
Um homem sem talentos artísticos, sem habilidades científicas, sem dons espirituais nem especiais entendimentos emocionais. Um pobre só. Homem impotente. Que belo fado. Que amargo grato. Homem impotente. Sem asas que o elevem. Dirige-se ao aeroporto mais próximo. Quer-se perto dos pássaros metálicos, diamantes da ciência que inspiram os artistas engenheiros. Um pobre só. Sente-se tão perdido. Dirige-se ao balcão de perdidos e achados. -Alguém me procurou? Alguém me quer achar? Alguém pressentiu a minha leviana ente? -Como se chama? De que fabricante...? - Silêncio quadrado. -Não. Ninguém o reclamou. Na verdade não existe qualquer registo neste mundo da sua ente. -Não existe? -Não, o senhor não existe. -Não existo... -Vou catalogá-lo no dossier dos anónimos e... -Não existo... -...e sempre existe a remota possibilidade de que, quando o sol voltar à órbita, as indústrias reclamem os robôts defeituosos. -Ro... robôts? -Ro-bôts, sim, RooO-bôôôts. Pensando melhor vou reencaminhá-lo para a assistência técnica. -Mas eu não sou lunático! -Não sei se terão encubadoras disponíveis no laboratório subterrâneo... -...acordei esta manhã na ala de reanimação de um hospital psiquiátrico... -talvez no consultório aeronáutico, se bem que a esse só é possível aceder com passaporte ou em caso de síndrome psicótica aguda, ou anomalia genética perturbadora do sistema psíquico... -...mas não sei como... -...é fácil, quer fingir uma despersonalização? -...não me lembro... nem reconheço o espaço... - não, a isso dá-se o nome de desrealização, mas também serve. -...sinto-me amnésico... -Tente não misturar muitos sintomas, o mais provável é que se perca na fraude e depois no lugar de lhe darem um cocktail de victan e seroquel, ainda o arrumam na solitária... - Na solitária?! - É... (longa pausa) sabe, tem razão, eu também não concordo com o isolamento. É como o Direito de utilização da porta temporal para viajarem até à guerra nuclear, andam sempre alerta por causa dos AVC's que a contorção do continuum espaço-tempo causa nos animais-humanos e depois ( abana a cabeça de olhos fechados)... e esses não se podem reiniciar se não tiverem o chipe actualizado... mas isso também é problema deles, não se reunem na fábrica mesmo tendo subsídio de tele-transporte... e nós, os hipers, não podemos estar sempre de vigília... Não conte a ninguém. Mas alguns de nós continuam a gostar de sonhar. Mesmo que seja acordados... Não sei porque me estou a exteriorizar consigo senhor... Deixa-me à vontade, tem algo de... animal-humano... -Animal? -(arrastando para si, telequineticamente o microfone flutuante) Cápsula 3.14, autorização de aterragem na pista 24, dentro de 4... 8... 15... 16... 23... 42... (olha apaticamente o senhor perdido) a assistência técnica acaba de aterrar... Subitamente, todos os passageiros vigilantes no círculo de espera, embevecidos em sossegada paciência, descruzam as pernas para as voltarem a cruzar para o lado controverso, simultaneamente viram a página do jornal e sopram uma voz funda: -Novilúnio! - Repito, a assistência técnica acaba de aterrar... -Novilúnio! -Marionete Luaceiro Sem Destino, desactivar. Nisto, a funcionária marionete desdobra-se pelas articulações, pendurando os gastos dedos metálicos, até agora ocultos, nas pontas dos pés, formando uma forma razoavelmente quadrangular. O senhor perdido esbugalha os olhos, estica o pescoço, treme o crânio irrequietamente roça os dedos trémulos repetidamente como um maníaco.
