parte III
Efeitos aleatórios, como espirais, tornados, partículas rotativas, linhas e círculos de fumo, em cores fluorescentes e cintilantes esticavam-se como pastilhas elásticas, ecoavam sons da natureza que distorciam para electrónicos.
Tal como numa situação de representação teatral, em que o holofote me ilumina unicamente a mim, o meu ego subia à medida que um sedutor fecho de luz me acariciava.
Deixava-me rolar pela tentação seguindo a luz, quando, de rompante, me pegaram pela cintura e arrancaram do paraíso, trancando a porta por fim.
Tal como um toxicodependente a quem tiraram o saquinho da droga, enfureci, e enfureci tão agressivamente que além da gritaria e do esperneio senti os olhos a saltarem-me da cara.
O indivíduo que me roubara a fortuna observava-me quase que indiferentemente, encarando a situação pacificamente.
Era um velho, um velho rasteiro, corcunda, careca, de longas barbas brancas e farfalhudas, vestido com uma túnica igualmente cã.
Desceu as escadas e eu segui-o.
Chegando ao círculo, sentou-se numa cadeira de baloiço, em que eu não tinha reparado, e indicou-me um almofadão, ao que eu respondi sentando-me também.
Baloiçava-se, acendeu um cachimbo indiano, ia passando e enfiando os dedos entre as barbas e soprando nuvens de fumo, e a minha fúria morria nessas nuvens.
Oscilou a cabeça em tom de negação e finalmente iniciámos um diálogo:- As portas não são para abrir, nem tão pouco as escadas para subir.
Interpretei tal como uma ordem de restrição, mas ele acrescentou:
- As portas só se fecham e as escadas só se descem.
Fiquei confuso e não precisei de o dizer.
O velho sorriu e num novo balanço continuou:
- Quando estás metido dentro de um labirinto, em que pensas?
- Em encontrar a saída.
- Ou seja, regressar ao ponto de partida. O ponto de partida para o sótão é a subida das escadas, o ponto de partida para entrar num compartimento é a abertura da respectiva porta.
Bufei.
- O que eu quero dizer, é que quando, no teu dia-a-dia, escolhes um caminho tens a segurança de poder voltar para trás, e muitas vezes, a tua opção é tão errática que é o regresso que mais anseias…
- Pois bem…
- Asseguro-te de que estas escadas e estas portas não precisam sequer da tua intenção para te absorverem. E não te garanto que alguma vez consigas voltar.
Engoli em seco recordando a luz sedutora.
Entretanto o velho dirigiu-se a uma pequena portela por debaixo das escadas, entrou, saiu. Trouxe com ele um tabuleiro de biscoitos e, uma efusão que refrescava os lábios como um gelado tropical, e aconchegava o estômago como um chá quente. Uma mistura sensacional completamente alienígena para mim.
Eu queria perguntar mil coisas àquele velho tão sabedor, mas faltavam-me as palavras.
- Hum... Conversamos acerca de portas mágicas, e eu nem percebo se não és apenas uma personagem criada pelo meu psíquico, se todo este espaço não é fruto da minha imaginação, se enlouqueci, se estou a sonhar…
- O que é o sonho?
Não sabia o que responder, era um assunto fútil para o género de vida que eu levava.
De certa forma era um rapaz pensador e curioso em relação ao mundo, mas desde o início da adolescência que decidira viver para estudar; tendo em mente a ideia de alcançar um futuro maravilhoso, que nem sabia de que cor queria pintar.
Os pais ensinam-nos assim, pelo menos a maioria, que na escola está o futuro, isto é, que estudaremos para trabalharmos, para vencermos ao final do mês, para poder casar e sustentar uma família, que seguirá os mesmos capítulos.
E tudo isto, com que desejo fundamental? Com o desejo de viver a felicidade!
Então e aqueles por quem a auto-realização não implica constituição de família ou uma conta galante?
Eu esquecera-me dos meus sonhos… Guerreava armado por uma bandeira que não me dizia nada.
