parte IV
-Mangue?
-Sim?
-Afinal o que era toda aquela loucura atrás da porta mágica?
-Uma máquina do tempo.
-A sério?
-Não!
-Então?
- Um mundo de transe, drogas e muito prazer.
-A sério?
-AHAHAH!
segunda-feira, 12 de março de 2007
"Revolução das bolas de sabão"
parte III
Efeitos aleatórios, como espirais, tornados, partículas rotativas, linhas e círculos de fumo, em cores fluorescentes e cintilantes esticavam-se como pastilhas elásticas, ecoavam sons da natureza que distorciam para electrónicos.
Tal como numa situação de representação teatral, em que o holofote me ilumina unicamente a mim, o meu ego subia à medida que um sedutor fecho de luz me acariciava.
Deixava-me rolar pela tentação seguindo a luz, quando, de rompante, me pegaram pela cintura e arrancaram do paraíso, trancando a porta por fim.
Tal como um toxicodependente a quem tiraram o saquinho da droga, enfureci, e enfureci tão agressivamente que além da gritaria e do esperneio senti os olhos a saltarem-me da cara.
O indivíduo que me roubara a fortuna observava-me quase que indiferentemente, encarando a situação pacificamente.
Era um velho, um velho rasteiro, corcunda, careca, de longas barbas brancas e farfalhudas, vestido com uma túnica igualmente cã.
Desceu as escadas e eu segui-o.
Chegando ao círculo, sentou-se numa cadeira de baloiço, em que eu não tinha reparado, e indicou-me um almofadão, ao que eu respondi sentando-me também.
Baloiçava-se, acendeu um cachimbo indiano, ia passando e enfiando os dedos entre as barbas e soprando nuvens de fumo, e a minha fúria morria nessas nuvens.
Oscilou a cabeça em tom de negação e finalmente iniciámos um diálogo:- As portas não são para abrir, nem tão pouco as escadas para subir.
Interpretei tal como uma ordem de restrição, mas ele acrescentou:
- As portas só se fecham e as escadas só se descem.
Fiquei confuso e não precisei de o dizer.
O velho sorriu e num novo balanço continuou:
- Quando estás metido dentro de um labirinto, em que pensas?
- Em encontrar a saída.
- Ou seja, regressar ao ponto de partida. O ponto de partida para o sótão é a subida das escadas, o ponto de partida para entrar num compartimento é a abertura da respectiva porta.
Bufei.
- O que eu quero dizer, é que quando, no teu dia-a-dia, escolhes um caminho tens a segurança de poder voltar para trás, e muitas vezes, a tua opção é tão errática que é o regresso que mais anseias…
- Pois bem…
- Asseguro-te de que estas escadas e estas portas não precisam sequer da tua intenção para te absorverem. E não te garanto que alguma vez consigas voltar.
Engoli em seco recordando a luz sedutora.
Entretanto o velho dirigiu-se a uma pequena portela por debaixo das escadas, entrou, saiu. Trouxe com ele um tabuleiro de biscoitos e, uma efusão que refrescava os lábios como um gelado tropical, e aconchegava o estômago como um chá quente. Uma mistura sensacional completamente alienígena para mim.
Eu queria perguntar mil coisas àquele velho tão sabedor, mas faltavam-me as palavras.
- Hum... Conversamos acerca de portas mágicas, e eu nem percebo se não és apenas uma personagem criada pelo meu psíquico, se todo este espaço não é fruto da minha imaginação, se enlouqueci, se estou a sonhar…
- O que é o sonho?
Não sabia o que responder, era um assunto fútil para o género de vida que eu levava.
De certa forma era um rapaz pensador e curioso em relação ao mundo, mas desde o início da adolescência que decidira viver para estudar; tendo em mente a ideia de alcançar um futuro maravilhoso, que nem sabia de que cor queria pintar.
Os pais ensinam-nos assim, pelo menos a maioria, que na escola está o futuro, isto é, que estudaremos para trabalharmos, para vencermos ao final do mês, para poder casar e sustentar uma família, que seguirá os mesmos capítulos.
E tudo isto, com que desejo fundamental? Com o desejo de viver a felicidade!
Então e aqueles por quem a auto-realização não implica constituição de família ou uma conta galante?
Eu esquecera-me dos meus sonhos… Guerreava armado por uma bandeira que não me dizia nada.
“O que é o sonho?”, ecoava a voz do velho dum lado para o outro na minha cabeça.
Olhei-o como quem pede uma resposta.
- Quando dormes, a tua alma solta-se do corpo e viaja até ao seu mundo, partilhando com a tua subconsciência segredos e mistérios. Quando acordas recordas aquilo a que chamas sonho, vagas memórias da viajem da alma. O mesmo sucede com a tua imaginação, a alma partilha as próprias e genuínas experiências contigo, e aquilo a que chamas personagens psíquicos e terras e céus de fantasia, invenções! São ideias trazidas de outras dimensões, do futuro, de outros planetas…
- Concluindo, o meu corpo invadiu o meu sonho? Ou… continuo no mesmo espaço de sempre mas noutra dimensão?
- Mistério. Se te dedicares à abertura da visão espiritual, um dia distinguirás todas essas realidades. Por agora, já é informação suficiente para um homem comum aperceber-se de que está rodeado de universos, e que pode viajar entre eles. Ainda mais, estar a conhecer um novo.
“Como?”, “porquê eu?”, “porquê agora?”, “porquê?”, “porquê?”, “porquê?”! Embebedei da constante questão!
-Talvez, a tua alma queira despertar no teu corpo a clarividência, que noutra encarnação pôde ousar. Ou talvez tenhas uma missão a cumprir neste universo.
Ao entardecer, Mangue, o velho, guiou-me numa visita pela floresta mágica.
Começou por me mostrar uma zona de amanitas muscarias, aqueles cogumelos vermelhos com pintas brancas, mas numa versão gigante!
Minúsculas luzinhas a esvoaçar dum lado para o outro, pareciam pirilampos ou mesmo estrelas.
Uma delas pousou levemente no meu dedo mindinho, tal como as borboletas e joaninhas costumam fazer.
