sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O Castigo













-Estou, sim...?, boa-tarde... (hesitante) Ainda se lembra da Victória?, a filha da... Sim. Essa Victória. Estou a telefonar-lhe do consultório do meu médico de família... Exactamente. Esse mesmo. Ele aconselhou-me a contactá-lo porque... bem, porque... Sim... (hesitante) Concordo. Caso contrário não... Hmm... Seria mais fácil responder à questão invertida, o que é que não aconteceu. O que é que não aconteceu?! Bem... não me matei. Decididamente, não me matei. E não me quero matar. É por isso que preciso da sua ajuda. Porque não me quero matar.

No interior do edifício do consultório do Dr. escuta-se a marcha indecisa de Victória que, ora incisiva ora deambulante, se determina por um dos corredores secundários do edifício. Victória era a última utente naquele fim-de-tarde. O Dr. quando chamara pelo seu penúltimo utente aproveitara para penetrar na sala de espera e estender uma mão assertiva a Victória, o que aguçara o seu nervosismo.


“O que é que ele pensará de mim? Desapareço durante um ano e agora irrompo com um telefonema desesperado? Obsessivo-compulsiva. Obviamente. Ah. Não. Que ele não é daqueles que têm a mania de catalogar as pessoas como se fossem objectos de prateleira. Aliás, nunca saí do seu consultório com um papeleco rabiscado com nomes de venenos...”

– Então até à próxima, meu caro...
– Obrigado Dr., muitíssimo obrigado.
– ...E não se esqueça de se dirigir à minha secretária, para nova marcação...

Nisto, um andar frenético emparelhado a muitos retrocessos de marcha, marca presença nítida no silêncio. Por instantes, Victória esqueceu por completo o cheiro a éter que imunda os hospitais, e deixou-se embalar por aquela marcha tão característica, intersectada pelo teclado de computador desigualmente frenético da secretária. O telefone toca. Somente por um milissegundo. A secretária tacteia o rato do computador similarmente ao atendimento do telefone.

“Lá que os funcionários públicos são capazes de ganhar mestria no meio do tédio, disso, já não duvido”, pensa Victória para si mesma em tom prejurativo.


-Ok, Dr.

Constata prontamente a secretária mantendo uma expressão profissional - a expressão ausente de quem está compenetrado numa ocupação intelectual. Nisto, inclina-se sobre a escrivaninha estendendo atrás um pé calçado com um sapato preto clássico, ao pendurar os dedos na extremidade da escrivaninha, ouvem-se as pérolas arredondadas da pulseira trauctearem na madeira.

– Sr. Levant? Sr. Levant?, a sua marcação... 9 de Setembro, às 15 horas, está bem para si?

O Sr. Levant remexeu nas algibeiras agitadamente.

- Olhe, fazemos assim, leva este cartãozinho, quando chegar ao carro da sua esposa entrega-lho, se houver alguma objecção, ela que telefone.
–Obrigado senhora, muitíssimo obrigado.
- O Dr. pede que da próxima vez a sua esposa o acompanhe...

Até aqui, Victória ainda não tivera oportunidade de percepcionar a barriga grávidíssima da secretária. Victória que já desistira de todas as revistas de carácter científico ao dispor, que já atirára para o caixote dos papéis um masso de tabaco amarrotado, que já condenára todos os cartazes sobre terapia familiar, doação de sangue e grupos de alcoólicos anónimos expostos nas paredes, que já bloqueára e desbloqueára o teclado do seu telemóvel numa repetição hipnótica... começava a colocar em questão o sentido da sua deslocação até ali, a iniciativa do seu telefonema, a dignidade... Olhou a secretária com um indisfarçável ar de desespero. Uma mão sobre a testa, as sombrancelhas retorcidas.

- O Dr. vai já chamá-la. – disse a secretária com um sorriso apaziguador.

