quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Des/ do/ bra/ men/ to


Faixas azul-néon e verde-esmeralda desdobram-se verticalmente impondo-se na tela escura holográfica aberta dentro dos meus olhos fechados. Contemplo. Mergulho. Submerjo. Desenrolam-se como negativos de filme fotográfico infinitos. Observo. Índigos oceanos convergindo numa espiral profunda. O centro é hipnótico, como um hímen para a pupila fixa, que me entorpece. Quanto mais me emaranho na densidade das faixas luminosas, mais detalhes desdobro. Imagens de florestas místicas explanam-se e multiplicam-se dentro de Ágatas-Verdes - uma chuva de milhares de minúsculos cristais, do tamanho da unha do dedo mindinho de uma criança - espelham ambientes verdes. Como uma pintura de pontilhismo cor-de-musgo, numa manhã cinza-invernosa. Universos ecológicos preservados em bolas de cristal. Boiam. Multiplicam-se. Agora que pestanejo, uma e outra vez, desperto, esfrego os olhos, desfoco, vejo ao longe, é um regador celeste formado por pontes entre constelações, é um regador que goteja os milhares de Ágatas briosas, que por sua vez humedecem os cabelos finos e loiros de uma criança pequenina, a mesma de há pouco, e germinam-lhe pelos dedos fora pinturas inspiradoras - alertas de preservação da Natureza, com uma roda de fadas coloridas, que dançam e rodam e giram, e as suas cores fundidas em movimento, criam um aro branco luminoso que paira, como uma aura – ou um Parténon para outro Cosmos -, banhado pelo sol, desenhado a guache amarelo, numa mesa de estudos, por uma criança hiperativa que ficou de castigo no intervalo entre aulas.

Volto a mergulhar. Recosto as pálpebras. Sinto os pés insuflarem-se. «Quase» que ouço uma almofada de penas esvaziar-se. Uma leveza líquida no peito que se espalha por todo corpo, como rios a preencherem caminhos que já conhecem. Sinto uma brisa de vento morno soprar-me sob a cabeça. «Quase» que a ouço despentear-me os cabelos fartos. É um som de Outono, como quando as folhas alaranjadas se abraçam ao vento da mudança e se despedem das árvores.
Sinto um leve formigueiro efervescer do centro da coroa da minha cabeça…  Como se uma ave me sobrevoasse e levemente roçasse as bermas das penas, fazendo-me cócegas… o formigueiro alastra-se por todo o meu corpo… ondulo… flutuo… levito… A passagem do tempo é morosa… 

 - Anéis translúcidos emergem em meu redor… elevam-se… amplificam-se… extinguem-se… Triângulos desorganizados surgem de todas as frontes… multiplicam-se… desdobram-se em si mesmos… como bonecas russas… intermináveis… subitamente… organizam-se… as faces encontram-se e harmonizam-se como se já conhecessem a sequência dos passos, e resultam-se numa pirâmide trilateral… com arestas luminescentes… Agora... Abre-se um passagem entre as minhas mãos, unidas e abertas em formato triangular, funciona como um telescópio que perfura um buraco negro no Cosmos. A meu pedido, acende ecrãs ocultos, numa sala multi-visionária... -

As pontas dos meus dedos estão elétricas. O calor, a eletricidade, a humidade, a brisa errante. Movimentam-se. Mesclam-se. Harmonizam-se. Formam uma bola-de-sabão que me envolve. Os meus lábios descolam-se, inspiro profundamente, expiro vagarosamente, «quase» que ouço uma corrente de ar forte sair de dentro de mim, como se saltasse em queda-livre. O som da corrente de ar propaga-se à minha volta, ecoa dentro da bola-de-sabão. Estou numa redoma de ecos. Vaivéns infinitos. Até que vibram. Tocam-me. Rompem-me o tecido da pele, o abrigo da minha alma. Invadem-me. Fundem-se com o ar que ressoa das minhas cordas vocais. A minha voz vibra. (Desconhecia esta minha voz, é muito ternurenta, maternal, pacífica, de onde vem?). A minha voz vibrante estilhaça a armadura do meu corpo. Não existe mais armadura. Não existe mais corpo.  A vibração da minha voz e da bola-de-sabão etérea são um só. Sou una. A bola-de-sabão flutua. Sinto-me ondular levemente como se mil ventos quentes dançassem em meu redor. Abre-se um vagão de luz defronte de mim, como se acendesse uma lanterna de dentro do meu peito para fora, uma fonte de mil marés de luz incandesce. Levo as mãos ao peito e abraço-me, baixo a cabeça. No fundo desta fogueira etérea que crepita no meu peito, há uma passagem para dentro. Uma câmara secreta para casa. Não me lembrava do caminho. 

