segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Carta Nunca Enviada

Perdi o direito a ter limites.
Perdi o direito à intimidade.
À privacidade.
Perdi o direito de ser ouvida.
De gritar por socorro.
De chorar. Porque se começar não vou parar.
Se sou insistente: o problema é que perdi a calma. Estou fora de controlo. A solução é o anti-depressivo. Sou instável. Melhor será sedá-la.
Se sou paciente, o problema é que grande parte da dor só pode ser psicológica, porque se estivesse lastimosa, já alguma catástrofe teria irrompido.
Mas a catástrofe é mais interna, não é como uma penosa perna partida.
Se não sei o que tenho eles também não vão saber, não o vão sentir por mim. Se sei do que sofro então de nada sofro: Leio demais. Vejo televisão demais.
O pior inimigo de todos os possíveis: não aquele que nos mata, não aquele que nos proibe a salvação, mas aquele que faz com que recusemos a salvação, mesmo nas nossas mãos. Porque se pegar no medicamento e de repente um médico sofrer uma epifania, e eu já medicada, então o diagnóstico será negativo.
Perdi o direito ao acesso a mim própria.
De tomar decisões por mim própria. Mas também ninguém oferece nada em troca. Tiram-me tudo, e até a modéstia me recusam.
Experimentei a modestia. Experimentei a arrogância. Experimentei suplicar, exigir. Ser sincera. Manipular. Experimentei a lei da força da insistência. Experimentei o regime da inesgotável paciência. Experimentei correr para postos familiares. Para postos novos. Experimentei queixar-me de tudo. Não me queixar. Experimentei recorrer a sítios onde sou bem recebida. Sítios onde me renegam consecutivamente. Será possível que a solução seja sofrer e salvar-me em silêncio? Experimentei reclamar, condenar. Já senti que deveria esperar por uma justiça tardia e bem sucedida. Um pedido de desculpas cara a cara, um voto em tribunal. Já senti que deveria tentar o confronto frontal, disparar brutalmente contra tudo e contra todos. Uma vingança clandestina. Já senti que não queria justiça nenhuma, vingança nenhuma, que só queria aceder a mim fosse por que via fosse. Senti o auge do sofrimento, entregue a mim mesma, e o auge da felicidade, entregue a mim mesma. Senti o auge do sofrimento, entregue a outros, nunca senti o auge da felicidade, entregue a outros. Alguém me diz qual é a f´órmula aplicável à vida real resultante na verdade e no êxito? Não. Ninguém me diz nada. Prostestam contra mim. Sem mim não protestam. Sem mim, esquecem-se de mim. Que se esqueçam de mim, do doloroso só meu, mas que não se esqueçam de mim.
Acordo paralisada, incapaz de reagir. Tenho alucinações auditivas durante a letargia. Pormenorizadamente. Ouço tudo realmente. Baterem à porta do meu quarto, rodarem a maçaneta mal oleada, o trinco estala, a porta guincha, para cá, volta a guinchar, para lá, o trinco estala novamente, com mais força desta vez, os passos caminham até perto da minha cama, silêncio dos passos, larga a mochila no chão, a alça áspera roça no ombro da camisola de lã, escorrega pelo corpo, cai no chão, levemente, o chão é de madeira, ouço um ‘’baque’’, senta-se na minha cama, as molas agridem-me os ouvidos, o colchão estremece, e o meu corpo reage trémulamente, embalado no abanão, pousa-me uma mão sobre o ombro, levemente, agita-me, chama por mim, ouço-o como a um som de fundo, longe, semi-ecoado, aquelas palavras repentem-se na minha cabeça, naquela voz, começa a conversar comigo. ”Será que isto é mesmo real? Ontem não era. Mas ontem também não era tão real. Ontem... era mais um sonho que se emaranhava na realidade, e à hora de almoço já não sabia bem o que tinha acontecido com as pessoas à minha volta. Se tinham ido à farmácia ou não. Se se tinham chateado com o farmacêutico ou não. Depois descubri que não, que não foram a farmácia alguma. Mas pelo menos, ontem, estas pessoas estavam lá. Hoje não. Ele não estava cá. Como os sonhos emaranhados na realidade aconteceram algumas vezes durante esta semana, já conhecia o truque para finalmente ser capaz de reagir. Gritar. Não sei porque mas a minha voz estabelecia a ligação entre os dois mundos, e entre o meu corpo e a minha mente, gritei. Não, ele não estava cá, nuuunca estivera cá.
Voltaram as dores de cabeça. Sinto-me comprimida sobre o pescoço. Dia para dia a pressão aumenta, e trepa-me pela nuca acima. Mas hoje não. OH, não. Não percebo NADA de NADA do que eles estão para ali a conversar. O quê? Podes repetir? Desculpa, não percebi, podes falar mais devagar? AAH, hmm, se concordo? Aaaah, não sei. Não, não tenho nada a dizer. Não tenho ideia nenhuma. Mas o que é que queres dizer com, ‘’recíproco’’? Uso. Sim, uso. Não tenho lido muito... a palavra é-me familiar, mas não estou recordada concisamente do seu significado... Bem, é para estes momentos que ando com um dicionário de sinónimos atrás. Porque raio preciso de um dicionário de bolso para conversar na minha própria língua? EU? Eu, leitora assídua, eu, escritora pontual. Pensando bem, nos últimos anos fui deixando de escrever. É que não me