Não poderia nunca supor que o indisfarçável ar de desespero fosse um indício de cobardia suada , e não de uma expectativa optimista.

- Victória... – Chamou o Dr., de bata branca desabotoada, que se encontrava no princípio do corredor secundário, na esquina onde se localizava o seu consultório, consultando um dossier de capa grossa “o meu cadástro da loucura”, pensou Victória, “todo o meu sofrimento é reduzido a uma minória de folhas de papel”, não olhou para Victória, virando-se imediatamente para dentro após nomear o seu nome.

Victória levantou-se num impulso nervoso, dirigiu-se até à esquina como que hipnotisada, entrou no consultório de cabeça baixa, comandada pelos passos silenciosos, e fechou a porta também silenciosamente.Ela própria comparou a sua figura à de uma criança que dirige aos pais na expectativa do castigo.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A Paixão pela Verdade



















É o lugar onde me dói mentir.
O único lugar onde sou inevitavelmente sincera.
Consciência de traição.
Acredito em poucas coisas, acredito na essência do teatro e na essência da amizade. Em resumo, acredito que, só nestes lugares interiores, é possível nascer a generosidade genuína. Só nestes lugares interiores, abdicamos de nós próprios, para que o outro seja maior.
Só a paixão impulsiona o desejo de ser inteiro. Só na casa da paixão sentimos a ira da traição no acto de mentir. O ser múltiplo. O ser uma multiplicidade de fracções. O ser dissociado. Desinteiro. Desintegrado. Em vez de íntegro. Só no rumo da paixão questionamos a integridade das nossas passadas desnudadas. Aniquilando receios determinadamente.
Questionamos a integridade das passadas desnudadas, que calcam a calçada interior, o esqueleto abstracto. O núcleo. O núcleo irascível na luz da mentira. Desolador no olhar do espectador.
O espectador crédulo no incrível actor. Sem lugar de dúvida. A débil e vertiginosa verdade da personagem que sem cobardia se enraíza na espiritualidade, volvendo-se em semente do real. Em realidade.
Nunca um olhar fosco desacreditado em tanto fingimento. Nunca mentir a uma plateia vermelha cheia de gente.
Mentir a uma multidão. O actor responsabiliza-se pelo espectador. Pela realidade que acompanhar a cadeira viajante. E pela viagem seguinte. Porta fora. Não merecemos a dúvida. Não merecemos que duvidem de nós. Não merecemos que duvidem daquilo em que acreditamos. Daquilo que sentimos. Que abdicamos de nós. Para que eles sejam maiores. Eles não merecem que existam frechas no cimento da personagem por onde entre a luz da dúvida. Nós não merecemos viver no trago amargo, que é ser raíz dúbia para eles. Para a multidão. Para cada príncipe.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O Lugar dos Condenados

(Isto lembra-me ‘’As pessoas sensíveis” de Sophia de Mello Breyner.)