 - Percorrera nevões sozinha. Sôfrega. Contra o ar gélido. Nesta caminhada erudita. Olhava para trás e só encontrava extensas planícies de gelo, olhava para a esquerda e avistava avalanches temerosas, olhava para a direita e temia os fantasmas da neve, olhava para cima e o céu era negro, breu como noite de lua nova e sem estrelas, olhava para baixo e confrontava-me com precipícios que me sugavam, esforçava-me por olhar em frente, mas em vão: não havia pontes para o outro lado. Quaaaseee que cedia ao precipício.
De tanto tempo isolada, eu não me lembrava do rosto de ninguém, já não sabia pronunciar palavras de tanto tempo muda, o meu rosto esqueceu-se de como esboçar qualquer expressão, fosse um sorriso ou indignação, de tanto tempo apática.
Se tocasse o meu próprio rosto, estranharia a textura da pele. Desconhecia-me.
Eu tinha medo. -

E não me lembrava da sensação de ter alguém à minha espera em casa. De braços abertos. Lareira acesa. E sem julgamentos. Bem-vinda a casa.

...
Uma família feliz de hologramas abraça-se muito, muitas crianças a chapinar num lago, de calças arregaçadas, outras correm no jardim, outras abraçam-me na porta da cozinha de onde vem aroma a bolo quente de canela. Uma senhora de cabelos brancos muito sorridente, abraça-me também. Dizem que estão felizes por eu os visitar, mas não me perguntam porque não vim antes, nem de onde vim, dizem-me que estiverem sempre comigo, o tempo todo. Bastava eu abrir aquela porta a caminho de casa, perto do jardim. Cheira a terra, o céu está limpo, mergulho, com felicidade, os dedos na terra húmida, e sorrio para dentro.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

#H




















Amo olhos feitos de pores-do-sol.
Beijos em lábios e línguas rosáceas e húmidas,
Em tempestades ciclónicas ascendendo de dentro da tua boca louca de mar.
Rodeados de pétalas das Filhas do Sol…
…as nossas flores de Dente-de-Leão.
Ruge-me no coração
quando os teus dedos de relâmpago me rasgam a carne!,
Quais víboras insaciáveis  em luta
quebrando as ondas como estalos na pele
 salgada de supremas lágrimas de felicidade e a folia do suor.
…Como alma-de-lume,
Dançarino luminescente
que me mordes e sucas entre as constelações espinais,
«Orgásma-me» até à nuca!,

…Desde a planta do pé.
Até à simbiose perfeita.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Simbiose - Parte 1