ocorria nada. E nos últimos meses fui deixando de ler. Lembro-me de ler três livros num dia, agora demoro três semanas a ler um. Desmotivei-me. Pensei, sei lá, que estava enfurrejada (enferrujada, digo), e o facto de me sentir meio disléxica... Mas agora não. Agora não sou disléxica. Agora sou completamente afásica. Passo horas sem pronunciar uma palavra. EU? A CONVERSADORA COMPULSIVA? Tenho a linguagem completamente atrofiada. Mas não é só a linguagem, também não crio pensamentos. Quando me sinto melhor, crio pensamentos, lentamente, não numa linha continua e com multi-aberturas, mas penso vá, com fragmentos de ideias dispersas a flutuar no vácuo. Mas mesmo assim, tenho sempre a impressão de que só relembro pensamentos já anteriormente concluídos, e uso sempre frases redundantes, não desenvolvo para além do essencial, e muitas vezes nem chego ao essencial, esqueço-me na introdução. Conversar às vezes funciona, para acelerar, desencravar o vocabulário, outras vezes, fico só com dores de cabeça, sobre os ouvidos, é nestes momentos que fico agarrada a cabeça, com uma mão de cada lado, a repetir ‘’o quê? O QUÊ?”, com um ar sofrido. Não, não estou surda. Não, não me doem os ouvidos. Só não percebi NADA do que disseste no meio desse askdjsiudfheiufhe, e... és tu que estás a falar vagarosamente? Tããão vagarosamente que nem me dás oportunidade de relacionar os factos?, ou sou eu que estou a decifrar sílaba por sílaba e perco o raciocínio? Estás para aí no outro lado do nevoeiro. Ajuda-me! Espera, vou só fumar um cigarro. Eu sei que já fumei ainda agora, mas preciso de outro. Eu sei que é mais barato, mas não consigo enrolar, tem de ser destes. Olha, e se fossemos beber um copo a qualquer lado? Estou muito parada. Olha, esquece, leva-me a casa, estou cheia de dores de cabeça. Não, o ben-u-ron não faz nada. São aquelas dores sobre a nuca, pontadas agudas muito localizadas que se vão alastrando, está bem, está bem, eu tomo. Tomei. Uma hora depois continuava com dores de cabeça e tinha de me manter sentada com a cabeça deitada para trás e fixar um ponto, senão entrava num looping atormentador, como se estivesse no meio de um tornado. Consegui adormecer, o looping acordou-me. Vou levantar-me. Não consigo. Não consigo equilibrar-me, só se caminhar de braços abertos. Vou parar. Dormir outra vez. Acordo. Estou acordada. Toalha amarela. Televisão. Comando. Outro comando. Dvd. Hm, quarto. O meu quarto, a minha cama. Estou acordada. Então porque é que sinto que ainda estou a sonhar? Cabeça desfeita. E vazia. Viro-me para o outro lado e continuo a dormir. Acordo. Cérebro desfeito. PRECISO, de reagir, com ou sem sanidade. Rotina. O que é isto? Não consigo, não consigo parar de chorar. Não estou a pensar em nada que me deprima. Nem sequer consigo pensar! Não estou a marterizar-me por isso, estou a tentar seguir o ritual para me organizar minimamente, do exterior para o interior. Porque é que não consigo parár de chorar! As lágrimas correm-me pela cara compulsivamente. Estou a começar a guinchar. Preciso de um cigarro. A minha garganta guincha sozinha. Contrai e descontrai sucessivamente e sopra um sopro fininho e agudo. O meu crânio treme de baixo para cima irrequietamente, comprime-se. OOH, não. Isto não. Agulhadas. Sou uma máquina de tricotar. Agora uma frigideira a borbulhar. Ansiedade. Controlar de fora para dentro. Respiração. A minha língua contrai-se. Uma cãimbra na língua. Agora dói por baixo do queixo. Agora no maxilar. Aperta. A dor passa para o osso da cara, entre o olho e o maxilar, a bochecha. Uma dor aguda que me distrai do maxilar. Apalpo. Estico os dedos para o nariz. Sinto pressão no osso do nariz. Que se estende para sobre as sombrancelhas. O maxilar estala muito alto. Agora reproduz um som como se o osso estivesse a esmigalhar-se. Fumo. Fumo. Agora está anestesiado. Solto. Não consigo colocar-lhe a pressão certa. Agora estou a flutuar. Sinto um laço à volta da cabeça, um anel que me comprime, parece que tenho um chapéu. É melhor pôr um chapéu para me esquecer disto. De repente, sinto que tenho uma cabeça de gigante. Estou a flutuar. Acabei o cigarro. Os meus olhos desinflamaram. Mas continuam a arder. Tenho de me levantar. Não posso ficar à beira da janela a fumar cigarro atrás de cigarro enquanto a rotina perde o sentido. Levanto-me. Não me levanto. Atiro-me de joelhos para o chão. É mais fácil assim. Tenho as pernas presas. Muito presas. Os joelhos não desdobram. As pernas pesam chumbo. E tenho dores em pontos muito localizados, sinto sobretudo pressão, como se os nervos fossem repuxados. Ergui-me. Sinto os joelhos comprimidos. Não se desdobram. Chego perto do guarda-vestidos, olho para o espelho. Hesito. Não quero assustar-me, rever-me num rosto que não me é familiar. Arrisco. Continuam umas raizezinhas vermelhas a salientar-se nas órbitas. Hmm... hoje não estava tudo branco quando abri os olhos, a luz da televisão nem se estendeu até mim fragmentadamente. M*rda. Porque é que não fico cega de uma vez, ou paralisada da