - Estamos todos vestidos de palhaços, mas só tu és ridícula. Ainda para mais, invejas o escárnio que nos diverte dentro destes papéis de palhaço. Pois nós estamos aqui ao acaso. Enquanto que tu penhoravas tudo quanto tivesses por um nariz vermelho emprestado, por um lugar na cadeira dos substitutos.
Afinal o luto que luto é pela perda de quem sou. Sou orfã – filha de pais hediondos que me deserdaram. Sou viúva – de um amante que nunca amei nem me amou. Sou estéril – fraca demais para criar: sejam os filhos da minha natureza, sejam as personagens do meu país das glórias. Repito: sou orfã, sou viúva, sou estéril. Repito: sou orfã, sou viúva, sou estéril...
Pinto os lábios de vermelho como uma senhora e pareço um palhaço.
quarta-feira, 18 de julho de 2012
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