As pessoas não mudam. As pessoas não mudam por serem informadas. Por imagens na televisão. Por palavras no jornal. Não. As pessoas não mudam por palavras. Por discussões. Por canções. Não mudam pela música. Não mudam pela arte. Não mudam. Pelo sofrimento. No mundo. Mudam. Pelo sofrimento. Inteiro. Próprio. Pela dor cá dentro. Nunca pela dor lá fora.
Estou farta de pessoas simpáticas.
Quem é que consegue ser simpático quando carrega o peso de um mundo de sofrimento?
Estou farta de pessoas simpáticas. Pessoas que não sofrem.
As pessoas prestáveis são-no por serem capazes de sofrer. Pelos outros. Porque sofrem. Ou já já sofreram. Conseguem sentir compaixão. Comiseração.
A comiseração é a paixão das pessoas prestáveis.
A comoção é a paixão das pessoas simpáticas.
Digo, imprestáveis. Digo, hipócritas.
Educadas ainda vá que não vá, agora simpáticas...
Mas afinal, haverá lugar no mundo para as pessoas que não sofrem e andam por aí indiferentes ao sofrimento dos outros? A rir-se pateticamente de uma vida medíocre? Sim, porque uma vida sem sofrimento, sem compaixão, é patética. É ininteligivel.Inqualificável. Como é que se ingressa às paixões, às sublimações sem nunca antes abdicar delas? Recusá-las? Destruí-las?
(O abnegado.)
(Extorqui-las da nossa identidade ao ponto de nos desconfundir-mos de nós mesmos. De desencontrarmos o nosso lugar no mundo. De admitirmos que não há realmente um lugar para os condenados.)
Readmitir a permissão para errar... Isso sim. É severamente abismal.
- Só os ideais em regeneração subsistem. Existem realmente.
Senão o altruísmo, o que vieram aprender ao mundo esses que andam por aí sem sofrimento?
Serão somente egoístas. Amargurados. Insatisfeitos crónicos. Que inventam problemas por não os terem, para se sentirem vivos.
(Ou)Serão somente egoístas. Ignorantes. Sem relacionamentos. Com pessoas reais. Sem relacionamentos. De todo.
E o pior de tudo, é o facto de não os podermos culpar.
O que lhes vamos dizer?
Que o suicídio é didáctico? Quando nós, os sofredores, se realmente assim o somos, dedicamos grande parte do nosso tempo,(para além de procurar salvar os outros para que não se afundem nunca até ao nosso extremo,) a criar e a repetir para nós próprios argumentos incríveis, mas incríveis mesmo, que conveçam os nossos pés a ceder, a arredarem-se para trás da berma do telhado do prédio?
Vá, agora sem hipérboles. Tenta outra vez. Mais uma vez.
O que ééé que lhes vamos dizer?
Que o sofrimento é didáctico? Quando a nossa fórmula de sobrevivência se reduz aos estratagemas mentais que desconfiguram os códigos da dor?
É este o episódio que se repete sucessivamente nos círculos de amigos.
Isto faz-me lembrar... Porra! Eu e tu que somos sofredores compulsivos a desabafar os desabamentos das pontes interiores de salvamento – ooh, pontes amadas, que extendemos para nos consolarmos de uma mágoa dolorosa num alívio instantâneo (mas que nem isso o é porque advém da argumentação), um alívio que em nada está relacionado, que para nada é solução - dizia, desabafamos sobre um amigo pateta (o tal do género egoísta) que generosamente nos escuta em silêncio, para raramente intervir com uma palmadinha nas mãos e um discurso frio (o único discurso consolador provém de uma voz sensível com um sofrimento maduro). E ao final de um valente par de horas... Cumprimos a nossa obrigação. Retribuímos com aquilo que devemos. Um obrigado. O obrigado inútil.
Batemos com a porta do carro do amigo. E das duas uma, ou suspiramos realmente de alívio, seja pela pressão libertada, seja pela solução conversada, ou no nosso desespero desejamos-lhe que sofra o mesmo. Não é vingança. Não há nada para vingar. É loucura. Por um mínimo de empatia que anule a solidão. Somos regidos pelo egoísmo. Porque não queremos ser os únicos. A sofrer. Porque condenamos raivosamente as pessoas generosas.
É neste ponto que devemos demarcar o limite do sofrimento razoável. Que se distingue o sofrimento útil do inútil. Que se distingue o obrigado útil do inútil.
Mas será muito presunçoso da minha parte admitir que existam, apontar o dedo, chegar ao ponto de condenar, as pessoas que não sofrem?
Não existem soluções. Não existe salvação. Nem para os sofredores compulsivos, nem para os patetas. Ambos habitamos no lugar dos condenados.