cintura para baixo, para de me fazerem o raio do TAC? E se for agora para o hospital? Chamo uma ambulância, explico o sucedido... Não. Estou deprimida. Vão dizer-me que estou a somatizar e receitam-me outra vez o raio do cypralex que me provoca alucinações. Não são bem alucinações. Não posso fechar os olhos que sou perseguida por imagens de desenhos animados com formas muito básicas e muito coloridos que se esticam e encolhem muuuito rapidamente, enquanto guincham uma lengalenga de vocábulos agonizantemente ensurdecedores, sorriem, sorriem, a boca sorridente aproxima-se até atingir o grande plano, e afinal são meninos e meninas maléficos com dentes de fera, sorrisos diabólicos. Ou então... Fico trancada, pequenina, vestida com um capuchinho vermelho, atrás de uma janela azulada com um círculo negro no meio, aproximo-me do cristal azul, descubro que é um olho gigante, gigaaaaante, e que tenho as mãos curiosas colocadas na retina. Desisto. Viro-me de costas para o olho. Olho para dentro. Parece uma fábrica. Não. Parece o mecanismo interno de um relógio. Com dezenas de peças muito recortadas, com recortes de diferente encaixe, de diferente tamanho, todas a circularem a ritmos distintos. Mas isto não interessa nada. Porque não iria falar de nada disso numa consulta de urgência. Enviavam-me logo para a secção da psiquiatria, e o meu principal problema não é psiquiátrico. Porque é que não me ouvem quando garanto que se estendem redes mentais a minha volta, que deixo de reduzir a minha existência ao meu corpo e à mesa à sua frente, que as minhas pernas ganham rodas, que as minhas infecções urinárias e vaginais desaparecem, que o meu pescoço descontrai imediatamente, que a dor de cabeça se varre por inteiro e que a depressão se transforma numa tranquilidade que já não me recordo de ser capaz de sentir... quando tomo desparasitante? E siiiim, o meu quisto insignificante alojado no pescoço à tantos anos, reduziu-se para metade do tamanho! A sério! Posso viver com um peso depressivo a vida toda, com as pernas paralisadas, numa cegueira total, fintar as dores e fingir que as alucinações não existem, mas sem pensar e sem falar, NÃO.
A minha mãe entra no quarto. Enquanto discorria a linha de pensamento obsessivamente, arrumava freneticamente tudo o que estava farto de ser arrumado no quarto, mas é que se alguma coisa ficar colocada 3 milimetros fora do sítio a minha única realidade acessivel desmorona-se. Uma vez que já só tenho o meu quarto. Porque as minhas relações pessoais foram sabotadas pelos comentários ofensivos de quem me julga hipocondríaca. Porque sou incapaz de trabalhar ou de estudar. Porque a minha família me deixa a apodrecer no quarto porque não têm dinheiro para eu ter uma consulta de neurologia, porque, pronto, ainda esta semana pagaram a carta ao meu irmão. Como ia a dizer, a minha mãe entra no meu quarto e deixa-me uma carta com as últimas análises com a eosinofilia negativa, o que me descarta da medicina interna. E eu quero lá saber de uma análise negativa. Uma vez que o primeiro exame parasitológico que fiz teve resultado negativo, e o segundo também, mas o terceiro não, e eu já estava (auto-)medicada, só tinha trocado de laboratório - sim, fiz uma análise parasitológica, descubri o meu graaande problema pelo por acaso de ter sido atingida por uma parasitóse sistémica, que toda a gente dizia ser imaginação minha, porque afinal, até os exames resultavam em negativo, e como os médicos me diziam: “atingiu-te os pulmões? Saem-te parasitas pelo nariz? Olha, tens ido à psiquiatria?”, não, não tenho, mas não posso fazer um raio-x ao tórax, uma vez que me sinto tão asfixiada e comprimida em dois pontos tão localizados que desmaio? E passo 40 minutos desactivada?...
Além de que é incrível como estou a anos a ouvir que o meu coração está óptimo, cada vez que vou a urgência com uma pulsação de 120, depois enfiam-me valium pela boca adentro, cujo efeito dura aproximadamente 5 minutos, depois enfiam-me hinderal, cujo efeito dura igual tempo. E mandam-me para casa, porque não podem fazer nada por mim, e porque aquele deve ser o meu ritmo normal, e lá vou eu dormir mais uma noite com um aceleração de 55 batidas acima da minha, e passo a noite a acordar com as mãos dormentes, durmo por intervalos... vivo sonhos descontínuos, mais intensos que a realidade.
FINALMENTE, fiz um ecocardiograma, e de facto, encontrou-se uma deformação cardíaca que provoca ritmos anormais, o que é suposto ser um sintoma do tal problema que estou FARTA de dizer que tenho.
E sim, auto-medico-me e o meu ritmo abranda incrivelmente, e dia para dia volta à sua normalidade, à normalidade que corresponde ao meu nível de tranquilidade e de cansaço.
O regresso exige a renegeneração dos direitos que me elevam a Pessoa. O regresso parece uma promessa inconcretizável. E eu não sei quem culpar, porque nem sei delimitar o ponto da minha negligência e dever do outro. São as deambulações acerca da culpa e do regresso o meu único entretenimento intelectual sensual.