-Encantadora! – Soprei – Corpo de menina, pequenina que nem a polegarzinha, com asinhas de borboleta de cor indecifrável! Ou pelo menos, impossível de traduzir para o nosso campo óptico comum, se a baptizasse, não poderia ter um nome simples como “roxo” ou “vermelho”, seria “árctica ardência”. Perfeito!
Á medida que ia penetrando a floresta, tinha de habituar o ângulo de visão, as formas pareciam ter uma inclinação turva, mas eram modelarmente harmónicas, a própria força do chão transmitia a sensação de obliquidade, como se caminhasse sobre uma linha curva, com a inteira consciência de que a terra é redonda.
A minha percepção à matéria circundante aumentava, ou seriam mesmo os corpos que eram cada vez maiores e maiores? Não.
Mangue ensinou-me a controlar o binóculo de cada olho, poderia focar o que eu quisesse e observar os mais ínfimos pormenores, identico ao uso da objectiva da máquina fotográfica. Conseguia fazer o mesmo com as cores, focava-as e tornavam-se intensas ao máximo, descobrira a essência da cor.
As fadas berrantes que, com as suas varinhas de condão, praticavam magias transformando cores em emoções.
Os duendes eram peculiarmente franzinos e, ao sorrirem, um toque de guizo acompanhava e enfeitava a alegria, e essa alegria criava flores.
Os anões, tão miúdos como uma pegada de criança, carregavam potes de ouro para uma ponta do arco-íris.
Os gnomos, rechonchudíssimos, usavam chapéus em cone e apreciavam os animais selvagens.
Ao observar as criaturas bizarras, algo de muito espiritual se passou, por instantes, deixei de ver os corpos extravagantes e vi apenas as suas almas, a cor de cada alma.
Quando sentia emoções fortes, conseguia ouvir música concordante, Mangue esclareceu-me que vinha do Vale da Orquestra. Aqui, existia uma árvore que captava as vibrações de cada emoção, deixava-as correr nos seus veios e a orquestra de flores musicais que a circundavam, encarregavam-se de as sonorizar.
Atravessámos a Floresta Mágica, estávamos já do lado oposto à cabana em forma de cone, e também a sua nostalgia era oposta.
Este lado da floresta, não só era a absoluta noite, como a derradeira sombra da noite.
Nas árvores desnudas salientavam os ramos e galhos torcidos e aguçados nas pontas.
Haviam pântanos de limo e lodo que amorteciam inocentes elfos nocturnos
As aprendizas de bruxas eram meninas jovens escondidas entre trajes góticos, brilhavam em si as faces de lua cheia. Em conjunto, criavam poções que invertiam os jeitos das outras criaturas, por exemplo, os unicórnios dançavam na corda bamba dos trapezistas e os trapezistas corriam de quatro patas tão velozmente como unicórnios.
Ah! Sim, também haviam trapezistas, aliás, havia uma tenda de circo, mas não haviam espectáculos porque o mimo estava a tornar-se diabólico.
Os aromas do ar eram pesadíssimos, não de açucena ou rosa, mas de pele morta.
De um instante para o outro dei por mim a correr e o chão despedaçava-se em mil partes um passo atrás do meu.
O céu, que espelhava a terra, separava-se como se fosse um puzzle.
Mangue corria à frente criando um percurso absurdo, em zig-zag e com meias voltas e voltas inteiras, exercia um ritual afastando os males nocturnos.
Por fim paramos, junto de um poço que parecia retirado da época medieval, pela sua decoração serviçal à mãe natureza, Mangue encheu um balão, como os que os mágicos e os químicos usam, e estendeu-mo.
- Poção de vida.
Por detrás de nós surgiu um espécimen de esqueleto humano, mas com um crânio bastante maior, e apenas com três dedos em cada mão, que radiava luz azul-eléctrica.
Mangue puxou, de dentro do casaco branco, um punhal com o qual partiu o crânio do espécime.
Continuou a conversa onde tínhamos terminado como se nada tivesse ocorrido.
-Bebe a poção. O poço está cada vez mais esgotado, parou de criar…
De seguida pegou-me nas mãos, pediu-me que fechasse os olhos, e, circundados por anéis verdes fluorescentes, perdemo-nos na tontura de um tornado e, quando abrimos os olhos, estávamos na cabana.
Mangue abriu uma janela, ouviam-se gritos: “É a revolução das bolas de sabão!”, agora não só de um ditador, mas de uma multidão inteira.
-É relativamente frequente aparecer alguém vindo do teu universo na minha cabana.
Uns, são guiados pela força da curiosidade, e o universo cede-lhe esta satisfação, outros, estudam o espiritual e alcançam as diversas dimensões por mérito próprio, por vezes, as almas clarividentes que habitam os seus corpos querem desperta-los para as diferentes realidades, e eu só agora percebi a tua chegada.
Ansiava o final da frase, os pormenores enervam-me.
-Chegaste na precisa altura em que estamos prestes a desaparecer. Esta dimensão, do mundo das fadas, inspiradora dos artistas que contam histórias de fadas, tem como única barreira envolvente uma bola de sabão. Com o passar dos tempos a imensidão de artistas vai escasseando, as histórias de fadas ainda mais, e mesmo as que já existem vão sendo menos contadas e acreditadas pelas crianças. Esse acreditar, essa religião mágica, que vocês intitulam de imaginação, é que sustenta a bola de sabão. A bola de sabão está a rebentar, a poção de vida deste universo a esgotar…
-E qual é o meu papel no meio desta historia mirabolante? – perguntei intrigado.
- Tu és mais um daqueles que se esqueceu do que é ser criança, que deixou de sonhar, de acreditar em fadas… Mais um dos que está a contribuir para a ruptura da bola de sabão.
- E que poderia eu fazer para evitar tal?
- A tua mudança de atitude seria um grande exemplo para que o mundo voltasse a sonhar.
- Julgas que bastava chegar à minha dimensão, sonhar, contar a história da Cinderela a meia dúzia de crianças e toda esta fantasia voltaria a sorrir?
- Se quiseres salvar um universo que também te pertence, tu saberás como o fazer.