Em pleno êxtase da multidão na meia-noite da viragem de ano os rostos transfiguram-se, como máscaras de cera teatrais que se derretem, e transformam rostos transtornados em felicidades ébrias traduzidas em sorrisos abertos e lágrimas que rolam pelo queixo perdendo-se no pescoço ou no decote ou nas barbas.
(Pausada e hesitantemente prossegue) Sonhamos sempre que "podemos"... E "podemos"...tão poucas vezes. Somos adultos tão cedo e depressa... (inspira contemplativa)
-Ainda estamos a descobrir quais são os nossos sonhos mais vorazes, aqueles que tragam o nosso estômago por dentro e trepam a nossa garganta.
É como a estúpida expressão apaixonada das "borboletas na barriga" a transformarem-se na pintura berrada em desespero "O Grito" de Munch.
«I Love You». Dizemos nós consonantes com uma música que rolou na rádio do carro.
«Je t’aime». Dizemos nós a uma paisagem encontrada numa viagem na Europa.
«Como Eu Te Amo!». Pensamos nós ao sentir o vento bater-nos na cara e cegar-nos com a sua força quando abrimos a janela do carro.
Cuspimos estas palavras hediondas de amor aos estímulos que nos tiroteiam, mas é apenas o desejo de amar simbioticamente a falar mais alto. Não é a música, nem a paisagem, nem o vento. Somos nós. São as nossas almas que são vulneráveis ou não. Hoje eu escolho não ser vulnerável. Porque não tenho condições. (aparte: não escolhi afinal!-cabisbaixa). Não me faltam músicas e não ensurdeci. Estou a ouvir música neste preciso momento. Ainda pra mais música amorosa sobre anjos que morrem. Também não me faltam paisagens. Viajo todos os dias e todos os dias baixo o vidro do carro para as contemplar mais vivamente, com o vento que se faz engolir pela minha boca adentro.
Odeio-me. Por fracassar sempre. Por dar sempre 50 passos atrás depois de subir dois pequenos degraus na escadinha emocional. Sou um anjo que cada vez que constrói as asas e sobe ao telhado para voar, repara que deixou a panela ao lume e isso é mais importante... é uma questão de sobrevivência. And isn’t it ironic?
Hoje eu desisto de todos os meus sonhos.
Abraço a minha barriga, fecho os olhos, e imagino-me iluminada por holofotes. Irónico! A minha última peça de teatro foi sobre a maternidade! Dois sonhos num só. Como dizia a Virginia Woolf «e quando eu pensava que aquilo era o princípio da felicidade, afinal aquilo já era a felicidade». E não voltou a acontecer-me.
E eu do vazio reergui-me, reconstrui-me, recriei-me, desenhei-me, maquilhei-me, disfarcei-me, como numa peça de teatro. E vivo de improviso no dia-a-dia.
Mas aqui neste mundo vertiginoso do meu ciclone emocional da sobrevivência, não cheira à madeira do palco…
O público, como a gente que nos olha pelas ruas, existe para torcer narizes e para aplausos esporádicos.
Mas onde está o actor? Aperto os olhos, e os braços contra a barriga e penso que se não vim a este mundo para trazer a luz ao palco ou dar à luz uma criança, não vim cá fazer nada.
Mais valia dedicar-me a honrar qualquer causa desde que seja forte, não importa se é moral ou imoral, importa que seja intensa. Aliás, eu até daria uma boa espia, uma infiltrada perfeita, pois sei ser tudo e qualquer coisa de todas as maneiras possíveis e ainda não imaginadas.
Sou um prefácio para a ironia! Fracasso em todos os meus sonhos contudo poderia ser tudo quanto quisesse. O que é que me falta? Pensava que era fé por essa palavra me ser tão estrangeira. Mas mesmo depois de a conhecer pessoalmente e conquistar a sua simpatia eu fracassei. E daí, como diz Angellica Liddell: "o meu corpo é o meu fracasso".
O meu corpo é o exemplo esplendor da morte da pantomima e da fertilidade. Se não nasci para criar, se nasci para morrer, porque não sou uma espia sem vida, impulsionada por uma causa? Corre-me nas veias uma força enraivecida que tem de se despojar em algum destes lugares interiores e fazer-se habitar no outro.
Poderei ser uma dona de casa desesperada a cuidar do seu jardim? Renuncio.
Renuncio ao fracasso da felicidade simplória. Só cuidarei dos nossos vasos…se forem NOSSOS. Meus e do meu público germinando em si catarticamente. Ou meus e do meu filho, germinando-se o mesmo no meu vaso interior. Meu amor-perfeito… conceptualmente criado e tão mármor-iozamente real…
O meu rosto é a expressão esplendor da morte da pantomima e da fertilidade.
Renuncio ao fracasso da felicidade simplória de cuidar dos vasos do meu jardim. Quando, no meu vaso uterino, reluz esperança: o germinar da origem. A perfeita simbiose da mãe-grávida, mais bela que o etéreo sagitário.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