E agora? Agora. Por causa disto.
Vou tornar-me numa pessoa amargurada. Egoísta. Irritável. Crítica. Monolítica. Quero saber aquilo que as pessoas pensam. TUDO, aquilo que as pessoas pensam. Aquilo que TODAS as pessoas pensam. Aquilo em que as pessoas tanto pensam. Pormenorizadamente. Que justifiquem as suas atitudes. Que desculpem os seus fracassos. Cada fracasso. E a incrível capacidade de os conjuntar num mesmo indivíduo. A consciência da inevitabilidade do fracasso.

Sou um explosivo para o mundo.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Traição: Vingança ou Justiça?














O monólogo deve ser ritmado por ligeiras alternâncias no tom de voz que quase sem propósito demarcam um diálogo ora auto-condenador (activo) ora lamentador (passivo).

(Constatando num tom justificativo) Sim. Eu sei. Logo eu. Que tenho a mania. Ainda pra mais eu. Que tenho a mania: que sou correcta. Não, não. Nestas circustâncias... Nestas circunstâncias de jogo um para um: EU (pausa) SOU JUSTA. Chamo-lhe justiça! (irónico) Chamemos-lhe justiça. (mudança de tom de voz) Assim me convenço de que de facto a justiça é para os fracos. Para os mais fracos. (mudança de tom de voz) Só o faço porque ele assim o merece. Eu gosto mais dele do que ele de mim. E eu deveria exigir uma maior consideração pelos meus sentimentos, (se tivesse um palmo de dignidade) mas como tenho medo de o asfixiar... Desisto. (suspiro) Impludo. E depois vingo-me. Dou-lhe umas facadinhas nas costas. Não é vingança é justiça. Ora porra. Eu gosto inteiramente. Eu só sei gostar inteiramente. Não sei“gostar, vá”. Ou gosto, ou não gosto. E ele partilha o gosto por mim e por outra. Portanto, ele é quem tem obrigações quanto a prestar provas, ele é quem deve declarar tréguas amorosas. Eu não. E por isso travo batalhas interiores. Para não escrever palavras idiotas... no tecto do quarto... com batôn... Controlo-me. Para não exigir um beijo de despedida à porta de casa quando os amigos estão de rondo. Controlo-me... Para não partilhar uma merda de um cigarro na esplanada. É que quando exigimos insistidamente e somos renegados consecutivamente... Já não estamos a exigir, já estamos a suplicar. E a sujeitar-nos à suplica novamente. À inferiorização. Por isso guardamos o nosso amor para nós. Só para nós próprios. Eu pelo menos faço-o. (Falei no plural para não me sentir tão ridiculamente só. Tão estúpida) O que só revela que sou fraca. Como sou fraca. No lugar de afirmar o meu amor e correr rumo a todas as fronteiras, torço os dedos dos pés para dentro. Para não me sentir inferiorizada. Resumindo, sou fraca para não parecer fraca. E depois vingo-me. (pausa) Para me sentir vencedora. Para me sentir vencedora, sou ainda mais fraca. (pausa) Reprimo-me. Para dar só o que me dão. Para parecer satisfeita. Para não parecer fraca. Não. Digo: Não! Sou apenas conformista. E depois repreendo-o. Por não saber ser inteiro. Pois coloca em questão a integridade. A integridade... Meu Deus! Quando eu o traio! Eu, que repito orgulhosamente, diariamente, para todos os toma-cafés da praça, a máxima da auto-gestão: RECTIDÃO DE CARÁCTER! Pois, não sou fiel nem a mim mesma.
Vou mas é encasacar o amor e bater o dente para outra banda. Tenho frio. Por dentro. A gabardine não me chega. Preciso de a despir. E lá acabo eu nua outra vez. SEM CUECAS NEM EGO F*DA-SE!
TÁÁÁXIII...!