O peso de tanta responsabilidade fazia-me sentir importante, mas também intimidado.
Mais do que contos de fadas, conhecia histórias bíblicas, que contavam como o Grandioso criou o mundo em 7 dias, criou o Homem e a partir dele a mulher. O “como” era um mistério que universo nenhum esclarecera.
Agora eu, um homem comum, teria de fazer o papel de Deus, salvando um universo, um universo que julgara ser criado por nós mesmos e impossível de partilhar, e afinal, quantos já não visitaram esta utopia.
Pensei nos meus tempos de criança, como pude perder algo que me era tão querido, como brincar ao faz de conta, baloiçar para chegar ao país das maravilhas e sobretudo, o acreditar?
Por entre estes devaneios enchi-me de alegria, de entusiasmo pela inocência e genuinidade, senti o puro instinto humano e a magia aconteceu.
Anéis de fogo abraçaram-me e, num sopro, aterrei sentado numa cadeira, num programa televisivo em directo sobre a inovação da cidade.
- Nelson? Nelson?
- Sim?
- É a tua vez… apresenta o teu plano para o parque de baloiços.
- Parque? Aah, sim o parque…
Ainda estava estonteado como estas repentinas mudanças de realidade.
Ergui-me, afinei a voz e comecei o meu discurso ensaiado:
- Ora boa-tarde a todos, para começar. Como estão meus senhores?
- Prossiga.
- Como cidadão que sou, carrego comigo o dever cívico de saber e sentir à flor da pele o que é melhor para esta sociedade, e como arquitecto que sou, tenho o dever de o fazer bem! – fortes aplausos. – A sociedade precisa de progressão, a todos os níveis, essa ambição começa nas crianças, e não é em parques infantis que elas a vão ganhar!
Subitamente, olhei pela janela que estava mesmo à minha frente, era fim de tarde, o sol já se punha e recordei o quão sanguíneo é o pôr-do-sol no país das fadas.
A minha clarividência ganha no país mágico permitiu-me reparar numa fada, invisível para todos os outros. Era mais uma das que caíra pela ruptura da bola de sabão.
A fada delicada, com a sua saiinha colorida, andava desamparada pelas estradas, com todos a esbarrar nela, com a poluição a sufocá-la, sem flores onde de embrulhar e bailar.
- Prossiga!
- Não é nos parques infantis que as crianças vão ganhar ambição… - e a fada tropeçava – Mas as crianças não precisam de ambição.
- Desculpe?
- As crianças precisam de viver a sua fase de inocência, de se libertarem, de explorarem o mundo, de imaginar, de sonhar, de brincar… de brincar num parque de baloiços… e de fazer bolas de sabão! Faremos uma revolução de bolas de sabão! Salvaremos as fadas!
As crianças que assistiam ao programa correram para as bacias para misturar água e sabão, correram para as janelas, onde chocaram os sorrisos de umas e outras e em conjunto sopraram bolas de sabão.
- É a revolução das bolas de sabão! – Gritaram em coro.
Assim, as bolas de sabão recolheram as fadas, os duendes e todas as criaturas da floresta magica perdidas na nossa dimensão, e levaram-nas de volta para o seu mundo.
Cada vez que uma criança sopra uma bola de sabão, recebe de uma fada, um beijo doirado com um dom.
- É a revolução das bolas de sabão!
Efeitos aleatórios, como espirais, tornados, partículas rotativas, linhas e círculos de fumo, em cores fluorescentes e cintilantes esticavam-se como pastilhas elásticas, ecoavam sons da natureza que distorciam para electrónicos.
Tal como numa situação de representação teatral, em que o holofote me ilumina unicamente a mim, o meu ego subia à medida que um sedutor fecho de luz me acariciava.
Deixava-me rolar pela tentação seguindo a luz, quando, de rompante, me pegaram pela cintura e arrancaram do paraíso, trancando a porta por fim.
Tal como um toxicodependente a quem tiraram o saquinho da droga, enfureci, e enfureci tão agressivamente que além da gritaria e do esperneio senti os olhos a saltarem-me da cara.
O indivíduo que me roubara a fortuna observava-me quase que indiferentemente, encarando a situação pacificamente.
Era um velho, um velho rasteiro, corcunda, careca, de longas barbas brancas e farfalhudas, vestido com uma túnica igualmente cã.
Desceu as escadas e eu segui-o.
Chegando ao círculo, sentou-se numa cadeira de baloiço, em que eu não tinha reparado, e indicou-me um almofadão, ao que eu respondi sentando-me também.
Baloiçava-se, acendeu um cachimbo indiano, ia passando e enfiando os dedos entre as barbas e soprando nuvens de fumo, e a minha fúria morria nessas nuvens.
Oscilou a cabeça em tom de negação e finalmente iniciámos um diálogo:- As portas não são para abrir, nem tão pouco as escadas para subir.
Interpretei tal como uma ordem de restrição, mas ele acrescentou:
- As portas só se fecham e as escadas só se descem.
Fiquei confuso e não precisei de o dizer.
O velho sorriu e num novo balanço continuou:
- Quando estás metido dentro de um labirinto, em que pensas?
- Em encontrar a saída.
- Ou seja, regressar ao ponto de partida. O ponto de partida para o sótão é a subida das escadas, o ponto de partida para entrar num compartimento é a abertura da respectiva porta.
Bufei.
- O que eu quero dizer, é que quando, no teu dia-a-dia, escolhes um caminho tens a segurança de poder voltar para trás, e muitas vezes, a tua opção é tão errática que é o regresso que mais anseias…
- Pois bem…
- Asseguro-te de que estas escadas e estas portas não precisam sequer da tua intenção para te absorverem. E não te garanto que alguma vez consigas voltar.
Engoli em seco recordando a luz sedutora.
Entretanto o velho dirigiu-se a uma pequena portela por debaixo das escadas, entrou, saiu. Trouxe com ele um tabuleiro de biscoitos e, uma efusão que refrescava os lábios como um gelado tropical, e aconchegava o estômago como um chá quente. Uma mistura sensacional completamente alienígena para mim.
Eu queria perguntar mil coisas àquele velho tão sabedor, mas faltavam-me as palavras.
