quarta-feira, 25 de julho de 2012

Castelo-Descartável












Sonho com castelos.
Eram penedos.
Numa planície vaga e acinzentada,
com somíticas relvinhas verde-lima,
arrumadas em grupinhos distanciados,
como famílias pobrezinhas e encolhidas.
Palhinhas finíssimas que formavam o aspecto vazio da paisagem.

A riqueza do vazio.
Eram tantos os lugares de pó
enraizados no chão seco.
A abundância da esterilidade
sugeria que a terra fosse mãe
desses filhos secos.
Evacuavam por
um rasgão na parede
da Casa-Forte muito fértil,
cheia de habitantes de ar,
- os filhos vazados. Galhos.

Era a expansão da esterilidade.
Esticavam-se,
como raminhos joviais,
rebentos crescentes num arvoredo-pai.
Esbracejavam em direcção ao cimo do céu,
quais braços da criança, abertos ao abraço.
Palhinhas verdes tacteantes.

A mão da criança é rota no polegar, não poderá pegar.
No pescoço-pai alto.
No céu alto.
As somíticas palhinhas verdes acolher-se-iam
no enorme vaso que é a superfície lisa.
Mas são desconhecidos entre desconhecidos.
Nunca serão um relvado
lustroso, brioso.
Um jardim-escola unânime e feliz,
com crianças com bibes verdinhos aos quadradinhos.
- Esse campo-de-arroz aquoso.
A terra húmida no pé da criança.
Ceifado.

Ao longo da rasura
da superfície estendida,
espalhavam-se penedos
acinzentados, perdidos,
como moedas prateadas limadas,
caídas ao acaso.
Ao acaso,
os penedos baixos e lisos,
estavam dispostos de costas voltadas uns para os outros.

Contemplei a vastidão de penedos,
de costas imponentes, rostos virados do avesso.
Desconhecidos entre desconhecidos.
Entre as massas cinzentas
observei um de alto a baixo,
arguta, com cuidado e pormenor.
Concluí: este é o meu castelo.

O pé-castelão
apropriou-se do chão alto,
com um enorme respeito
e orgulho paterno
pela conquista.
Tacteando e perscrutanto
o penedo de prata,
com um desconforto duvidoso.

Um tremor-de-terra debaixo dos pés.
O penedo desmoronava-se.
Mas agora não estava só:
outros rochedos afileiravam-se defronte.

Levantando-me do meu castelo-de-pó
subi ao alto de outro penedo.
Desta vez, não julguei suficiente
observá-lo de alto a baixo.
Aproximei-me silenciosamente,
suspeitando o indetectável aos olhos rombos de lupa,
observei por entre uma brecha grossa:
castelos, torres, canhões!
Cavalos-de-vidro. Preto-translúcidos.
Bispos com saiotes e capelos pretos.
Organizados como num tabuleiro de xadrez.

Com uma felicidade contida, conclui: este é o meu castelo.
Subi ao alto:
é suficientemente consistente, sólido, estruturado.
E estendendo os braços ao alto
numa abertura em forma de vaso,
declarei régia e feliz: este é o meu castelo.

Como uma memória
do passado da planície,
o meu grito de guerra ressoou
por entre as brechas grossas dos penedos,
as ranhuras estreitas entre as relvas verdes,
os buracos de terra seca
entre um penedo e outro.
Qual inundação tumultuosa:
aquosidade
ressonante num aquário
desfigurado -
rosto redondo com cicatrizes e olhos de peixe.
Onde as memórias boiam, embebidas.

Os braços elevados
num V de victória
preparavam-se para descer.
Um tremor-de-terra debaixo dos pés.
Os braços mantiveram-se
hirtos, atónitos.
Não me foi possível preparar a queda.

Todavia, levantei-me
com a imediatez com que caí.
Fanática.
Dei conta de que saltava
de alto em alto penedo,
tocando-lhes suavemente a crista de prata
somente com a ponta dos pés,
sentindo-os desmoronarem-se, arenosos,
num ápice grotesco.
Quais castelos-de-areia
derrotados por uma armada de sal espumoso.

Agora, sem sequer tactear
a superfície planíssima,
qual morcego destruidor
com os dedinhos pianíssimos,
enveredava por uma rota aéra crescente
sob castelos-de-pó.

