quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Perdidos e Achados


Um homem sem talentos artísticos, sem habilidades científicas, sem dons espirituais nem especiais entendimentos emocionais. Um pobre só. Homem impotente. Que belo fado. Que amargo grato. Homem impotente. Sem asas que o elevem. Dirige-se ao aeroporto mais próximo. Quer-se perto dos pássaros metálicos, diamantes da ciência que inspiram os artistas engenheiros. Um pobre só. Sente-se tão perdido. Dirige-se ao balcão de perdidos e achados. -Alguém me procurou? Alguém me quer achar? Alguém pressentiu a minha leviana ente? -Como se chama? De que fabricante...? - Silêncio quadrado. -Não. Ninguém o reclamou. Na verdade não existe qualquer registo neste mundo da sua ente. -Não existe? -Não, o senhor não existe. -Não existo... -Vou catalogá-lo no dossier dos anónimos e... -Não existo... -...e sempre existe a remota possibilidade de que, quando o sol voltar à órbita, as indústrias reclamem os robôts defeituosos. -Ro... robôts? -Ro-bôts, sim, RooO-bôôôts. Pensando melhor vou reencaminhá-lo para a assistência técnica. -Mas eu não sou lunático! -Não sei se terão encubadoras disponíveis no laboratório subterrâneo... -...acordei esta manhã na ala de reanimação de um hospital psiquiátrico... -talvez no consultório aeronáutico, se bem que a esse só é possível aceder com passaporte ou em caso de síndrome psicótica aguda, ou anomalia genética perturbadora do sistema psíquico... -...mas não sei como... -...é fácil, quer fingir uma despersonalização? -...não me lembro... nem reconheço o espaço... - não, a isso dá-se o nome de desrealização, mas também serve. -...sinto-me amnésico... -Tente não misturar muitos sintomas, o mais provável é que se perca na fraude e depois no lugar de lhe darem um cocktail de victan e seroquel, ainda o arrumam na solitária... - Na solitária?! - É... (longa pausa) sabe, tem razão, eu também não concordo com o isolamento. É como o Direito de utilização da porta temporal para viajarem até à guerra nuclear, andam sempre alerta por causa dos AVC's que a contorção do continuum espaço-tempo causa nos animais-humanos e depois ( abana a cabeça de olhos fechados)... e esses não se podem reiniciar se não tiverem o chipe actualizado... mas isso também é problema deles, não se reunem na fábrica mesmo tendo subsídio de tele-transporte... e nós, os hipers, não podemos estar sempre de vigília... Não conte a ninguém. Mas alguns de nós continuam a gostar de sonhar. Mesmo que seja acordados... Não sei porque me estou a exteriorizar consigo senhor... Deixa-me à vontade, tem algo de... animal-humano... -Animal? -(arrastando para si, telequineticamente o microfone flutuante) Cápsula 3.14, autorização de aterragem na pista 24, dentro de 4... 8... 15... 16... 23... 42... (olha apaticamente o senhor perdido) a assistência técnica acaba de aterrar... Subitamente, todos os passageiros vigilantes no círculo de espera, embevecidos em sossegada paciência, descruzam as pernas para as voltarem a cruzar para o lado controverso, simultaneamente viram a página do jornal e sopram uma voz funda: -Novilúnio! - Repito, a assistência técnica acaba de aterrar... -Novilúnio! -Marionete Luaceiro Sem Destino, desactivar. Nisto, a funcionária marionete desdobra-se pelas articulações, pendurando os gastos dedos metálicos, até agora ocultos, nas pontas dos pés, formando uma forma razoavelmente quadrangular. O senhor perdido esbugalha os olhos, estica o pescoço, treme o crânio irrequietamente roça os dedos trémulos repetidamente como um maníaco.

Um comentário:

ptkraken disse...

uou.. ainda agr te conheci e já te tornas-te num misterio pra mim! sinto-me curioso.. receoso.. e com vontade de te conhecer bem melhor! :) gosto do que escreves.. manipuladora de palavras!! c(=