- Hum... Conversamos acerca de portas mágicas, e eu nem percebo se não és apenas uma personagem criada pelo meu psíquico, se todo este espaço não é fruto da minha imaginação, se enlouqueci, se estou a sonhar…
- O que é o sonho?
Não sabia o que responder, era um assunto fútil para o género de vida que eu levava.
De certa forma era um rapaz pensador e curioso em relação ao mundo, mas desde o início da adolescência que decidira viver para estudar; tendo em mente a ideia de alcançar um futuro maravilhoso, que nem sabia de que cor queria pintar.
Os pais ensinam-nos assim, pelo menos a maioria, que na escola está o futuro, isto é, que estudaremos para trabalharmos, para vencermos ao final do mês, para poder casar e sustentar uma família, que seguirá os mesmos capítulos.
E tudo isto, com que desejo fundamental? Com o desejo de viver a felicidade!
Então e aqueles por quem a auto-realização não implica constituição de família ou uma conta galante?
Eu esquecera-me dos meus sonhos… Guerreava armado por uma bandeira que não me dizia nada.
“O que é o sonho?”, ecoava a voz do velho dum lado para o outro na minha cabeça.
Olhei-o como quem pede uma resposta.
- Quando dormes, a tua alma solta-se do corpo e viaja até ao seu mundo, partilhando com a tua subconsciência segredos e mistérios. Quando acordas recordas aquilo a que chamas sonho, vagas memórias da viajem da alma. O mesmo sucede com a tua imaginação, a alma partilha as próprias e genuínas experiências contigo, e aquilo a que chamas personagens psíquicos e terras e céus de fantasia, invenções! São ideias trazidas de outras dimensões, do futuro, de outros planetas…
- Concluindo, o meu corpo invadiu o meu sonho? Ou… continuo no mesmo espaço de sempre mas noutra dimensão?
- Mistério. Se te dedicares à abertura da visão espiritual, um dia distinguirás todas essas realidades. Por agora, já é informação suficiente para um homem comum aperceber-se de que está rodeado de universos, e que pode viajar entre eles. Ainda mais, estar a conhecer um novo.
“Como?”, “porquê eu?”, “porquê agora?”, “porquê?”, “porquê?”, “porquê?”! Embebedei da constante questão!
-Talvez, a tua alma queira despertar no teu corpo a clarividência, que noutra encarnação pôde ousar. Ou talvez tenhas uma missão a cumprir neste universo.
Ao entardecer, Mangue, o velho, guiou-me numa visita pela floresta mágica.
Começou por me mostrar uma zona de amanitas muscarias, aqueles cogumelos vermelhos com pintas brancas, mas numa versão gigante!
Minúsculas luzinhas a esvoaçar dum lado para o outro, pareciam pirilampos ou mesmo estrelas.
Uma delas pousou levemente no meu dedo mindinho, tal como as borboletas e joaninhas costumam fazer.
-Encantadora! – Soprei – Corpo de menina, pequenina que nem a polegarzinha, com asinhas de borboleta de cor indecifrável! Ou pelo menos, impossível de traduzir para o nosso campo óptico comum, se a baptizasse, não poderia ter um nome simples como “roxo” ou “vermelho”, seria “árctica ardência”. Perfeito!
Á medida que ia penetrando a floresta, tinha de habituar o ângulo de visão, as formas pareciam ter uma inclinação turva, mas eram modelarmente harmónicas, a própria força do chão transmitia a sensação de obliquidade, como se caminhasse sobre uma linha curva, com a inteira consciência de que a terra é redonda.
A minha percepção à matéria circundante aumentava, ou seriam mesmo os corpos que eram cada vez maiores e maiores? Não.
Mangue ensinou-me a controlar o binóculo de cada olho, poderia focar o que eu quisesse e observar os mais ínfimos pormenores, identico ao uso da objectiva da máquina fotográfica. Conseguia fazer o mesmo com as cores, focava-as e tornavam-se intensas ao máximo, descobrira a essência da cor.
As fadas berrantes que, com as suas varinhas de condão, praticavam magias transformando cores em emoções.
Os duendes eram peculiarmente franzinos e, ao sorrirem, um toque de guizo acompanhava e enfeitava a alegria, e essa alegria criava flores.
Os anões, tão miúdos como uma pegada de criança, carregavam potes de ouro para uma ponta do arco-íris.
Os gnomos, rechonchudíssimos, usavam chapéus em cone e apreciavam os animais selvagens.
Ao observar as criaturas bizarras, algo de muito espiritual se passou, por instantes, deixei de ver os corpos extravagantes e vi apenas as suas almas, a cor de cada alma.
Quando sentia emoções fortes, conseguia ouvir música concordante, Mangue esclareceu-me que vinha do Vale da Orquestra. Aqui, existia uma árvore que captava as vibrações de cada emoção, deixava-as correr nos seus veios e a orquestra de flores musicais que a circundavam, encarregavam-se de as sonorizar.
Atravessámos a Floresta Mágica, estávamos já do lado oposto à cabana em forma de cone, e também a sua nostalgia era oposta.
Este lado da floresta, não só era a absoluta noite, como a derradeira sombra da noite.
Nas árvores desnudas salientavam os ramos e galhos torcidos e aguçados nas pontas.
Haviam pântanos de limo e lodo que amorteciam inocentes elfos nocturnos
As aprendizas de bruxas eram meninas jovens escondidas entre trajes góticos, brilhavam em si as faces de lua cheia. Em conjunto, criavam poções que invertiam os jeitos das outras criaturas, por exemplo, os unicórnios dançavam na corda bamba dos trapezistas e os trapezistas corriam de quatro patas tão velozmente como unicórnios.
Ah! Sim, também haviam trapezistas, aliás, havia uma tenda de circo, mas não haviam espectáculos porque o mimo estava a tornar-se diabólico.
Os aromas do ar eram pesadíssimos, não de açucena ou rosa, mas de pele morta.
De um instante para o outro dei por mim a correr e o chão despedaçava-se em mil partes um passo atrás do meu.
O céu, que espelhava a terra, separava-se como se fosse um puzzle.
