segunda-feira, 16 de julho de 2012

Como cães


Um paciente hipocondríaco, afinal, um paciente muito atento e cheio de razão:

Não chegou a hora. Quando chegar a hora, quando reunir as evidências irrevogáveis, convidarei os mesmíssimos médicos. Acrescentarei, justificando o socorro em voz bondosa, ironicamente, que pretendo fazer as coisas bem feitas como o devem ser, segundo a respeitável ordem convencional: burocracias, direitos, privilégios: é o Médico de Família quem se deve encarregar do paciente respectivo. Ou haverá algo que o impeça de exercer as suas funções...? Algum problema moral que condicione o cumprimento...? Também desejo convidar os médicos hospitalares que interessadamente se desresponsabilizaram do caso – pois uma pessoa, tente ser paciente, não passa de um caso. Desejo que confrontem o meu rosto: o rosto endurecido de um sobrevivente, o rosto cujas rugas azedas desvanecem, como cera quente maleável, tornando-o ameno e tolerante -quase deixando escapar o secreto prazer triunfal- sugerindo a permissão de uma segunda oportunidade, pois afinal, a vida proporcionou-lhe a mesma oferta (apesar de lhe ter roubado a juventude). Somente a boca é e será um enorme «O», desenhado a preto, na pele amarelo-doente, como uma página envelhecida. O enorme «O» de um grito que nunca ninguém foi a tempo de ouvir. Pois bem, o grito ecoará. A página não será virada. Desejo que confrontem o meu rosto, embargados em vergonha, acabrunhados com o seu constrangimento, com a sensação do golpe irreversível, hipocritamente gratos pela oportunidade de cumprir o seu dever profissional e cheio de humanidade maternal. Horrorizados diante da crueldade praticada pelas mãos negligentes, diante da consequência, rangendo os dentes apreensivamente, odiando-se a si próprios: por falharem, por serem obrigados a assumi-lo, por serem descredibilizados por um paciente, por um não-deus, contudo, símbolo do erro, da dor, da astúcia, da superioridade. Um impaciente que jogou paciências cautelosamente somente para no fim derrubar o castelo-de-cartas-hospitalar. Agora odeiam a sua vaidade e falta de humildade, esforçam-se por se convencer, por ser mais fácil sê-lo ao invés de farsá-lo. Desejo que confrontem o meu rosto, sucessivas vezes, por prudência: temem que me vá abaixo, não, temem não conseguir viver consigo próprios: nem com a minha morte, nem com a minha proximidade. Somente os meus postais de agradecimento de cidadã exemplar, entregues no seu conforto particular, os meus postais amicíssimos e cheios de cinismo, se concebem como o possível descanço para essas almas penadas de bata branca.
Desejo que confrontem o meu rosto, que o perscrutem, com cautela e precaução, e sintam toda a culpa: esta é a minha vingança. Que se acabrunhem em posições formais de zelo, como uma rainha hospitalar na sua pátria inóspita: a Urgência, o Ambulatório, a Triagem, qual salão, qual capela, qual aposento; ou como um gato, esbelto no seu porte, que tão dignamente sofre em silêncio, impecável até ao final da última das suas nove vidas. Nove vidas... Nove tronos... Nove reanimações. Entre as pás desfibrilhadoras e a cadeira eléctrica, o corpo não distingue os propósitos, os danos são iguais.
Enxovalhados nas suas posturas formais, prestáveis e maternais, com as suas batas imperiais, os seus perfumes de éter e as suas mansões etéreas, com corredores imundos de vermes doidivanas e febris, donde eles elevam os pés intocáveis celados em sacos de plástico desbacterizados. Um dos vermes doidivanas atreve-se: - Tem nojo do meu rabo velho e esvaziado, para usar essas luvas brancas cheias de talco quando me faz a muda da fralda? - Quem não teria, contudo, o auxiliar de enfermagem fraquejou, encolheu-se, e com uma convicção trémula na voz respondeu-lhe que era o paciente quem deveria cuidar-se, não vá contagiar-se com a bactéria da cobardia e da negligência.
Desejo que, incumbidos nos seus uniformes emblemáticos de um cheio de humanidade, se disformem interiormente. Desejo que confrotem o meu rosto, e sintam toda a culpa. A esses, a quem cabia toda a honorabilidade, que agora se sentam no banco do réu, sob suspeita, sob incriminação - dispensam-se estetoscópios, não se ouvem vozes de doença, só de desonestidade – a esses, convido para me sararem a toda-ferida-aberta que eu sou, exposta ao ar contaminado, que dói como sal. Convido essa instituição que me matou, a estar presente na ressurreição.
Ordeno, que confrotem o meu rosto e sintam toda a culpa. E gratidão e raiva. E obediência. – como os cães.
Ajo vingativamente somente por ter perdido a fé no Karma. A minha credulidade foi a minha fraqueza. A minha victória é esta. A minha vingança. Eu sou as minhas acções. O fio «muito esticado, sempre a estremecer» do meu destino pende das minhas acções. E o dos outros também. Como um dente pêndulo no seu último fio de gengiva.

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