
Enquanto observo os meus próprios olhos defronte de um espelho, enquanto percorro a musculatura tensa, o esqueleto do rosto, entendo-me bela. Não detecto nem julgo feiura alguma, não me condeno perante as cavidades arroxeadas por baixo dos olhos causadas pelo esgotamento ou diante da testa carregada e entorpecida de resignação, diante das sobrancelhas retorcidas, dos lábios comprimidos e endurecidos, pela resistência à dor.
Encaro o espelho apavorada, por entender assim a minha aparência: bela. Seria natural sentir tamanha monstruosidade apoderar-se de mim por dentro e igualmente por fora. Seria coerente. Mas não. Sei-me bela na pele e monstro no interior. E isto é por si só o absoluto controverso. A dissociação.
Dou por mim num estado claustrofóbico na esplanada de um café, a matutar: será que mesmo sendo bela por fora, os outros vêem a minha monstruosidade interior? Depois levo as mãos à cara apertando-a, hesitando à tentação de a desfazer batendo-lhe. Apetece-me bater-lhe. Bater-me.
Sento-me na última mesa do café, a do canto ao fundo, afunilo a cabeça entre os ombros, à procura de conforto na gola da gabardine embebida em chuva, contorço os dedos dos pés, à procura de conforto roçando as unhas nérveas no forro interior do sapato pregado à cadeira.
Tento disfarçar, inclinando o pescoço num vaivém de aceno alternando sins e nãos de conveniência, simulando o acompanhamento do palavreado ordenado a que me sujeito a ouvir ou fingir. Uns sins e uns nãos com sintomas afásicos, pois são somente recusas à ambiguidade do talvez, que suscitará curiosidade pelas minhas justificações perante os outros.
Ao abrir a boca vou ouvir uma voz com uma gravidade atonal com que não me familiarizo. Sobressaltada com o passageiro estrangeiro, resguardo os ouvidos na humidade da gabardine e do cabelos ásperos e desordenados. Não me quero ouvir. NÃO ME QUERO OUVIR. Ouvidos surdos, obedeçam-me. Acontece-me, por vezes, persistindo numa visão sem foco e debitando automaticamente os insultos inconscientes, anulo o sentido auditivo. Ou pelo menos não associo o entrecruzar de timbres humanos a uma conversa que se conjugue no meu seio. Contudo temo a consequências da sequência de barbaridades expelidas. Um deslize, em que o meu inconsciente denuncia as suas severas exactidões em relação aos outros. Estalo a língua desagradada pela dissonância de interesses. Aumento o volume da voz mesmo no final da frase, corrompendo a sua melancolia com uma firmeza inesperada, afinal, preciso de ouvir o que disse para me puder justificar. Penso: o que vão pensar os outros acerca disto? As interjeições abruptas: sim, não, sim, não. Dissertações inconvencionais e sensivelmente insanes. A voz colocada de forma masculinizada que utilizo quando me neutralizo. Todo este perfil irrazoável de quem tenta ser um qualquer, um passageiro estrangeiro, indiferente. Penso: o que vão pensar os outros acerca disto?
(...)
"People are strange, when you're a stranger, faces look ugly, when you're alone..."

Um comentário:
Maioritariamente, olho a volta surpreendido pela falta de surpresas. Tudo é banal e descorre com a maior naturalidade, e passo a passo, o mundo caminha para onde vai, absorto na sua propria existencia. Absorto no querer viver para os outros que sao a nossa existencia, pura e simplesmente. Os outros são a nossa existencia, pura e simplesmente. Este texto é uma surpresa boa, uma variação da inércia generalizada. Nexte texto vives á flor da pele e tremes de frio com o frio absolutista das personalidades, e tens a febre das paixões que te assistem, e fungas o nariz no incomodo da impaciencia e és doente de não seres doente como a maioria o é.
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