quarta-feira, 18 de julho de 2012

A Seiva do Ódio


Os meus olhos, dois ovos cozidos, brancos e arredondados, são dois abortos, dois ovos mortos. Os meus olhos abortaram ao primeiro vislumbre do mundo, ao romper do útero ancestral, ao cuspir da vagina ogival. As cascas finas dos ovos de vidro, fendiam-se com a maior lentidão do mundo. Os meus pais esperavam a brecha luminosa, o primeiro tremeluzir das pálpebras. Cheios de esperança. Perplexos. Maravilhosamente crédulos. Pobres. Contudo, eu fixei-os absorta, aos seus rostos enlevados, e escolhi cegar-me. (Isolar os olhos com uma tranca castelar.) Sentenciei os seus sonhos caros e perfeitos de pais de ouro. Como um paralítico, que injectou do seu sangue-de-ferro no coração inamputável da Criação. Oh, não é ferro: é prata. (Não quero saber que é possível ser-se feliz ou infeliz. É uma ideia hedionda saber que existem possibilidades antígonas. Qual será o dote da minha sorte? Não quero ser dependente da lotaria. Não quero ser dependente – de todo. Também não quero lutar – sou demasiado fraco.) Quero ser um fantasma num berço. Não quero ser balouçado, escutando uma cantiga de embalo, interrompida com o ruído do ranger do berço de tronco de carvalho. Aterroriza-me, como se o carvalho envocasse toda a floresta tempestuosa, onde as suas raízes rugem pela família amputada. Mas os pais de ouro só falam acerca da noite estrelada, quando contam histórias passadas na floresta. Indiferentes ao sofrer, à castração, dos fetos-orfãos da árvore. Irmão-árvore: «Now I understand/ What you tried to say to me,/ How you suffered for your sanity,/ How you tried to set them free.» Os pais querem divãs altos e caros, e duradouros, herdados ou penhorados por um vassalo de um rei. Indiferentes. Embalam-me: «Starry, starry night/ Flaming flowers that brightly blaze». «Tão bonitos, os teus olhos, como duas estrelas cadentes» - sussura a minha mamã.
Mas os meus olhos são estrelas escancaradas – brilhos cegos. A matéria da velhice-verde. Ocos, sem sonhos. Ovos ocos.
Não tenho miolos.
O meu cérebro pequenino e débil de recém-nascido – o miolo de uma noz - reconfortado numa caveira de cálcio – a casca castanha e seca da noz - adornada com uma touquinha de renda – a casca verde-fresco da noz.
A minha cabeça é uma noz.
Sobrevoada por corvos. Que comem as nozes. Perfuram-nas com o bico aguçado, comem o miolo, e abandonam as cascas. Que escurecem à chuva.
Esburacadas - como os meus olhos.
Os meus olhos esburacados são a expressão da minha velhice-verde.
Os meus olhos cegos são a prova da minha velhice-verde.
Não estou pronto para este mundo imundo de luz. Não ensaiei. O ventre materno é escuro como um bastidor.
No bastidor -qual bolsa de águas- o actor inabalável é cheio de certezas: as luzes discorrem dos projectores para iluminar os seus sonhos. E a multidão irá aplaudir cheia de amor.
Eu escolho afundar-me nas águas castanhas, encarnadas, cinzentas, da placenta. Enquanto ainda sou um embrião – enquanto ainda não me nasceram os olhos.
Esta criança Gigante em sensatez, é como um ovo-mãe.
Cá fora há uma selva, e as patas dos animais selvagens, dentro do ventre, soam ao longe, muito longe, do território protegido, de casa. Mas afinal, eu estava como um coelho acobardado, acocorado num buraco de terra com cheiro a bafio. E lá fora, lá fora é tudo garras, e dentes, e rugidos. A seiva do ódio.

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