2 comentários:

francisco lopes disse...

oi, ana. bom, ao ler este texto lembrei me imediatamente das pessoas indigo, ou Azuis. Geralmente sao caracterizadas por terem particularidades especiais dentre os comuns mortais. por exemp: Serem bons matemáticos, ou musicos, etc.
Mas a caracteristica principal destas pessoas idigo é serem mais sensitivas que o normalmente aceite. È frequente terem deja vus, bem como a intuição desenvolvida. Um pouco como a inteligencia emocional, como referiste. Não sei porque te disse isto, apeteceu me. Escreves muito bem. Já agora dá uma vista ao meu blog. Queria compartilhá-lo, afinal. Não é todos os dias que se compartilha uma coisa tão pessoal Não ligues as "gaffes". Afinal pior que um "mau" blog, é mesmo um blog mal escrito. Espero que dentro da tua situação encontres o que queres, e o que te faça mais feliz. Fica bem, e quando quizeres tomamos um café.
Um beijo Francisco

francisco lopes disse...

Olá,Ana, que é feito de ti? gostava de estar contigo um dia destes... tomar um café, dar uma volta, conhecer um lugar diferente, afinal não podemos estar sempre com as mesmas pessoas.quando o miguel telefonou quase não falei nada contigo.e esqueci me de pedir o teu contacto. o meu: 966535354 fica o convite.manda noticias.
um beijo,

Francisco