TÁÁÁXIII...!
-O costume?
-Sim.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Um Sofrer Inútil














Amar-te-ei sempre, sofrimento em percurso. Porque sou viciada no percurso. No ritmo. No viver. Renego o suicídio. E quanto mais o anseio. Quanto mais íntima é a minha relação com o suicídio. Quanto mais o venero. Me apaixono. Mais o reprimo. Mais o condeno. Quanto mais me sufoca cada inspiração. O suspiro que já não alivia. Mais o oprimo. Opressão, opressão! Nesta hora em que já nada me alivia, me descansa. Em que tudo me desfaz. Tudo em mim se desfaz. Em que o único soro possível seria o sono calado. Sem sonhos. Sem pesadelos. Sem espasmos. Sem insónias. Sem pânico. Somente sono. Sem taquicardia. Sem hiperventilação. Sem bichos que me comam por dentro. Intestino. Estômago. Laringe. Pulmões. Coração. Veias. Cérebro e tudo. Comam tudo de uma só vez. De uma só assentada. Não se fiquem pelas entradas. Pelas entranhas. Devorem os nicos e depois os nacos. Mas comam tudo de uma só vez, por favor. Um sono sem saltos espasmados de pulgas dentro dos lençóis, sem pós desaparasitantes intoxicantes, que me ferem as narinas. Que me ferem a pele! Que me arranham os olhos. Que os mordem. Que são como bichos. Que me tragam por dentro e por fora. Um sono sem gritos zunidos de monstros que me querem matar. A minha família monstruosa. A minha família é um monstro inteiro e guloso. A minha família espera que os bichos me comam toda. Deixam-me deitada sobre a cama a apodrecer. E quando calha deixam-me comprimidos:”para te desparasitares”. Depois fecham a porta e deixam-me rodeada dos pós e dos bichos, com dois comprimidos na palma da mão aberta. E eu sou devorada. E assassina e assassinada. Para os bichos, pelos bichos e pelos monstros. Tudo em mim é assassinado. É por isso que me quero matar. Para não ser assassinada. Não aguento o sofrimento longo, lento e moroso. Cheio de pormenores. Não aguento que de vez em quando me sinta bem. Lembra-me de quem era. Não aguento aperceber-me de que estou a ser assassinada por bichos e por monstros. E de que sou incapaz! É demasiado grande para mim. É maior que eu. Muito maior. Muito maior. E ninguém me ajuda. Ninguém me ajuda. Ninguém me ajuda. E pensam que sim. E eu tenho de agradecer. Um obrigado inútil. Tenho alguma dignidade. Mesmo quando está para ser assassinada ou para se suicidar, uma pessoa merece alguma consideração. Quanto mais não seja porque decorre o acto mais cobarde de toda a sua vida. O renegar do sofrimento. - A morte. O suicídio, vá.- Um sofrimento com o qual já não se aprende nada para a próxima experiência: porque já não há próxima. Um acto tão redentor, que já não sugere que salvemos o outro quando não nos conseguimos salvar a nós próprios. O acto mais nobre, reconhecendo a impotência e assumindo a derrota. O acto mais bem conseguido, sem margem de equívoco. O alcance do objectivo mais esperado na data: o descanso merecido. Não, não, não. Renego-te vida, porque já nem vida és. Sobrevivente esgotado, sobrelotado, anulado. Renego-te morte, porque não mereço tão sereno descanso. Quantos outros sobreviventes sofredores não aguentam em nome da pátria, em nome de uma política, de uma religião, de um filho, de um sonho de vida. Um ideal qualquer que os mantém em pé, com os pés assentes na terra. Acorrentados àquela outrora com o nome de vida. Mas eu não. Eu não tenho ideal algum. Eu apenas repito para mim num cansar incessante “correr, correr, correr, correr,correr”. E quando por brevíssimas fracções de segundo sinto o sangue com mais vida que doença correr-me nas veias, penso que “ainda não comecei”. Como se tivesse uma obrigação para com o mundo que me impedisse de me matar. Para logo a seguir ao pico se seguir a queda tão dura e deslizante, que me faz querer tanto mas tanto matar-me... E pensar que ainda não comecei. Pensar que nunca começarei. Pensar consolada que talvez nunca sequer começasse. Tivesse direito a começar. Oportunidade. A oportunidade agora é outra. Por isso eu renego-a. Nunca me matarei. Nunca me matarei. Não me quero matar. Não quero morrer. Só quero matar-me. Só quero matar isto. E voltar a ser eu. Porque ainda não comecei.
Somos todos heróis.u