Diante dos fantasmas maravilhosos,
irreal, perguntei-me:
serão castelos-de-prata?,
ou espectros fabricados?
Contornei a rota.
Desviei o olhar marchante
do rumo em que os penedos se erguiam
como uma escadaria egrégia.
O pescoço-de-cisne dobrou-se
pelo alto do ombro esquelético, e vi,

espelhado, o meu rosto escancarado,
num vidro estilhaçado
em fissuras tecidas de um ponto,
partindo para várias linhas,
como fios de uma teia de aranha vítrea.
O meu rosto era uma mosca atónita numa teia.
O meu rosto era uma difusão vítrea:
Um olho em cima, outro em baixo,
e era muitos,
cada um encarcerado num quadrado húmido da teia.

E as aranhas
estavam do outro lado da janela,
agrupadas numa turma.
A janela era de uma sala-de-aulas-livres.
Um aluno investigava
livros acerca da História Medieval,
outro desenhava
plantas de castelos,
outro construía
um castelo-de-cartas.

Dei conta
de que só tinha acesso à visão
dos castelos descartáveis
intervaladamente.
Como se cavalgasse e
só no alto do trote avistasse
as paisagens mais longínquas.

O cansaço esbatia-me,
engelhava-me as pontas dos dedos
como se estivesse submersa
em água fervida há muitas horas.,
ou velha.
Os gémeos musculosos eram pernas-de-chumbo.
Talvez da cavalgada a trote.
Talvez da rota aéra.
Era Hora de pôr os pés-na-terra.

Só tinha acesso aos castelos descartáveis intervaladamente.
E através da janela estilhaçada.
E as pernas eram um híman chumbado.
Porque estava a saltar
incessantemente
numa cama-elástica,
no centro de um recreio de cimento.
Era Hora de pôr os pés-na-terra.

Ouço o grasnar rude de um ganso branco
que põe fim ao sonho ruim.
Abro os olhos:
um rasgão cheio de vácuo no tecto alto
- a barriga-grávida dos pesadelos
que são como fósseis.
Estava estendida no meu colchão-de-molas com verdete.
Não era elástico.
Não o suficiente.
Fora somente um sonho descartável.
Um castelo-descartável.

Era Hora,
de desmontar do alto do cavalo-de-granito esguio,
e de pôr os pés-na-terra.
Era Hora,
de enterrar os castelos-de-prata,
-quais sepulturas do vasto jardim-cemitério.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

I am a silly supermarket coupon

Imagem: Dresden Dolls
Eu sou um talão de supermercado. Priveligiado com direitos, em caso de insatisfação: trocas, devoluções, reclamações, imenizações. E prazos. Prazos de validade que verifico vezes sem conta. A prática da gestão é a minha obra-de-arte. Sou priveligiada, por norma, com sete dias, para me aperceber se estou insatisfeita. Pois bem, estou insatisfeita com os sorrisos convenientes dos funcionários ao atendimento. Pagam-lhes a simpatia. Mas disso não posso queixar-me. Sou um carrinho-de-compras de supermercado, atulhado de produtos vegetarianos, atulhado de produtos dietéticos, de produtos tradicionais, de produtos caseiros, de produtos que mulher nenhuma sabe cozinhar, de produtos de baixo preço, em promoção – aliás, o meu carrinho-de-compras é uma promoção à dona-de-casa mais exemplar do condomínio rico – e uma garrafa de vinho caro para servir aos convidados. A prática da gestão é a minha obra-de-arte. E o meu carrinho-de-compras, não abre os cordões à bolsa! Sou um carrinho-de-compras, gradeado, como uma jaula, um investimento moderado, apertado e asfixiante, como um colete-de-forças. A obra digna de uma dona-de-casa dotada de exemplaridade. A prática da gestão é a minha obra-de-arte. Quando trespasso as portas automáticas do supermercado, trespassando o meu reflexo vítreo que se parte em dois, dividido, indeciso, insatisfeito, com os sacos de compras já pagas, quero despejar tudo num contentor-do-lixo. O meu carrinho-de-supermercado, o meu talão e os meus sacos de compras de plástico, são a minha obra-de-arte, e tudo vai ser consumido em menos duma semana, antes que passem os sete dias a que tenho direito para me sentir insatisfeita e reclamar. Caramba! A prática da gestão é a minha-obra-de-arte. Criminalizada. Na parede da cozinha está emoldurado o talão -qual diploma honroso. Com a solenidade própria de um museu, disponho a comida comprada e meto mãos-à-obra, cumpro o dever de confeccionar uma refeição, seguindo as indicações de enciclopédias de culinária e da minha língua talentosa. Contudo, poupando recursos, armazenando os restos recicláveis em taparueres, com um enorme respeito pelos pobres. A minha refeição é a minha obra-de-arte. A prática da gestão é a minha obra-de-arte. Os convidados servem-se das entradas. Servem-se das sopas. Dos pratos-principais tradicionais. Dos pratos exóticos. Das sobremesas saudáveis. Discretamente, das sobremesas calóricas. No serviço-de-louça Vista Alegre. Apreciando e reprovando a minha obra-de-arte. Como verdadeiros críticos de culinária. Como verdadeiros master-chiefs. Acrescentando: “O vinho não presta, bem se reconhece a tua falta de tacto.”, ao que eu, como um idiota, respondo: “-O meu tacto está na prática da gestão”. Eu sou um carrinho-de-compras de supermercado selectivo, eu sou um talão poupado, eu sou um saco de plástico carregado, eu sou um prato pontual. A prática da gestão é a minha-obra-de-arte. Como um idiota, respondo: “-Desprezo as vossas línguas gourmet.” Responsáveis pela hipocrisia social, pelas bocas dos funcionários, agrafadas em sorrisos plastificados. Cheias de formalismos mesquinhos, que diferenciam a faca do peixe da faca da carne, e é suposto serem demasiado delicadas para frequentarem o talho e a peixaria. Desprezo as vossas línguas gourmet. Mal agradecidas. Mal educadas. Cheias de saliva cínica, delicada. Com um hálito que cheira mal. A prática da gestão é a minha obra-de-arte. Mortal. Eu sou Mortal. -Like a silly supermarket coupon. (E a minha última esperança é ser reciclável.)

