Disperso em fragmentos insólitos... a minha presença é reflexo da minha existência absoluta. Estou no fundo de mim, muito aquém à deriva, nestes mares poluídos de multidões de muitos de mim. Desmultiplicar-me? Mas seria tão saturantemente estático. A monotonia da imobilidade quotidiana, encontro casual com o qualquer no reflexo da vitrine da montra... Já só... Só sou eu agora, acercado de fantasmas de mim, fantasmas apenas, que nenhum de mim é térreo e palpável. Que nenhum de mim é meu, nenhum é marionete pêndulo nos meus dedos, apesar de que a minha invulgaridade derive deste acaso. Dentro da casa de dentro de mim mesmo, não existe espaço para tantos de mim, e o eu-comum ou vulgar, aquele que habita em todos os lugares interiores, na humidade de cada esquina do tecto atravessado, acaba por não ser menos que um anexo, uma marquise, que aloja um sem-abrigo: a minha decadência. O meu único entretenimento intelectual sensual. Esfomeado e arrefecido, esfrega fósforo por fósforo contra uma caixa húmida, leva forçosamente os depreciativos olhares vizinhos ao seu encontro mas os rostos estão já tão gastos... se antes não se prescrutaram, porque o farão agora? É tarde de mais. A lenha esquecida no fim do Inverno que passou, já não chega ao próximo Outono. Não existirá Outono. Seremos sempre vizinhos, conhecidos pelo bom-dia habitual a par do levantar da bóina de fazenda axadrezada na chuva riscada. A alma da lareira nos olhares vizinhos... esse cio incandescente.

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