quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A Paixão pela Verdade



















É o lugar onde me dói mentir.
O único lugar onde sou inevitavelmente sincera.
Consciência de traição.
Acredito em poucas coisas, acredito na essência do teatro e na essência da amizade. Em resumo, acredito que, só nestes lugares interiores, é possível nascer a generosidade genuína. Só nestes lugares interiores, abdicamos de nós próprios, para que o outro seja maior.
Só a paixão impulsiona o desejo de ser inteiro. Só na casa da paixão sentimos a ira da traição no acto de mentir. O ser múltiplo. O ser uma multiplicidade de fracções. O ser dissociado. Desinteiro. Desintegrado. Em vez de íntegro. Só no rumo da paixão questionamos a integridade das nossas passadas desnudadas. Aniquilando receios determinadamente.
Questionamos a integridade das passadas desnudadas, que calcam a calçada interior, o esqueleto abstracto. O núcleo. O núcleo irascível na luz da mentira. Desolador no olhar do espectador.
O espectador crédulo no incrível actor. Sem lugar de dúvida. A débil e vertiginosa verdade da personagem que sem cobardia se enraíza na espiritualidade, volvendo-se em semente do real. Em realidade.
Nunca um olhar fosco desacreditado em tanto fingimento. Nunca mentir a uma plateia vermelha cheia de gente.
Mentir a uma multidão. O actor responsabiliza-se pelo espectador. Pela realidade que acompanhar a cadeira viajante. E pela viagem seguinte. Porta fora. Não merecemos a dúvida. Não merecemos que duvidem de nós. Não merecemos que duvidem daquilo em que acreditamos. Daquilo que sentimos. Que abdicamos de nós. Para que eles sejam maiores. Eles não merecem que existam frechas no cimento da personagem por onde entre a luz da dúvida. Nós não merecemos viver no trago amargo, que é ser raíz dúbia para eles. Para a multidão. Para cada príncipe.

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