terça-feira, 22 de março de 2016

O teu beijo

















O impossível, 
sentir uma multidão de estrelas submergirem-me do corpo,
evaporarem-se como suor de luz de cada poro da pele que veste o meu corpo,
qual constelação arquitectada intuitivamente... 
-Como uma melodia assobiada por um surdo...
As estrelas esticam os seus braços de fogo, 
braços que se estendem como na entrega de um abraço total, 
Raios eléctricos, 
multicoloridos como luminescentes asas de borboleta, 
e as suas cores confundem-se, difundem-se 
-Como um arco-íris de fogo que irradia os céus de todos endeusado numa espécie de fé comum
E as borboletas cósmicas transfiguram suas asas luminescentes 
para pétalas de flores-relâmpago,
 amores-perfeitos tão frágeis e vivos de onde germinam crianças...
O real acto de transformação é em silenciosa fotossíntese das almas.
O impossível, 
semicerrar os olhos como quem beija,
enternecer-me, comover-me, encolhida e abraçada pelos meus próprios braços,
impressionada com a implosão que gera impulso e morre em si mesma logo de seguida instantaneamente,
Acolho a loucura (na alma) como quem acolhe um animal abandonado (em casa)
É incrível como o impossível cresce sem semente nem raíz que o sustente
e cria a ostentação de uma SuperNova!
Flutuo, danço, liberto-me, espontânea, genuína e amante
da vertigem da beira do abismo.
O meu corpo vacila entre os beijos de luz 
irradiados pelo incêndio da SuperNova
Evocando a dança interior de uma índia
Índia, caçadora, céptica,
que em segredo, silencioso ritual
beija os Deuses dos Oceanos, dos Horizontes, no Núcleo das Chamas...
Da Essência da Cor ou
dos intervalos mudos, os segundos de Silêncio na Canção.
E na entrega total à dança apocalíptica 
Coso casulos de fios de seda protectores para as borboletas
Preparo vasos de terra fértil para os amores-perfeitos
E entretanto
A luz que entrou pela minha boca adentro evocando o eco do impossível
O eco de tempestades cardíacas e respirações ciclónicas,
Altera a sua rota,
Dança transcendental,
Viaja como uma estrela cadente
destinada a concretizar desejos carregados de fé.
Vagarosamente as pálpebras dos olhos embevecidos
 abrem-se como janelas até ao reluzir do sol da íris fulminante
-Não sou mais fotossensível.
E eu caio no abismo do espaço galáctico nulo, 
com o corpo nu sujo de terra
a pele queimada pelos fogos estrelares
as pontas dos dedos mordidas pelas agulhas com que tecelei os casulos
e sem horizontes a desejar.
Num aquário-sarcófago que bóia eternamente no cosmos
Mumifico a minha palavra «amo-te».

4 comentários:

Filipe Campos Melo disse...

A descoberta de uma escrita é sempre surpreendente
Este poema, tão denso, tão belo, tão profundo, é seguramente uma forte certeza de qualidade
- “O impossível, sentir uma multidão de estrelas submergirem-me do corpo”.

Não são só as imagens, tantas vezes arrebatadoras - “as borboletas cósmicas transfiguram suas asas luminescentes para pétalas de flores-relâmpago” -
Não é só o que se diz - “É incrível como o impossível cresce sem semente nem raíz que o sustente” -
Nem é só a forma como se diz - “o real acto de transformação é em silenciosa fotossíntese das almas”,
(E tanto bastaria para me quedar perante a impressividade do poema)

É a força que atravessa o verso e nos detém irreversivelmente
Como se o poema fosse a luz, “a luz que entrou pela minha boca adentro evocando o eco do impossível, O eco de tempestades cardíacas e respirações ciclónicas”,
que nos move como uma “ implosão que gera impulso e morre em si mesma logo de seguida instantaneamente” e nos transforma definitivamente

E, então, também nós caímos “no abismo do espaço galáctico nulo, com o corpo nu sujo de terra e a pele queimada pelos fogos estrelares”

Excelente

Unknown disse...

Agradeço muito o tempo que dispensou a ler e desmistificar o meu singelo poema. Passarei no seu blog, recomenda-me algum texto em particular? Uma boa noite.

Unknown disse...

...é mt gratificante saber que transmiti algum poder catártico com as minhas palavras, na verdade não me recordo de alguma vez me terem lisonjeado dessa forma. Se me poder recomendar algum autor agradeço também... :)

carlos gonzaga disse...

Ui ui ui nao conhecia este teu lado....
Mas parabéns fiquei surpreendido...