quarta-feira, 18 de julho de 2012

A Seiva do Ódio


Os meus olhos, dois ovos cozidos, brancos e arredondados, são dois abortos, dois ovos mortos. Os meus olhos abortaram ao primeiro vislumbre do mundo, ao romper do útero ancestral, ao cuspir da vagina ogival. As cascas finas dos ovos de vidro, fendiam-se com a maior lentidão do mundo. Os meus pais esperavam a brecha luminosa, o primeiro tremeluzir das pálpebras. Cheios de esperança. Perplexos. Maravilhosamente crédulos. Pobres. Contudo, eu fixei-os absorta, aos seus rostos enlevados, e escolhi cegar-me. (Isolar os olhos com uma tranca castelar.) Sentenciei os seus sonhos caros e perfeitos de pais de ouro. Como um paralítico, que injectou do seu sangue-de-ferro no coração inamputável da Criação. Oh, não é ferro: é prata. (Não quero saber que é possível ser-se feliz ou infeliz. É uma ideia hedionda saber que existem possibilidades antígonas. Qual será o dote da minha sorte? Não quero ser dependente da lotaria. Não quero ser dependente – de todo. Também não quero lutar – sou demasiado fraco.) Quero ser um fantasma num berço. Não quero ser balouçado, escutando uma cantiga de embalo, interrompida com o ruído do ranger do berço de tronco de carvalho. Aterroriza-me, como se o carvalho envocasse toda a floresta tempestuosa, onde as suas raízes rugem pela família amputada. Mas os pais de ouro só falam acerca da noite estrelada, quando contam histórias passadas na floresta. Indiferentes ao sofrer, à castração, dos fetos-orfãos da árvore. Irmão-árvore: «Now I understand/ What you tried to say to me,/ How you suffered for your sanity,/ How you tried to set them free.» Os pais querem divãs altos e caros, e duradouros, herdados ou penhorados por um vassalo de um rei. Indiferentes. Embalam-me: «Starry, starry night/ Flaming flowers that brightly blaze». «Tão bonitos, os teus olhos, como duas estrelas cadentes» - sussura a minha mamã.
Mas os meus olhos são estrelas escancaradas – brilhos cegos. A matéria da velhice-verde. Ocos, sem sonhos. Ovos ocos.
Não tenho miolos.
O meu cérebro pequenino e débil de recém-nascido – o miolo de uma noz - reconfortado numa caveira de cálcio – a casca castanha e seca da noz - adornada com uma touquinha de renda – a casca verde-fresco da noz.
A minha cabeça é uma noz.
Sobrevoada por corvos. Que comem as nozes. Perfuram-nas com o bico aguçado, comem o miolo, e abandonam as cascas. Que escurecem à chuva.
Esburacadas - como os meus olhos.
Os meus olhos esburacados são a expressão da minha velhice-verde.
Os meus olhos cegos são a prova da minha velhice-verde.
Não estou pronto para este mundo imundo de luz. Não ensaiei. O ventre materno é escuro como um bastidor.
No bastidor -qual bolsa de águas- o actor inabalável é cheio de certezas: as luzes discorrem dos projectores para iluminar os seus sonhos. E a multidão irá aplaudir cheia de amor.
Eu escolho afundar-me nas águas castanhas, encarnadas, cinzentas, da placenta. Enquanto ainda sou um embrião – enquanto ainda não me nasceram os olhos.
Esta criança Gigante em sensatez, é como um ovo-mãe.
Cá fora há uma selva, e as patas dos animais selvagens, dentro do ventre, soam ao longe, muito longe, do território protegido, de casa. Mas afinal, eu estava como um coelho acobardado, acocorado num buraco de terra com cheiro a bafio. E lá fora, lá fora é tudo garras, e dentes, e rugidos. A seiva do ódio.