Mangue corria à frente criando um percurso absurdo, em zig-zag e com meias voltas e voltas inteiras, exercia um ritual afastando os males nocturnos.
Por fim paramos, junto de um poço que parecia retirado da época medieval, pela sua decoração serviçal à mãe natureza, Mangue encheu um balão, como os que os mágicos e os químicos usam, e estendeu-mo.
- Poção de vida.
Por detrás de nós surgiu um espécimen de esqueleto humano, mas com um crânio bastante maior, e apenas com três dedos em cada mão, que radiava luz azul-eléctrica.
Mangue puxou, de dentro do casaco branco, um punhal com o qual partiu o crânio do espécime.
Continuou a conversa onde tínhamos terminado como se nada tivesse ocorrido.
-Bebe a poção. O poço está cada vez mais esgotado, parou de criar…
De seguida pegou-me nas mãos, pediu-me que fechasse os olhos, e, circundados por anéis verdes fluorescentes, perdemo-nos na tontura de um tornado e, quando abrimos os olhos, estávamos na cabana.
Mangue abriu uma janela, ouviam-se gritos: “É a revolução das bolas de sabão!”, agora não só de um ditador, mas de uma multidão inteira.
-É relativamente frequente aparecer alguém vindo do teu universo na minha cabana.
Uns, são guiados pela força da curiosidade, e o universo cede-lhe esta satisfação, outros, estudam o espiritual e alcançam as diversas dimensões por mérito próprio, por vezes, as almas clarividentes que habitam os seus corpos querem desperta-los para as diferentes realidades, e eu só agora percebi a tua chegada.
Ansiava o final da frase, os pormenores enervam-me.
-Chegaste na precisa altura em que estamos prestes a desaparecer. Esta dimensão, do mundo das fadas, inspiradora dos artistas que contam histórias de fadas, tem como única barreira envolvente uma bola de sabão. Com o passar dos tempos a imensidão de artistas vai escasseando, as histórias de fadas ainda mais, e mesmo as que já existem vão sendo menos contadas e acreditadas pelas crianças. Esse acreditar, essa religião mágica, que vocês intitulam de imaginação, é que sustenta a bola de sabão. A bola de sabão está a rebentar, a poção de vida deste universo a esgotar…
-E qual é o meu papel no meio desta historia mirabolante? – perguntei intrigado.
- Tu és mais um daqueles que se esqueceu do que é ser criança, que deixou de sonhar, de acreditar em fadas… Mais um dos que está a contribuir para a ruptura da bola de sabão.
- E que poderia eu fazer para evitar tal?
- A tua mudança de atitude seria um grande exemplo para que o mundo voltasse a sonhar.
- Julgas que bastava chegar à minha dimensão, sonhar, contar a história da Cinderela a meia dúzia de crianças e toda esta fantasia voltaria a sorrir?
- Se quiseres salvar um universo que também te pertence, tu saberás como o fazer.
O peso de tanta responsabilidade fazia-me sentir importante, mas também intimidado.
Mais do que contos de fadas, conhecia histórias bíblicas, que contavam como o Grandioso criou o mundo em 7 dias, criou o Homem e a partir dele a mulher. O “como” era um mistério que universo nenhum esclarecera.
Agora eu, um homem comum, teria de fazer o papel de Deus, salvando um universo, um universo que julgara ser criado por nós mesmos e impossível de partilhar, e afinal, quantos já não visitaram esta utopia.
Pensei nos meus tempos de criança, como pude perder algo que me era tão querido, como brincar ao faz de conta, baloiçar para chegar ao país das maravilhas e sobretudo, o acreditar?
Por entre estes devaneios enchi-me de alegria, de entusiasmo pela inocência e genuinidade, senti o puro instinto humano e a magia aconteceu.
Anéis de fogo abraçaram-me e, num sopro, aterrei sentado numa cadeira, num programa televisivo em directo sobre a inovação da cidade.
- Nelson? Nelson?
- Sim?
- É a tua vez… apresenta o teu plano para o parque de baloiços.
- Parque? Aah, sim o parque…
Ainda estava estonteado como estas repentinas mudanças de realidade.
Ergui-me, afinei a voz e comecei o meu discurso ensaiado:
- Ora boa-tarde a todos, para começar. Como estão meus senhores?
- Prossiga.
- Como cidadão que sou, carrego comigo o dever cívico de saber e sentir à flor da pele o que é melhor para esta sociedade, e como arquitecto que sou, tenho o dever de o fazer bem! – fortes aplausos. – A sociedade precisa de progressão, a todos os níveis, essa ambição começa nas crianças, e não é em parques infantis que elas a vão ganhar!
Subitamente, olhei pela janela que estava mesmo à minha frente, era fim de tarde, o sol já se punha e recordei o quão sanguíneo é o pôr-do-sol no país das fadas.
A minha clarividência ganha no país mágico permitiu-me reparar numa fada, invisível para todos os outros. Era mais uma das que caíra pela ruptura da bola de sabão.
A fada delicada, com a sua saiinha colorida, andava desamparada pelas estradas, com todos a esbarrar nela, com a poluição a sufocá-la, sem flores onde de embrulhar e bailar.
- Prossiga!
- Não é nos parques infantis que as crianças vão ganhar ambição… - e a fada tropeçava – Mas as crianças não precisam de ambição.
- Desculpe?
- As crianças precisam de viver a sua fase de inocência, de se libertarem, de explorarem o mundo, de imaginar, de sonhar, de brincar… de brincar num parque de baloiços… e de fazer bolas de sabão! Faremos uma revolução de bolas de sabão! Salvaremos as fadas!
As crianças que assistiam ao programa correram para as bacias para misturar água e sabão, correram para as janelas, onde chocaram os sorrisos de umas e outras e em conjunto sopraram bolas de sabão.
- É a revolução das bolas de sabão! – Gritaram em coro.
Assim, as bolas de sabão recolheram as fadas, os duendes e todas as criaturas da floresta magica perdidas na nossa dimensão, e levaram-nas de volta para o seu mundo.
Cada vez que uma criança sopra uma bola de sabão, recebe de uma fada, um beijo doirado com um dom.