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Em Tereza



















Tereza. Tereza era o nome da estação onde entrei no autocarro que me levou a conhecer tantas paragens através do vidro da janela.
Tinha-me esquecido. Esquecido de mim. Do que é ser eu. Aglutinada nos outros, desencontrei-me de mim mesma.
Hoje revi-me em Erica Strange. Antes, ainda, em Ally McBeal.
...
Assistir à absorção da pecularidaridade de cada aldeão, que se envolve e esborrata numa gota de chuva grossa suavemente pendurada no vidro da janela do autocarro, dispersando-se, difundindo-se, volvendo-se una numa apertada multidão homogénea. BLÁ, BLÁ, BLÁÁ...! Isto não interessa a ninguém.
Desaparecendo na curva da estrada, vi Ally.
Ally, pelos passeios da frenética Nova York, atingida pelo cotovelo de um estranho, reage ao pedido de desculpas: “ Ei! Espere! Não, não desculpo! Porque me pede desculpas se não se sente na obrigação de o fazer?!”. O cansaço dos formalismos. Os seres humanos desumanizam-se nas mesmas estradas que os humanizam. Esquecem-se. Esquecem-se de si. Esquecem-se dos outros. Esquecem-se que por detrás dos fatos dos advogados estão pessoas. Pessoas iguais a nós. Iguais a nós! E é suposto existir um nós. Um nós extinguido, anulado por todos os formalismos e convencionalismos. Dos pedidos de desculpa sem sentimento por causa dos cafés entornados. De facto, é uma situação que exige um pedido de desculpa. Mas não um pedido de desculpa educado, carregado da obrigação de não parecer um macaco. De justificar as indelicadezas. De se justificar, entrar no carro e prosseguir viagem descansadamente até à empresa, sem um mínimo peso na consciência. Onde por acaso, o desconhecido que cotovelou também trabalha. Mas no qual nunca reparou. Porque quando passa pela portaria, despacha um bom-dia automático sem cruzar o olhar com o porteiro. Carregado da obrigação de não parecer um macaco. Mas todos estes comportamentos mímicos, mecânicos e automáticos, não são mais profundos do que as macaquices. As macaquices que vemos na selva. Na selva televisiva, com o comando na mão. O National Geographic é mais acessível do que o Zoo. Mas as estradas urbanas ainda o são mais. E todas estas tentativas de nos orgulharmos de sermos bípedes, são ferozmente traídas. Um ser humano quando pede desculpa a outro, deve sentir sinceramente, e não gorgolejar. Incrível!, como viciados na justificação, no ego, nos esquecemos dos outros. E assim, nos esquecemos de nós, de quem somos. Enquanto seres individuais e enquanto pássaros do mesmo bando. Como se fossemos gaivotas. Que andam sempre em bando mas são individualistas, arroaceiras. Sobrevivem. É nisto que nos tornamos: sobreviventes. Que para isso se toleram. Que vivem do que é aceitável sem nunca questionar. Uns imunes, outros implosivos. Esquece-mo-nos de sentir e de manifestar a intolerância. Esquecemo-nos de ser seres sensíveis e vivemos da mediocre hipocrisia intelectual. Incrível!, como viciados no verbo, se recebermos um pedido de desculpa sincero através de um sorriso, não reparamos nele (um macaco aperceber-se-ia), continuamos a olhar para baixo e resignamo-nos com o estranho que nos cotovelou e, grosseiramente, se calou. O que vale é que a extensão da nossa memória a longo prazo, cada vez se aproxima mais dos limites da memória a curto prazo. (Não vão estas ofensas marterizar-nos noite adentro. Ou sim, pelo menos já teriamos argumento entusiásta que acompanhasse as nossas caprichosas inónias solitárias.) Pelo menos no que diz respeito a realmente conhecer as pessoas. Conhecer. Tenho-me apercebido de que, em toda a dinâmica social actual, alguns rituais da pré-história permanecem, nomeadamente, o facto de quando realmente pretendemos CONHECER alguém, sentir-nos íntimos e preenchidos, optamos por acasalar. E a partir daqui sentimo-nos entregues e recebidos.
