sábado, 15 de janeiro de 2011

Um Último



























Receitaram-me 50mg, fiquei apavorada. Pensei, disse: Quetiapina? Nunca.Não resistiria. Sentir-me-ia, tornar-me-ia, demente. Absolutamente. Mas absolutamente. Sem tirar sílaba, nem por acento. Literalmente demente. Chegou a noite, estava ansiozíssima. E afinal de contas, tinha-me sido receitado. Se venci um anti-depressivo, que me deixa terrífica, mas terrrrífica, maléfica... dissociada, com crises de raiva, ataques de pânico desta vez não aconteceu nada, porque tomei metade da dose receitada, se calhar, provavelmente, isto não sei, digo eu, dissera eu, antes, anteriormente a... onde ia eu? Ah. Pois, sim, claro. Talvez, tomando metade, não me sinta pior, mas melhor... Vejamos... Metade é muuuuito. Vou partir o comprimido em 8 partes. Tentei. Faca. Mal partido. Lixo. Outra faca. Uma faca melhor. Desfeito... Bem, fico com esta trinquinha ridícula. Hmm... Hmmm... HMMM...! Sinto-me... desperta, surpreendentemente. Credo. Sinto-me mais sóbria... As cores estão mais vivas. Tenho estado sempre de luz apagada?! Extraordinário. Que raio estive eu a fazer esta noite, mas que é que eu estava para ali a dizer? Não fez sentido nenhum! Mas absolutamente nenhum! E que aspecto é este? Bem, estou mais bonita do que me parecia hoje de manhã, e hoje de tarde, e nos últimos dias, tempos... na verdade. Credo. Extraordinário. E inadmissível. Será que preciso MESMO de um anti-psicótico? Sofro mesmo de psicose? Já o Abilify me fazia sentir particularmente bem, não propriamente bem, vejamos, isso é impossível, mas pelo menos melhor do que qualquer outro medicamento psiquiátrico até agora prescrito. Será possível...? Todo este sofrimento que eu insisto que não se chama depressão... Que não estou deprimida! Repito, não estou deprimida! Içai as bandeiras da declaraçããããõoo! Não estou deprimida! Isto é outra coisa. Reparai, estou a assumir. Sofro de psicose. Sou psicótica. Bem, para mal dos males, tomo metade do comprimido. Calma, agora estou demasiado lenta... OOOH... uma porta, a movimentar-se, sou eu que estou a movimentá-la, para trás, para a frente, que giro, que metafísico. Oh, não! Que demente que eu saí... Hmm... Metade. Está tomada, e seja o que for... eu vencerei. Se não hoje, amanhã acordarei, pelo menos. E recomeçarei. Com uma dose reduzida, ou sem dose nenhuma... Vamos lá a ver para que raio é isto receitado, mais concretamente, em que perfil de sintomas eu me encaixo... Já entendi. Foi por isto que ela mo receitou. Porque eu disse que quando tomo anti-depressivos me sinto frenética e tenho crises de raiva. E portanto para equilibrar o maldito anti-depressivo... Toma lá com um anti-psicótico. Está certo. Já agora, leiamos também os efeitos secundários, não encontro... efeitos de sobredosagem... AAAH, calma, agora não dá, AAAH, o que é isto?? Ardem-me os neurónios, estou a gritar por dentro, só por dentro, muito alto, muito distante, muito vago e intenso e mesmo que quisesse gritar boca fora não seria capaz! Estou trancada num grito, como no quadro do Munch, um grito estático, calado, imerso em deformações de tinta, AAAAAAAH. Coração trémolo, coração granáda. Mas isto será normal? Sobredosagem. Sobredosagem. Onde ia eu, ia na sobredosagem. AH!, isto é efeito de sobredosagem! E agora?? Diazpam, diazpam por favor, senão desapareço. Aaah... melhor... melhor... burra. Estúpida que nem uma porta. Demente. Absolutamente demente. Agora, sinto-me demente. E estou paranóica. Tudo me é estrangeiro. Mais valia não ter tomado. Folheto informativo: NÃO DEVE SER TOMADO POR IDOSOS POR CAUSAR DEMÊNCIA. O meu cérebro já desmaiou... E agora? Será que volto ao normal? Amanhã só tomo um quarto, e é se tomar, não aguento isto, vou tentar dormir, adormecer a ouvir música, That I would be good/ If I got and stayed sick. Só espero acordar, só espero acordar, só espero acordar. Estou aflita. Ainda estou mais ansiosa, mais irritada, e para rematar, mais demente!

Boa-noite.

Na primeira oitava parte foi uma oitava perfeita, ainda olhei de soslaio para a guitarra, subitamente apeteceu-me passar-lhe as mãos pelas cordas, mas depois... depois fiquei assim...
Inicialmente até me sentira invulgarmente motivada e estimulada... Mas agora, olho para a guitarra. E não consigo, não consigo, simplesmente não consigo. Não consigo nada de nada. Nada de nada. Só palavras que me furam as pontas dos dedos e saltam para o papel virtual. Que não sei de que fundo vêm para além do fundo do desespero. Mas ainda assim, não consigo parar, parar, parar... Se bem que se estivesse calada, julgo, ocorrer-me-iam mentalmente palavras mais sãs, num discurso mais estilizado, elaborando um conteúdo frásico mais consistente. Porque eu na verdade até estou a ferver num borbulhar de ideias, mas o esforço, duplo, tríplico, pensar, escrever, ansiar, não me permite explora-me mais nem tão pouco ser explícita. Rendo-me. À escrita. E à dose. Preciso fingir-me bela adormecida. Equivocar-me na ilusão do sono.

Até mais.

O que eu não dava por um cigarro!, por um último grito que atenuasse o sofrimento! Por um grito gritado nas cordas da guitarra que me capturam prejurativamente, condenando-me à culpa de não lhe obedecer, de não obedecer à vontade própria do desespero ou da sobrevivência.

O que eu não dava por um último grito real.

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