sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O Castigo













-Estou, sim...?, boa-tarde... (hesitante) Ainda se lembra da Victória?, a filha da... Sim. Essa Victória. Estou a telefonar-lhe do consultório do meu médico de família... Exactamente. Esse mesmo. Ele aconselhou-me a contactá-lo porque... bem, porque... Sim... (hesitante) Concordo. Caso contrário não... Hmm... Seria mais fácil responder à questão invertida, o que é que não aconteceu. O que é que não aconteceu?! Bem... não me matei. Decididamente, não me matei. E não me quero matar. É por isso que preciso da sua ajuda. Porque não me quero matar.

No interior do edifício do consultório do Dr. escuta-se a marcha indecisa de Victória que, ora incisiva ora deambulante, se determina por um dos corredores secundários do edifício. Victória era a última utente naquele fim-de-tarde. O Dr. quando chamara pelo seu penúltimo utente aproveitara para penetrar na sala de espera e estender uma mão assertiva a Victória, o que aguçara o seu nervosismo.


“O que é que ele pensará de mim? Desapareço durante um ano e agora irrompo com um telefonema desesperado? Obsessivo-compulsiva. Obviamente. Ah. Não. Que ele não é daqueles que têm a mania de catalogar as pessoas como se fossem objectos de prateleira. Aliás, nunca saí do seu consultório com um papeleco rabiscado com nomes de venenos...”

– Então até à próxima, meu caro...
– Obrigado Dr., muitíssimo obrigado.
– ...E não se esqueça de se dirigir à minha secretária, para nova marcação...

Nisto, um andar frenético emparelhado a muitos retrocessos de marcha, marca presença nítida no silêncio. Por instantes, Victória esqueceu por completo o cheiro a éter que imunda os hospitais, e deixou-se embalar por aquela marcha tão característica, intersectada pelo teclado de computador desigualmente frenético da secretária. O telefone toca. Somente por um milissegundo. A secretária tacteia o rato do computador similarmente ao atendimento do telefone.

“Lá que os funcionários públicos são capazes de ganhar mestria no meio do tédio, disso, já não duvido”, pensa Victória para si mesma em tom prejurativo.


-Ok, Dr.

Constata prontamente a secretária mantendo uma expressão profissional - a expressão ausente de quem está compenetrado numa ocupação intelectual. Nisto, inclina-se sobre a escrivaninha estendendo atrás um pé calçado com um sapato preto clássico, ao pendurar os dedos na extremidade da escrivaninha, ouvem-se as pérolas arredondadas da pulseira trauctearem na madeira.

– Sr. Levant? Sr. Levant?, a sua marcação... 9 de Setembro, às 15 horas, está bem para si?

O Sr. Levant remexeu nas algibeiras agitadamente.

- Olhe, fazemos assim, leva este cartãozinho, quando chegar ao carro da sua esposa entrega-lho, se houver alguma objecção, ela que telefone.
–Obrigado senhora, muitíssimo obrigado.
- O Dr. pede que da próxima vez a sua esposa o acompanhe...

Até aqui, Victória ainda não tivera oportunidade de percepcionar a barriga grávidíssima da secretária. Victória que já desistira de todas as revistas de carácter científico ao dispor, que já atirára para o caixote dos papéis um masso de tabaco amarrotado, que já condenára todos os cartazes sobre terapia familiar, doação de sangue e grupos de alcoólicos anónimos expostos nas paredes, que já bloqueára e desbloqueára o teclado do seu telemóvel numa repetição hipnótica... começava a colocar em questão o sentido da sua deslocação até ali, a iniciativa do seu telefonema, a dignidade... Olhou a secretária com um indisfarçável ar de desespero. Uma mão sobre a testa, as sombrancelhas retorcidas.

- O Dr. vai já chamá-la. – disse a secretária com um sorriso apaziguador.

Não poderia nunca supor que o indisfarçável ar de desespero fosse um indício de cobardia suada , e não de uma expectativa optimista.

- Victória... – Chamou o Dr., de bata branca desabotoada, que se encontrava no princípio do corredor secundário, na esquina onde se localizava o seu consultório, consultando um dossier de capa grossa “o meu cadástro da loucura”, pensou Victória, “todo o meu sofrimento é reduzido a uma minória de folhas de papel”, não olhou para Victória, virando-se imediatamente para dentro após nomear o seu nome.

Victória levantou-se num impulso nervoso, dirigiu-se até à esquina como que hipnotisada, entrou no consultório de cabeça baixa, comandada pelos passos silenciosos, e fechou a porta também silenciosamente.Ela própria comparou a sua figura à de uma criança que dirige aos pais na expectativa do castigo.

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