O Luto

Imagem: Arlequin -Pablo Picasso (Período Rosa)

Imagino silhuetas negras dos meus braços, mãos e dedos, esguias, esgueirarem-se, esticarem-se como elásticos até quase romperem, procurando pontear algo de sólido, algo estável, algo fixo, algo permanente. A estaticidade escapa-se-me, escorrega-me pelo espaço negativo por entre as sombras dos meus membros lutadores. Esse espaço vazio, sem nome. A dormência efervescente. Que me engole sem que eu dê conta, como um buraco usurpador a quem devemos pagar as dívidas latentes – qual ladrão-juíz. Condena-me engolindo o total-insuficiente. Até que eu dê por mim a sonhar que estou enterrada, a mossa na alcova já tem a forma do meu corpo, em posição de cisne, de tantas horas mortas que perdi adormecida. Ouço os sinos da igreja. Estou à beira do portão da igreja. Já subi os degráus da sentença. Abro os olhos, à minha frente está um rosto símbolo de honestidade e construtividade, que se auto-flagela por nem ele mesmo ser capaz de se ausentar da sensação de desprezo contra aquilo a que eu me reduzo e de que não me consigo subtraír, desgarrar – qual alcatrão fumegante. Uma multidão civilizada manifesta-se ordeiramente, vejo o desfiladeiro de gentes todo muito juntinho, rente às paredes das muralhas que dobram a esquina, o cartaz tem a testa voltada para lá, nunca vou saber do que se trata. Todos uniformizam fatos de palhaço. No meu país das glórias, eu sou o mais pintado e ridículo palhaço, se for essa a personagem designada para o meu actor, contudo, com a maior das paixões e justiça. No entanto, ali, naquela manifestação civilizada, eu sou o único figurino preto – qual camaleão nocturno. À beira do portão da igreja. Politizando um luto que desconheço. Até que um dos palhaços, meu conhecido de passados felizes – ensonsos mas cheios de credulidade no mito do amanhã – com os pés nuns carapins vermelhos, direccionou uns passos sem maneirismos até mim e disse: - Estamos todos vestidos de palhaços, mas só tu és ridícula. Ainda para mais, invejas o escárnio que nos diverte dentro destes papéis de palhaço. Pois nós estamos aqui ao acaso. Enquanto que tu penhoravas tudo quanto tivesses por um nariz vermelho emprestado, por um lugar na cadeira dos substitutos.
Afinal o luto que luto é pela perda de quem sou. Sou orfã – filha de pais hediondos que me deserdaram. Sou viúva – de um amante que nunca amei nem me amou. Sou estéril – fraca demais para criar: sejam os filhos da minha natureza, sejam as personagens do meu país das glórias. Repito: sou orfã, sou viúva, sou estéril. Repito: sou orfã, sou viúva, sou estéril...
Pinto os lábios de vermelho como uma senhora e pareço um palhaço.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Como cães


Um paciente hipocondríaco, afinal, um paciente muito atento e cheio de razão:

