quinta-feira, 19 de julho de 2012
I am a silly supermarket coupon
Imagem: Dresden Dolls
Eu sou um talão de supermercado.
Priveligiado com direitos, em caso de insatisfação: trocas, devoluções, reclamações, imenizações.
E prazos. Prazos de validade que verifico vezes sem conta.
A prática da gestão é a minha obra-de-arte.
Sou priveligiada, por norma, com sete dias, para me aperceber se estou insatisfeita. Pois bem, estou insatisfeita com os sorrisos convenientes dos funcionários ao atendimento. Pagam-lhes a simpatia. Mas disso não posso queixar-me.
Sou um carrinho-de-compras de supermercado, atulhado de produtos vegetarianos, atulhado de produtos dietéticos, de produtos tradicionais, de produtos caseiros, de produtos que mulher nenhuma sabe cozinhar, de produtos de baixo preço, em promoção – aliás, o meu carrinho-de-compras é uma promoção à dona-de-casa mais exemplar do condomínio rico – e uma garrafa de vinho caro para servir aos convidados.
A prática da gestão é a minha obra-de-arte. E o meu carrinho-de-compras, não abre os cordões à bolsa!
Sou um carrinho-de-compras, gradeado, como uma jaula, um investimento moderado, apertado e asfixiante, como um colete-de-forças. A obra digna de uma dona-de-casa dotada de exemplaridade.
A prática da gestão é a minha obra-de-arte.
Quando trespasso as portas automáticas do supermercado, trespassando o meu reflexo vítreo que se parte em dois, dividido, indeciso, insatisfeito, com os sacos de compras já pagas, quero despejar tudo num contentor-do-lixo.
O meu carrinho-de-supermercado, o meu talão e os meus sacos de compras de plástico, são a minha obra-de-arte, e tudo vai ser consumido em menos duma semana, antes que passem os sete dias a que tenho direito para me sentir insatisfeita e reclamar.
Caramba!
A prática da gestão é a minha-obra-de-arte. Criminalizada.
Na parede da cozinha está emoldurado o talão -qual diploma honroso. Com a solenidade própria de um museu, disponho a comida comprada e meto mãos-à-obra, cumpro o dever de confeccionar uma refeição, seguindo as indicações de enciclopédias de culinária e da minha língua talentosa. Contudo, poupando recursos, armazenando os restos recicláveis em taparueres, com um enorme respeito pelos pobres. A minha refeição é a minha obra-de-arte. A prática da gestão é a minha obra-de-arte.
Os convidados servem-se das entradas. Servem-se das sopas. Dos pratos-principais tradicionais. Dos pratos exóticos. Das sobremesas saudáveis. Discretamente, das sobremesas calóricas. No serviço-de-louça Vista Alegre. Apreciando e reprovando a minha obra-de-arte. Como verdadeiros críticos de culinária. Como verdadeiros master-chiefs.
Acrescentando: “O vinho não presta, bem se reconhece a tua falta de tacto.”, ao que eu, como um idiota, respondo: “-O meu tacto está na prática da gestão”.
Eu sou um carrinho-de-compras de supermercado selectivo, eu sou um talão poupado, eu sou um saco de plástico carregado, eu sou um prato pontual.
A prática da gestão é a minha-obra-de-arte.
Como um idiota, respondo: “-Desprezo as vossas línguas gourmet.”
Responsáveis pela hipocrisia social, pelas bocas dos funcionários, agrafadas em sorrisos plastificados.
Cheias de formalismos mesquinhos, que diferenciam a faca do peixe da faca da carne, e é suposto serem demasiado delicadas para frequentarem o talho e a peixaria.
Desprezo as vossas línguas gourmet.
Mal agradecidas. Mal educadas. Cheias de saliva cínica, delicada. Com um hálito que cheira mal.
A prática da gestão é a minha obra-de-arte. Mortal.
Eu sou Mortal. -Like a silly supermarket coupon.
(E a minha última esperança é ser reciclável.)
Assinar:
Postar comentários (Atom)


Nenhum comentário:
Postar um comentário