terça-feira, 3 de novembro de 2009

Psicodrama

- Mamã?, contas-me uma história antes de eu adormecer?... Para eu adormecer?
- De bonecas?
- Não. De meninas reais...
- Era uma vez uma menina...
- Mas é uma boneca?
- Não, não. É real.
A senhora boneca minha mãe de porcelana... A senhora minha mãe, boneca de porcelana... A senhora de porcelana, boneca minha mãe, é neurótica, suicída, alcoólica, masuquista, prostituta. O senhor meu pai, boneco de velhos trapos... O senhor de trapos velhos, boneco meu pai é bipolar, sádico, pedófilo, sociopata, ladrão.
Eu sou um pouco como a boneca Paula, de forte presença, egocêntrica, independente, energética, curiosa, inteligente, pragmática, teimosa, vivaz, perspicaz, dinâmica, sensata.
Um tanto também quanto a boneca Catarina, descontraída, distraída, desajeitada, ingénua, impulsiva, emotiva, alegre.
Um tanto pouco também como a boneca Margarida, apaixonada, contemplativa, bela, amante da beleza e da Natureza, excessiva nos prazeres carnais, pacífica, sensível, atenciosa, delicada, preguiçosa.
Não sou nada como a boneca Raquel, boneca viciosa, gananciosa e vaidosa. Viciada no dinheiro, no luxo e na luxúria. Gulosa. Calculista, mentirosa, traidora. Cínica, hipócrita. Só. Artificialmente bela. Persuasiva. Bem falante e cantante.
Por vezes, salientam-se-me os traços da boneca Micky, boneca nocturna, soturna, taciturna, melancólica. Boneca traumatizada, depreciativa. Solitária, reservada. Medrosa, fóbica. Refugiada no mundo das letras, História e literatura. Refugiada no afecto dos animais abandonados. Geralmente apática para a humanidade, mas com tendência para se relacionar com pessoas problemáticas. Víbora sexual: calculista e impulsiva. Amante das artes marciais, da velocidade, do oculto e da vida clandestina: crime e drogas.
Raramente me assemelho à boneca Clara, superficial nas relações, fútil nos interesses e habilidades, conversadora, bela e ansiosa por uma vida de manequim.
Vera... Acolhedora, protectora, maternal, atenciosa, caridosa, generosa, habilidosa, aparentemente sensata, mas calculista, observadora, controladora e interesseira.
As minhas bonecas, tão irreais para outrém quanto reais para mim.
Há pessoas assim, suficientemente complexas para que me interesse dissecá-las, de bisturi e tesoura em artimanha.
Outras, vastas de uma simplicidade intrigante, não conseguem contudo deixar-me desinteressada, mas antes iludida com complexidades imaginárias, para que logo me desiluda e constate a dureza de uns rabiscos, desenho de uma personalidade tão vazia, tão sem pó de giz e nem carvão. Só sopro sem dó... nem ré, nem mi.
Boneca. O fantasma agasalho das noites de medo do escuro. Das noites de medo do senhor sonho pesadelo. Das noites de medo de não acordar.
- Mamã?, dás-me a mão para eu adormecer?

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