Não chegou a hora. Quando chegar a hora, quando reunir as evidências irrevogáveis, convidarei os mesmíssimos médicos. Acrescentarei, justificando o socorro em voz bondosa, ironicamente, que pretendo fazer as coisas bem feitas como o devem ser, segundo a respeitável ordem convencional: burocracias, direitos, privilégios: é o Médico de Família quem se deve encarregar do paciente respectivo. Ou haverá algo que o impeça de exercer as suas funções...? Algum problema moral que condicione o cumprimento...? Também desejo convidar os médicos hospitalares que interessadamente se desresponsabilizaram do caso – pois uma pessoa, tente ser paciente, não passa de um caso. Desejo que confrontem o meu rosto: o rosto endurecido de um sobrevivente, o rosto cujas rugas azedas desvanecem, como cera quente maleável, tornando-o ameno e tolerante -quase deixando escapar o secreto prazer triunfal- sugerindo a permissão de uma segunda oportunidade, pois afinal, a vida proporcionou-lhe a mesma oferta (apesar de lhe ter roubado a juventude). Somente a boca é e será um enorme «O», desenhado a preto, na pele amarelo-doente, como uma página envelhecida. O enorme «O» de um grito que nunca ninguém foi a tempo de ouvir. Pois bem, o grito ecoará. A página não será virada. Desejo que confrontem o meu rosto, embargados em vergonha, acabrunhados com o seu constrangimento, com a sensação do golpe irreversível, hipocritamente gratos pela oportunidade de cumprir o seu dever profissional e cheio de humanidade maternal. Horrorizados diante da crueldade praticada pelas mãos negligentes, diante da consequência, rangendo os dentes apreensivamente, odiando-se a si próprios: por falharem, por serem obrigados a assumi-lo, por serem descredibilizados por um paciente, por um não-deus, contudo, símbolo do erro, da dor, da astúcia, da superioridade. Um impaciente que jogou paciências cautelosamente somente para no fim derrubar o castelo-de-cartas-hospitalar. Agora odeiam a sua vaidade e falta de humildade, esforçam-se por se convencer, por ser mais fácil sê-lo ao invés de farsá-lo. Desejo que confrontem o meu rosto, sucessivas vezes, por prudência: temem que me vá abaixo, não, temem não conseguir viver consigo próprios: nem com a minha morte, nem com a minha proximidade. Somente os meus postais de agradecimento de cidadã exemplar, entregues no seu conforto particular, os meus postais amicíssimos e cheios de cinismo, se concebem como o possível descanço para essas almas penadas de bata branca.
Desejo que confrontem o meu rosto, que o perscrutem, com cautela e precaução, e sintam toda a culpa: esta é a minha vingança. Que se acabrunhem em posições formais de zelo, como uma rainha hospitalar na sua pátria inóspita: a Urgência, o Ambulatório, a Triagem, qual salão, qual capela, qual aposento; ou como um gato, esbelto no seu porte, que tão dignamente sofre em silêncio, impecável até ao final da última das suas nove vidas. Nove vidas... Nove tronos... Nove reanimações. Entre as pás desfibrilhadoras e a cadeira eléctrica, o corpo não distingue os propósitos, os danos são iguais.
Enxovalhados nas suas posturas formais, prestáveis e maternais, com as suas batas imperiais, os seus perfumes de éter e as suas mansões etéreas, com corredores imundos de vermes doidivanas e febris, donde eles elevam os pés intocáveis celados em sacos de plástico desbacterizados. Um dos vermes doidivanas atreve-se: - Tem nojo do meu rabo velho e esvaziado, para usar essas luvas brancas cheias de talco quando me faz a muda da fralda? - Quem não teria, contudo, o auxiliar de enfermagem fraquejou, encolheu-se, e com uma convicção trémula na voz respondeu-lhe que era o paciente quem deveria cuidar-se, não vá contagiar-se com a bactéria da cobardia e da negligência.
Desejo que, incumbidos nos seus uniformes emblemáticos de um cheio de humanidade, se disformem interiormente. Desejo que confrotem o meu rosto, e sintam toda a culpa. A esses, a quem cabia toda a honorabilidade, que agora se sentam no banco do réu, sob suspeita, sob incriminação - dispensam-se estetoscópios, não se ouvem vozes de doença, só de desonestidade – a esses, convido para me sararem a toda-ferida-aberta que eu sou, exposta ao ar contaminado, que dói como sal. Convido essa instituição que me matou, a estar presente na ressurreição.
Ordeno, que confrotem o meu rosto e sintam toda a culpa. E gratidão e raiva. E obediência. – como os cães.
Ajo vingativamente somente por ter perdido a fé no Karma. A minha credulidade foi a minha fraqueza. A minha victória é esta. A minha vingança. Eu sou as minhas acções. O fio «muito esticado, sempre a estremecer» do meu destino pende das minhas acções. E o dos outros também. Como um dente pêndulo no seu último fio de gengiva.