- É a revolução das bolas de sabão!
sábado, 10 de março de 2007
"Revolução das bolas de sabão"
parte II
Avivei-me de um sono fundo com a sensação de que dormira uma década. Espreguicei-me luxuriosamente, e, ainda de olhos fechados, reflecti acerca de um sonho mirabolante, típico de homem louco.
Devagarinho desuni as pálpebras e aí extasiei com o cenário.
Encontrava-me no interior de uma espécie de torre de madeira, composta por vários andares, que na verdade não eram pisos onde fosse possível existirem divisões. Cada andar tinha uma forma diferente, eu estava num largo círculo, o seguinte era um heptágono, o seguinte um hexágono, depois um pentágono, depois um losango, depois um triangulo e terminava também em numerosos círculos. Será que do lado de fora se parecia com um cone? Continuando, esses andares eram apenas corredores de escadas que circundavam a torre, não verdadeiros espaços! E, em cada andar havia apenas uma porta, mas não parecia haver espaço para lá das portas, isto, segundo a minha real noção de espaço, estética, arquitectura…
O rés-do-chão, apesar de ser amplo, tornava-se apertado por estar tão apinhado. Faziam parte da decoração antiguidades religiosas de diversas culturas, a maior estatueta era um Buda, velharias da moda feminina de diferentes épocas, utensílios pré-históricos, instrumentos musicais, telas de pintura, tinta e pincéis, fotografias de grandes filósofos, imensos baús cobertos com tapetes persas e numerosos livros. Parecia um canto de perdidos e achados.
Eu encontrava-me aconchegado numa cama que mais parecia um berço gigante, coberto com um véu amarelo-torrado.
Estava mais curioso que assustado, senti-me intrigado com esse facto, mas mais tarde teria tempo para reflectir acerca de tal. Deixei-me então guiar pela curiosidade e decidi explorar a zona.
Lancei-me para as escadas, e subi até ao losango, não continuei por estar demasiado zonzo. Aqui atrevi-me a abrir uma porta, tive de forçar a maçaneta que mais enferrujada não poderia estar. Depois de ouvir o “click” de porta aberta, que suou que nem um “abracadabra”, puxei-a lentamente alimentando o suspense que já me sufocava, pois do outro lado sentia uma forte pressão, como que um vendaval que impedia a abertura da porta.Não sei como descrever o que senti quando deparei com o compartimento do outro lado. Sei que senti o sangue a correr-me nas veias à velocidade da luz, um arrepio glacial percorreu-me a coluna e atingiu o cérebro vitoriosamente, o coração parecia querer castigar-me com tanto bater, fazendo com que sentisse electricidade nas pontas dos dedos, e por fim aterrei em paz.
Avivei-me de um sono fundo com a sensação de que dormira uma década. Espreguicei-me luxuriosamente, e, ainda de olhos fechados, reflecti acerca de um sonho mirabolante, típico de homem louco.
Devagarinho desuni as pálpebras e aí extasiei com o cenário.
Encontrava-me no interior de uma espécie de torre de madeira, composta por vários andares, que na verdade não eram pisos onde fosse possível existirem divisões. Cada andar tinha uma forma diferente, eu estava num largo círculo, o seguinte era um heptágono, o seguinte um hexágono, depois um pentágono, depois um losango, depois um triangulo e terminava também em numerosos círculos. Será que do lado de fora se parecia com um cone? Continuando, esses andares eram apenas corredores de escadas que circundavam a torre, não verdadeiros espaços! E, em cada andar havia apenas uma porta, mas não parecia haver espaço para lá das portas, isto, segundo a minha real noção de espaço, estética, arquitectura…
O rés-do-chão, apesar de ser amplo, tornava-se apertado por estar tão apinhado. Faziam parte da decoração antiguidades religiosas de diversas culturas, a maior estatueta era um Buda, velharias da moda feminina de diferentes épocas, utensílios pré-históricos, instrumentos musicais, telas de pintura, tinta e pincéis, fotografias de grandes filósofos, imensos baús cobertos com tapetes persas e numerosos livros. Parecia um canto de perdidos e achados.
Eu encontrava-me aconchegado numa cama que mais parecia um berço gigante, coberto com um véu amarelo-torrado.
Estava mais curioso que assustado, senti-me intrigado com esse facto, mas mais tarde teria tempo para reflectir acerca de tal. Deixei-me então guiar pela curiosidade e decidi explorar a zona.
Lancei-me para as escadas, e subi até ao losango, não continuei por estar demasiado zonzo. Aqui atrevi-me a abrir uma porta, tive de forçar a maçaneta que mais enferrujada não poderia estar. Depois de ouvir o “click” de porta aberta, que suou que nem um “abracadabra”, puxei-a lentamente alimentando o suspense que já me sufocava, pois do outro lado sentia uma forte pressão, como que um vendaval que impedia a abertura da porta.Não sei como descrever o que senti quando deparei com o compartimento do outro lado. Sei que senti o sangue a correr-me nas veias à velocidade da luz, um arrepio glacial percorreu-me a coluna e atingiu o cérebro vitoriosamente, o coração parecia querer castigar-me com tanto bater, fazendo com que sentisse electricidade nas pontas dos dedos, e por fim aterrei em paz.
"Revolução das bolas de sabão"

parte I
-É a revolução das bolas de sabão!
E sobre isto dissertava nobre e altivo sobre uma caixa de cartão.
Á medida que ritmava o discurso, estranhas criaturas aproximavam-se
Caminhavam de passo em calmo passo, pavoneando-se elegantemente, ao longo de extensos corredores que surgiam entre arbustos de cor magenta.
Ao fundo marchavam elefantes, desde um horizonte tão longínquo que pareciam tocar o pôr-do-sol de fogo.
As criaturas figuravam o corpo feminino, sob uma postura inata e serena, realçada pelo gestual característico. A pele manchada variava em tonalidades berrantes. Na face realçava o nariz de tão fino, os olhos, meramente luminosos, soltavam pozinhos ao pestanear. Os cabelos, levemente caídos sobre os ombros, pareciam banhados em ouro.