“O que é o sonho?”, ecoava a voz do velho dum lado para o outro na minha cabeça.
Olhei-o como quem pede uma resposta.
- Quando dormes, a tua alma solta-se do corpo e viaja até ao seu mundo, partilhando com a tua subconsciência segredos e mistérios. Quando acordas recordas aquilo a que chamas sonho, vagas memórias da viajem da alma. O mesmo sucede com a tua imaginação, a alma partilha as próprias e genuínas experiências contigo, e aquilo a que chamas personagens psíquicos e terras e céus de fantasia, invenções! São ideias trazidas de outras dimensões, do futuro, de outros planetas…
- Concluindo, o meu corpo invadiu o meu sonho? Ou… continuo no mesmo espaço de sempre mas noutra dimensão?
- Mistério. Se te dedicares à abertura da visão espiritual, um dia distinguirás todas essas realidades. Por agora, já é informação suficiente para um homem comum aperceber-se de que está rodeado de universos, e que pode viajar entre eles. Ainda mais, estar a conhecer um novo.
“Como?”, “porquê eu?”, “porquê agora?”, “porquê?”, “porquê?”, “porquê?”! Embebedei da constante questão!
-Talvez, a tua alma queira despertar no teu corpo a clarividência, que noutra encarnação pôde ousar. Ou talvez tenhas uma missão a cumprir neste universo.
Ao entardecer, Mangue, o velho, guiou-me numa visita pela floresta mágica.
Começou por me mostrar uma zona de amanitas muscarias, aqueles cogumelos vermelhos com pintas brancas, mas numa versão gigante!
Minúsculas luzinhas a esvoaçar dum lado para o outro, pareciam pirilampos ou mesmo estrelas.
Uma delas pousou levemente no meu dedo mindinho, tal como as borboletas e joaninhas costumam fazer.
-Encantadora! – Soprei – Corpo de menina, pequenina que nem a polegarzinha, com asinhas de borboleta de cor indecifrável! Ou pelo menos, impossível de traduzir para o nosso campo óptico comum, se a baptizasse, não poderia ter um nome simples como “roxo” ou “vermelho”, seria “árctica ardência”. Perfeito!
Á medida que ia penetrando a floresta, tinha de habituar o ângulo de visão, as formas pareciam ter uma inclinação turva, mas eram modelarmente harmónicas, a própria força do chão transmitia a sensação de obliquidade, como se caminhasse sobre uma linha curva, com a inteira consciência de que a terra é redonda.
A minha percepção à matéria circundante aumentava, ou seriam mesmo os corpos que eram cada vez maiores e maiores? Não.
Mangue ensinou-me a controlar o binóculo de cada olho, poderia focar o que eu quisesse e observar os mais ínfimos pormenores, identico ao uso da objectiva da máquina fotográfica. Conseguia fazer o mesmo com as cores, focava-as e tornavam-se intensas ao máximo, descobrira a essência da cor.
As fadas berrantes que, com as suas varinhas de condão, praticavam magias transformando cores em emoções.
Os duendes eram peculiarmente franzinos e, ao sorrirem, um toque de guizo acompanhava e enfeitava a alegria, e essa alegria criava flores.
Os anões, tão miúdos como uma pegada de criança, carregavam potes de ouro para uma ponta do arco-íris.
Os gnomos, rechonchudíssimos, usavam chapéus em cone e apreciavam os animais selvagens.
Ao observar as criaturas bizarras, algo de muito espiritual se passou, por instantes, deixei de ver os corpos extravagantes e vi apenas as suas almas, a cor de cada alma.
Quando sentia emoções fortes, conseguia ouvir música concordante, Mangue esclareceu-me que vinha do Vale da Orquestra. Aqui, existia uma árvore que captava as vibrações de cada emoção, deixava-as correr nos seus veios e a orquestra de flores musicais que a circundavam, encarregavam-se de as sonorizar.