#Bissexualidade & #Birromantismo

Reflexão acerca da profundidade do envolvimento com os sexos:
-O homem. Estimula-me todos sentidos. Com o seu toque na minha mão. Com o seu olhar imóvel e inflexível aprofundando-se no meu sem medo. Com o seu cheiro natural. Com o seu tom de voz, murmurando-me suavemente. Com as palavras escolhidas. ...é que... há alguma musicalidade entre o ritmo da sua sexualidade e o da sua linguagem verbal. O sexo como tradutor da palavra! ...e o seu gosto. ...quero dizer: o seu sabor. ...o seu gosto. ...Digo: o pormenor do tom aníl-cinza no forro interior dos bolsos do colete.
-Na mulher. Não procuro o olhar dela. Procuro o corpo. Não procuro o toque. Toco. Não procuro ouvi-la. Silencio-a. Com um beijo imprevisível. Escuto-a conversando com os outros. Apenas apreciando o timbre e a envolvência com que se desvela como numa dança. Contemplo. Livre dos furacões do ciúme. O gosto da sua boca... será do café da manhã misturado com o baton frutado e o mentol da pasta dentrífica habitual? É uma relação tão íntima como aquela que os meus lábios têm misteriosamente com o sumo doce de uma taça de morangos com natas... Humm...
Enquanto que na envolvência com o homem. A intimidade é o gosto do sabor da saliva. Que me diz se beijou alguém antes. Se tem o mesmo sabor de sempre. Se sabe a mim. Se serei a única mulher que beija. É territorial.
Na mulher encontro o êxtase total e fugaz, na sua sedução sublime por natureza.
E a ausência de realização do único desejo-impulso. Ser mãe. Do filho da paixão. Meus olhos, teus lábios. E que acordemos todos juntos, envoltos, friorentos, nos leitos da mesma casinha, perscrutando a geada Primaveril da madrugada nos vidros das janelas.
#MomentosFotográficos. Unidos pelo mesmo amor. Fusões abismais. Na aliança dos nossos corpos eróticos. Na gravidez como simbiose absoluta.
Houve alguma mulher que me tivesse tirado o sono? E não apenas "horas de sono"? Com quem eu pensasse viver uma vida dentro da mesma casa e ter a certeza de que nunca me cansaria do seu corpo? Não me lembro de nenhuma. Mas lembro-me de já não me lembrar de quantos cheiros teus eu desejei ter nos meus lençóis. Quantas vezes eu visualizei as silhuetas de um par de copos de vinho na mesa. Imaginei, as noites em que chegasse a casa e nem a luz acendesse de tanto cansaço. E só existisse o teu copo e o meu. E o teu corpo e o meu. E diante das luzes apagadas e o silêncio total na sala da entrada, eu desiludida por teres ido dormir desistindo de me esperar, me dirigisse brusca e conformada para o quarto, e precisamente quando fosse atravessar a porta para o corredor dos quartos, acendesses um fósforo para dar lume a uma vela, aproximasses a boca de um cigarro ao pavio ardente, com os teus lábios sensuais, alumiando a sala de luzes e fumos, transformando-a na ilusão de uma tenda indiana de incensos de ópio, que nos ateiam fogo à pele quente e vaporosa de excitação.  Afinal esperavas-me e diante da minha expressão feliz, tímida de tão surpresa, enchias de vinho os copos enquanto eu descalçava as sabrinas rosa-pérola.
És a minha liberdade. Quando pensei desde sempre que a única liberdade real fosse a independência. Liberdade é a expressão e realização da paixão.

domingo, 19 de junho de 2016

Orgasmo de Sol










Vivi em milhões de casas.
Procurei-te noutras pessoas.
Mergulhei nos mares do sexo sempre que quis.
(Desculpa.)
Estiveste sempre aí.
Contei estrelas no céu sem por quê.
Como se procurasse o teu olho verde a acender uma constelação.
E não te inclui no meu sonho. Não te sentei ao meu lado para contarmos estrelas, e histórias um ao outro.
Procurei o teu rosto camuflado em inúmeras paisagens.
-Em vão.
Perscrutei os sons da música 'Hey You" de Pink Floyd depositando em cada nota a esperança de ouvir o som do teu nome.
-Em vão.
"Open your heart... I'm comming home..."
Podes ajudar-me?
Tu. Tu que tens o rosto do impossível.
Controla os meus pensamentos.
E sê sempre inacessível.
O desafio que faz o meu coração agitar-se como o de uma leoa na savana alerta à presa e ao caçador,
é a fantasia do impossível na sua plenitude etérea e platónica.
Orgasmos espontâneos diante do rosto da indiferença ou de um sorriso contemplativo.
O meu corpo e a minha alma são um só.
Eu quero saber como!
Diz-me como!
Eu sou aquela que se apaixona tanto diante de um tiro como de um beijo.
Tanto da fé como do ódio.
Eu danço qual serpente sensual dos mares, com os dentes ensanguentados da caça pelos desertos secos e inférteis.
E no deserto da minha mente só encontro um cemitério de memórias.
Por isso fecho os olhos, amo o vento fresco que me despenteia os cabelos que batem no pescoço... e crio miragens...
Eu preciso de saber como te fazer amar-me outra vez.
E outra vez. Sem demora. De hora para hora.
Mais e mais. Sempre mais.
Sê o estalar da pele queimada pelo sol no meu ombro anguloso.
Meu orgasmo de sol.
Sê o frio que me trespassa os dentes quando mordo o cubo de gelo do gin tónico com morangos.
Estou à espera de algo. De alguém.
Observo a chuva. Olho para o céu de braços estendidos e boca aberta.
E penso que finalmente vamos olhar-nos olhos nos olhos. O teu olho cósmico verde aceso. Fixo no meu olhar de sonhadora imortal. Surpreende-me... surpreende-me...
Meu orgasmo de sol...
...na empatia do susto.
Hoje observei-te sem saberes, vi-te a espreitar as formas das nuvens empoleirado descuidadamente numa varanda, e senti que caía na tua vez. A empatia do susto da vertigem aglutina-nos.
Mas afinal tu fumavas um charuto escuro tranquilamente e a vida continuava.
A empatia do susto... na vertigem transposta... qual susto-trovão quando os nossos olhos se confrontarem e misturarem uns nos outros como uma fusão de sabores das almas...
Este ciclone de fogo ou uma gemada açucarada da cor do sol...