Algumas tinham chifres encaracolados, outras, longas caudas e outras, asas de libelinha. Intitulei-as de fadas.
Depois de uma demorada apreciação às criaturas, também o espaço despertou o meu interesse.
De tempo em tempo, ocorriam transformações mágicas, como o relvado florido tornar-se num manto de maçãs vermelhas, o horizonte natural distorcer para uma civilização moderna, o próprio espaço inverter o lugar do céu e da terra, uma verdadeira alienação.
E sobre isto dissertava nobre e altivo sobre uma caixa de cartão.
Á medida que ritmava o discurso, estranhas criaturas aproximavam-se
Caminhavam de passo em calmo passo, pavoneando-se elegantemente, ao longo de extensos corredores que surgiam entre arbustos de cor magenta.
Ao fundo marchavam elefantes, desde um horizonte tão longínquo que pareciam tocar o pôr-do-sol de fogo.
As criaturas figuravam o corpo feminino, sob uma postura inata e serena, realçada pelo gestual característico. A pele manchada variava em tonalidades berrantes. Na face realçava o nariz de tão fino, os olhos, meramente luminosos, soltavam pozinhos ao pestanear. Os cabelos, levemente caídos sobre os ombros, pareciam banhados em ouro.
Algumas tinham chifres encaracolados, outras, longas caudas e outras, asas de libelinha. Intitulei-as de fadas.
Depois de uma demorada apreciação às criaturas, também o espaço despertou o meu interesse.
De tempo em tempo, ocorriam transformações mágicas, como o relvado florido tornar-se num manto de maçãs vermelhas, o horizonte natural distorcer para uma civilização moderna, o próprio espaço inverter o lugar do céu e da terra, uma verdadeira alienação.
sexta-feira, 2 de março de 2007
À distância de um toque

Devaneando na minha luta ofegante soprava delírios como “vivo num mundo de sombras, onde as figuras que contemplo são apenas reflexos da realidade de toda a humanidade, e, as vozes não são mais que ecos longínquos, ecos da real melodia…”.
Procurava-me com uma desesperante fúria selvagem que só eu podia compreender.
Numa certa manhã, não muito cedo, já o sol raiava vaidoso, passeei-me pela cidade, uma cidade pacata com as suas tradições apetrechadas. Passeei-me pela praça principal, era hora alta do comércio e aquela zona tornava-se de feira.
No meio daquele mais movimentado que animado cenário feirante, fantasiei um romance.
Um romance em que, o típico mendigo português, sentado na calçada da rua rica soltava a criatividade nas cordas de uma viola.
Mas uma pequena diferença distinguia-o da maioria dos mendigos, este não estendia a boina nem mostrava a pena que sentia de si próprio. Tocava alegremente, apesar do ar fatigado e carente, tinha um sorriso aliciante.
No outro lado do passeio, onde calcariam os meus passos, marchava uma moça fina, “fina de nota” e fina de delicadeza, de classe, de sensibilidade.
Sentei-me no banco de jardim mais próximo, cruzei as pernas à maneira feminina, ergui o isqueiro à boca e suguei da boquilha. Amorteci-me um pouco mais.
A moça pousou no banco de jardim mais próximo, dobrou as pernas ao jeito de princesa, pousou as mãos níveas sobre as pernas e apertou-as com força uma contra a outra, causando uma ligeira dor aos dedos, inclinou ligeiramente a cabeça e assim permaneceu durante horas.
Sem ousar sequer um bocejar, magicava sobre que estaria pensando o pobre músico. Teria ele sentido o mesmo estremecer aquando se dera o cruzar dos olhares? O mesmo efeito de ferver da face envergonhada? O mesmo desequilibrar das pernas? A mesma aceleração do tambor da existência que salta e sufoca no peito?
Enfim… eu chamar-lhe ia paixão, mas quem sou eu para insultar os sentimentos das personagens mistério que me surgem na mente!
E ele tão perto, há distância de um toque… distância essa que se quebraria com uma abertura de diálogo ou um simples aceno.
E pensei eu, tentando abstrair-me de toda esta fantasia soturna e taciturna, que existem coisas que são mais belas quando imaginadas do que quando realizadas. Certos amores platónicos quando transpostos para o mundo físico poder-se-iam detiorar. A distância entre esses dois mundos é menor que um palmo, a distância entre a utopia platónica e o prazer corporal é menor que um palmo, a fantasia e a realidade vivem à distância de um toque uma da outra… como a genialidade da loucura.
Depois de um profundo suspiro, dei por mim a centrar os meus pensamentos em mim própria, afinal era esse o objecto buscado, o grande alvo a ser flechado, EU.
Estivera sempre ali, quando admirava os meus olhos, negros que nem duas azeitonas encaroçadas, frente a frente com o meu reflexo espelhado, à distância de um toque, um singelo toque, ou quando recostava levemente as pálpebras para partir para um profundo descanso, aí a alma se despegava do meu corpo e voava rumo ao seu mundo mais perfeito, o mundo dos sonhos para lá do mundo dos lençóis, uma dimensão que me estava à distância de um toque.
E que mais estará eternamente há distância de um toque?
O mundo da fantasia, do outro lado do espelho! Alice tomou a ousadia de o tocar e para lá se lançou.
O mundo do prazer e dos sonhos, ambos para lá dos lençóis.
A felicidade! Que por vezes está ao nosso alcance através de um diálogo produtivo, de uma actividade excêntrica, de uma nova experiência capaz de nos guiar para o caminho da auto realização.
Mas não. Não aceitamos a chave para todas estas portas.
Somos demasiado cegos quando olhamos o espelho, pois, não contemplamos as curvas do nosso corpo compreendendo que é realmente nosso, e que precisa de ser acarinhado, que é um elo de ligação entre dois mundos imparciais, que é a ele a quem devemos a curta distância de um toque para permanecermos vivos e completos.
Estamos demasiado acordados quando sonhamos, não deixando que a alma liberte os seus desejos.
Não ouvimos as vozes da sabedoria nem que nos gritem com um megafone.
E porquê?
Somente por medo (penso eu) por fobia, enfim. Por fobia de nos encontrarmos.