Atravessámos a Floresta Mágica, estávamos já do lado oposto à cabana em forma de cone, e também a sua nostalgia era oposta.
Este lado da floresta, não só era a absoluta noite, como a derradeira sombra da noite.
Nas árvores desnudas salientavam os ramos e galhos torcidos e aguçados nas pontas.
Haviam pântanos de limo e lodo que amorteciam inocentes elfos nocturnos
As aprendizas de bruxas eram meninas jovens escondidas entre trajes góticos, brilhavam em si as faces de lua cheia. Em conjunto, criavam poções que invertiam os jeitos das outras criaturas, por exemplo, os unicórnios dançavam na corda bamba dos trapezistas e os trapezistas corriam de quatro patas tão velozmente como unicórnios.
Ah! Sim, também haviam trapezistas, aliás, havia uma tenda de circo, mas não haviam espectáculos porque o mimo estava a tornar-se diabólico.
Os aromas do ar eram pesadíssimos, não de açucena ou rosa, mas de pele morta.
De um instante para o outro dei por mim a correr e o chão despedaçava-se em mil partes um passo atrás do meu.
O céu, que espelhava a terra, separava-se como se fosse um puzzle.
Mangue corria à frente criando um percurso absurdo, em zig-zag e com meias voltas e voltas inteiras, exercia um ritual afastando os males nocturnos.
Por fim paramos, junto de um poço que parecia retirado da época medieval, pela sua decoração serviçal à mãe natureza, Mangue encheu um balão, como os que os mágicos e os químicos usam, e estendeu-mo.
- Poção de vida.
Por detrás de nós surgiu um espécimen de esqueleto humano, mas com um crânio bastante maior, e apenas com três dedos em cada mão, que radiava luz azul-eléctrica.
Mangue puxou, de dentro do casaco branco, um punhal com o qual partiu o crânio do espécime.
Continuou a conversa onde tínhamos terminado como se nada tivesse ocorrido.
-Bebe a poção. O poço está cada vez mais esgotado, parou de criar…
De seguida pegou-me nas mãos, pediu-me que fechasse os olhos, e, circundados por anéis verdes fluorescentes, perdemo-nos na tontura de um tornado e, quando abrimos os olhos, estávamos na cabana.
Mangue abriu uma janela, ouviam-se gritos: “É a revolução das bolas de sabão!”, agora não só de um ditador, mas de uma multidão inteira.
-É relativamente frequente aparecer alguém vindo do teu universo na minha cabana.
Uns, são guiados pela força da curiosidade, e o universo cede-lhe esta satisfação, outros, estudam o espiritual e alcançam as diversas dimensões por mérito próprio, por vezes, as almas clarividentes que habitam os seus corpos querem desperta-los para as diferentes realidades, e eu só agora percebi a tua chegada.
Ansiava o final da frase, os pormenores enervam-me.
-Chegaste na precisa altura em que estamos prestes a desaparecer. Esta dimensão, do mundo das fadas, inspiradora dos artistas que contam histórias de fadas, tem como única barreira envolvente uma bola de sabão. Com o passar dos tempos a imensidão de artistas vai escasseando, as histórias de fadas ainda mais, e mesmo as que já existem vão sendo menos contadas e acreditadas pelas crianças. Esse acreditar, essa religião mágica, que vocês intitulam de imaginação, é que sustenta a bola de sabão. A bola de sabão está a rebentar, a poção de vida deste universo a esgotar…
-E qual é o meu papel no meio desta historia mirabolante? – perguntei intrigado.
- Tu és mais um daqueles que se esqueceu do que é ser criança, que deixou de sonhar, de acreditar em fadas… Mais um dos que está a contribuir para a ruptura da bola de sabão.
- E que poderia eu fazer para evitar tal?
- A tua mudança de atitude seria um grande exemplo para que o mundo voltasse a sonhar.
- Julgas que bastava chegar à minha dimensão, sonhar, contar a história da Cinderela a meia dúzia de crianças e toda esta fantasia voltaria a sorrir?