Ally relembrou-me de que, nem todos os comportamentos mais aceitáveis são os mais correctos. Relembrou-me de que morder os lábios apreensivamente, procurando implodir as intolerâncias – receando parecer-mo-nos com macacos - no lugar de ousar contestar, de arriscar afirmar uma posição, por mais inconvencional que seja, e por mais que nos faça sentir desaprovados e desintegrados, nos torna mais humanos. Porque fomos aparentemente egoístas sem nos importarmos. Fomos realmente generosos. Portanto que se foda a intelectualidade, o que importa é a paixão. A paixão por sermos o melhor de nós próprios, mesmo na sombra, e pela empatia.
Erica Strange, relembrou-me...
Actualmente, eu revia-me na primeira Erica. Na Erica desistente. A Erica que deixára de procurar o amor. A Erica conformada com a felicidade que provinha de uma ideia fácil, a ideia de que o amor suficiente sempre surgirá, bastando investir no homem que preencha alguns dos requisitos da lista perfeita, ou até mesmo no homem que não preenche requesito nenhum. Porque no investimento construtivo encontramos a solução. Mas não. Não basta a construção. A construção leva-nos a gostar tanto que somos incapazes de fazer mal. Que somos incapazes de traír. De exigir ao outro algo que o faça infeliz, por mais que a nós nos fizesse felizes. Porque o colocamos à frente. Porque somos generosos. Mas a construção não basta para amar. É preciso desejar. E é preciso admirar. Porque amor sem paixão não preluz. Quando admiramos... Quando admiramos... Quando admiramos sentimo-nos pequeninos. Iluminados por uma força maior e inatingível. Julgamos que ele veio do país das luzes para salvar o mundo. Quando desejamos, somos incapazes de ser inteiramente coerentes. Porque metade das palavras são silêncio ou música. Porque nos perdemos no labirinto de cicatrizes que risca as palmas das mãos possessivas. Porque todas as imperfeições são belas. Não Erica, o tal, não é o nenhum. O tal, é o tal. Por isso arruma a tua literatura desistente na gaveta da vida de ontem, e apaixona os teus leitores. Eu também voltei a escrever para o amanhã. E pára de escrever sobre coisas que não te dizem nada só para te sentires um mutante transcendental. Escrever sobre nós próprios... é muito mais estranho e perigoso. É olhar para dentro, assumir e revelar. O teu público agradece-te por o fazeres sentir-se vivo.
Falei de tudo menos de Tereza. O lugar de Tereza é demasiado íntimo, nem a força de todas as minhas fraquezas o conseguiria pronunciar. Mas Tereza está em todas as palavras.
Tereza entrega-se a um homem. Tereza entrega-se a uma mulher. Tereza entrega-se a um cão. À política. Ao país. Ao estrangeiro. À fotografia. À literatura. À dança. À água. Tereza entrega-se. Tereza não esconde, não escapa, não finge.
A insustentável viagem de Tereza recomeça na paragem de cada ser.
Não prometo nunca mais me desencontrar do meu ser. Mas prometo: guardarei sempre o bilhete na algibeira do meu casaco vermelho. Não do autocarro abstrato. Mas de um cinema concreto. Só para o caso de, alguma vez, vir a reencontrar no espelho uma Sabina desacreditada que vai sempre embora.