Não é como passear pela praça rica da cidade e chocar contra alguém que não víamos a muito tempo, alguém que vamos conhecer, não. Chocar contra nós próprios, ganhar a noção de que somos mais imperfeitos do que julgávamos e, de que as nossas verdadeiras virtudes estavam tão camufladas que nunca as reconheceríamos, nem que nos desmontássemos com as instruções de Deus “o construtor”.
E porque aquilo que nos sustenta é a energia da ânsia e esperança desse divino encontro!
Quando nos encontrarmos, que luta nos sustentará?
Alguns acreditam que, a auto realização do ser, vence a morte, abrindo mais uma porta… mas e aqueles que não são crentes?
Viverão sempre à distância de um toque de eles mesmos, da felicidade, do horizonte que temem descobrir…
Como uma “cabra cega”, o jogo em que buscamos por brincadeira, para passar o tempo, para estar ali ,enfim, sem realmente querermos encontrar algo, acertar no alvo.
A cabra cega à distância de um toque…
Procurava-me com uma desesperante fúria selvagem que só eu podia compreender.
Numa certa manhã, não muito cedo, já o sol raiava vaidoso, passeei-me pela cidade, uma cidade pacata com as suas tradições apetrechadas. Passeei-me pela praça principal, era hora alta do comércio e aquela zona tornava-se de feira.
No meio daquele mais movimentado que animado cenário feirante, fantasiei um romance.
Um romance em que, o típico mendigo português, sentado na calçada da rua rica soltava a criatividade nas cordas de uma viola.
Mas uma pequena diferença distinguia-o da maioria dos mendigos, este não estendia a boina nem mostrava a pena que sentia de si próprio. Tocava alegremente, apesar do ar fatigado e carente, tinha um sorriso aliciante.
No outro lado do passeio, onde calcariam os meus passos, marchava uma moça fina, “fina de nota” e fina de delicadeza, de classe, de sensibilidade.
Sentei-me no banco de jardim mais próximo, cruzei as pernas à maneira feminina, ergui o isqueiro à boca e suguei da boquilha. Amorteci-me um pouco mais.
A moça pousou no banco de jardim mais próximo, dobrou as pernas ao jeito de princesa, pousou as mãos níveas sobre as pernas e apertou-as com força uma contra a outra, causando uma ligeira dor aos dedos, inclinou ligeiramente a cabeça e assim permaneceu durante horas.
Sem ousar sequer um bocejar, magicava sobre que estaria pensando o pobre músico. Teria ele sentido o mesmo estremecer aquando se dera o cruzar dos olhares? O mesmo efeito de ferver da face envergonhada? O mesmo desequilibrar das pernas? A mesma aceleração do tambor da existência que salta e sufoca no peito?
Enfim… eu chamar-lhe ia paixão, mas quem sou eu para insultar os sentimentos das personagens mistério que me surgem na mente!
E ele tão perto, há distância de um toque… distância essa que se quebraria com uma abertura de diálogo ou um simples aceno.
E pensei eu, tentando abstrair-me de toda esta fantasia soturna e taciturna, que existem coisas que são mais belas quando imaginadas do que quando realizadas. Certos amores platónicos quando transpostos para o mundo físico poder-se-iam detiorar. A distância entre esses dois mundos é menor que um palmo, a distância entre a utopia platónica e o prazer corporal é menor que um palmo, a fantasia e a realidade vivem à distância de um toque uma da outra… como a genialidade da loucura.
Depois de um profundo suspiro, dei por mim a centrar os meus pensamentos em mim própria, afinal era esse o objecto buscado, o grande alvo a ser flechado, EU.
Estivera sempre ali, quando admirava os meus olhos, negros que nem duas azeitonas encaroçadas, frente a frente com o meu reflexo espelhado, à distância de um toque, um singelo toque, ou quando recostava levemente as pálpebras para partir para um profundo descanso, aí a alma se despegava do meu corpo e voava rumo ao seu mundo mais perfeito, o mundo dos sonhos para lá do mundo dos lençóis, uma dimensão que me estava à distância de um toque.
E que mais estará eternamente há distância de um toque?
O mundo da fantasia, do outro lado do espelho! Alice tomou a ousadia de o tocar e para lá se lançou.
O mundo do prazer e dos sonhos, ambos para lá dos lençóis.
A felicidade! Que por vezes está ao nosso alcance através de um diálogo produtivo, de uma actividade excêntrica, de uma nova experiência capaz de nos guiar para o caminho da auto realização.
Mas não. Não aceitamos a chave para todas estas portas.
Somos demasiado cegos quando olhamos o espelho, pois, não contemplamos as curvas do nosso corpo compreendendo que é realmente nosso, e que precisa de ser acarinhado, que é um elo de ligação entre dois mundos imparciais, que é a ele a quem devemos a curta distância de um toque para permanecermos vivos e completos.
Estamos demasiado acordados quando sonhamos, não deixando que a alma liberte os seus desejos.
Não ouvimos as vozes da sabedoria nem que nos gritem com um megafone.
E porquê?
Somente por medo (penso eu) por fobia, enfim. Por fobia de nos encontrarmos.
Não é como passear pela praça rica da cidade e chocar contra alguém que não víamos a muito tempo, alguém que vamos conhecer, não. Chocar contra nós próprios, ganhar a noção de que somos mais imperfeitos do que julgávamos e, de que as nossas verdadeiras virtudes estavam tão camufladas que nunca as reconheceríamos, nem que nos desmontássemos com as instruções de Deus “o construtor”.
E porque aquilo que nos sustenta é a energia da ânsia e esperança desse divino encontro!
Quando nos encontrarmos, que luta nos sustentará?
Alguns acreditam que, a auto realização do ser, vence a morte, abrindo mais uma porta… mas e aqueles que não são crentes?
Viverão sempre à distância de um toque de eles mesmos, da felicidade, do horizonte que temem descobrir…
Como uma “cabra cega”, o jogo em que buscamos por brincadeira, para passar o tempo, para estar ali ,enfim, sem realmente querermos encontrar algo, acertar no alvo.
A cabra cega à distância de um toque…
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