- Se quiseres salvar um universo que também te pertence, tu saberás como o fazer.
O peso de tanta responsabilidade fazia-me sentir importante, mas também intimidado.
Mais do que contos de fadas, conhecia histórias bíblicas, que contavam como o Grandioso criou o mundo em 7 dias, criou o Homem e a partir dele a mulher. O “como” era um mistério que universo nenhum esclarecera.
Agora eu, um homem comum, teria de fazer o papel de Deus, salvando um universo, um universo que julgara ser criado por nós mesmos e impossível de partilhar, e afinal, quantos já não visitaram esta utopia.
Pensei nos meus tempos de criança, como pude perder algo que me era tão querido, como brincar ao faz de conta, baloiçar para chegar ao país das maravilhas e sobretudo, o acreditar?
Por entre estes devaneios enchi-me de alegria, de entusiasmo pela inocência e genuinidade, senti o puro instinto humano e a magia aconteceu.
Anéis de fogo abraçaram-me e, num sopro, aterrei sentado numa cadeira, num programa televisivo em directo sobre a inovação da cidade.
- Nelson? Nelson?
- Sim?
- É a tua vez… apresenta o teu plano para o parque de baloiços.
- Parque? Aah, sim o parque…
Ainda estava estonteado como estas repentinas mudanças de realidade.
Ergui-me, afinei a voz e comecei o meu discurso ensaiado:
- Ora boa-tarde a todos, para começar. Como estão meus senhores?
- Prossiga.
- Como cidadão que sou, carrego comigo o dever cívico de saber e sentir à flor da pele o que é melhor para esta sociedade, e como arquitecto que sou, tenho o dever de o fazer bem! – fortes aplausos. – A sociedade precisa de progressão, a todos os níveis, essa ambição começa nas crianças, e não é em parques infantis que elas a vão ganhar!
Subitamente, olhei pela janela que estava mesmo à minha frente, era fim de tarde, o sol já se punha e recordei o quão sanguíneo é o pôr-do-sol no país das fadas.
A minha clarividência ganha no país mágico permitiu-me reparar numa fada, invisível para todos os outros. Era mais uma das que caíra pela ruptura da bola de sabão.
A fada delicada, com a sua saiinha colorida, andava desamparada pelas estradas, com todos a esbarrar nela, com a poluição a sufocá-la, sem flores onde de embrulhar e bailar.
- Prossiga!
- Não é nos parques infantis que as crianças vão ganhar ambição… - e a fada tropeçava – Mas as crianças não precisam de ambição.
- Desculpe?
- As crianças precisam de viver a sua fase de inocência, de se libertarem, de explorarem o mundo, de imaginar, de sonhar, de brincar… de brincar num parque de baloiços… e de fazer bolas de sabão! Faremos uma revolução de bolas de sabão! Salvaremos as fadas!
As crianças que assistiam ao programa correram para as bacias para misturar água e sabão, correram para as janelas, onde chocaram os sorrisos de umas e outras e em conjunto sopraram bolas de sabão.
- É a revolução das bolas de sabão! – Gritaram em coro.
Assim, as bolas de sabão recolheram as fadas, os duendes e todas as criaturas da floresta magica perdidas na nossa dimensão, e levaram-nas de volta para o seu mundo.
Cada vez que uma criança sopra uma bola de sabão, recebe de uma fada, um beijo doirado com um dom.
- É a revolução das bolas de sabão!
segunda-feira, 12 de março de 2007
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Um comentário:
gostava de me perder no recôndito da tua alma...a planar noites afim pelo mar imenço na tua... na nossa bola de sabão. Sim porque vivo num constante sonho juntamente con um torbilhão de emoçoes, com os quais nao sei lidar...adorava viver nessa "bola de sabao" ao invés de viver numa realidade que nao me diz nada...uma bola de sabao e uma casa de perfume...(reticensias)
beijo*
(adorei o post)
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