terça-feira, 22 de março de 2016

O teu beijo

















O impossível, 
sentir uma multidão de estrelas submergirem-me do corpo,
evaporarem-se como suor de luz de cada poro da pele que veste o meu corpo,
qual constelação arquitectada intuitivamente... 
-Como uma melodia assobiada por um surdo...
As estrelas esticam os seus braços de fogo, 
braços que se estendem como na entrega de um abraço total, 
Raios eléctricos, 
multicoloridos como luminescentes asas de borboleta, 
e as suas cores confundem-se, difundem-se 
-Como um arco-íris de fogo que irradia os céus de todos endeusado numa espécie de fé comum
E as borboletas cósmicas transfiguram suas asas luminescentes 
para pétalas de flores-relâmpago,
 amores-perfeitos tão frágeis e vivos de onde germinam crianças...
O real acto de transformação é em silenciosa fotossíntese das almas.
O impossível, 
semicerrar os olhos como quem beija,
enternecer-me, comover-me, encolhida e abraçada pelos meus próprios braços,
impressionada com a implosão que gera impulso e morre em si mesma logo de seguida instantaneamente,
Acolho a loucura (na alma) como quem acolhe um animal abandonado (em casa)
É incrível como o impossível cresce sem semente nem raíz que o sustente
e cria a ostentação de uma SuperNova!
Flutuo, danço, liberto-me, espontânea, genuína e amante
da vertigem da beira do abismo.
O meu corpo vacila entre os beijos de luz 
irradiados pelo incêndio da SuperNova
Evocando a dança interior de uma índia
Índia, caçadora, céptica,
que em segredo, silencioso ritual
beija os Deuses dos Oceanos, dos Horizontes, no Núcleo das Chamas...
Da Essência da Cor ou
dos intervalos mudos, os segundos de Silêncio na Canção.
E na entrega total à dança apocalíptica 
Coso casulos de fios de seda protectores para as borboletas
Preparo vasos de terra fértil para os amores-perfeitos
E entretanto
A luz que entrou pela minha boca adentro evocando o eco do impossível
O eco de tempestades cardíacas e respirações ciclónicas,
Altera a sua rota,
Dança transcendental,
Viaja como uma estrela cadente
destinada a concretizar desejos carregados de fé.
Vagarosamente as pálpebras dos olhos embevecidos
 abrem-se como janelas até ao reluzir do sol da íris fulminante
-Não sou mais fotossensível.
E eu caio no abismo do espaço galáctico nulo, 
com o corpo nu sujo de terra
a pele queimada pelos fogos estrelares
as pontas dos dedos mordidas pelas agulhas com que tecelei os casulos
e sem horizontes a desejar.
Num aquário-sarcófago que bóia eternamente no cosmos
Mumifico a minha palavra «amo-te».

domingo, 9 de agosto de 2015

Soir de Fête














...o meu sonho, era conquistar essa glória sublime, o direito a voltar a ter sonhos. Dedicava-me determinadamente a construir a minha pirâmide secreta do sucesso a fim de conquistar patamares de repercussão psicológica. Era difícil distinguir os meus movimentos mecanizados de uma máquina industrial. Ando sempre a correr, as minhas pernas não conhecem outro ritmo, são viciadas na adrenalina, tanto para fugir como para alcançar, em todo o caso, para escapar, ora do que me persegue agressivamente, ora do que me frustra pela sua qualidade inalcançável. 
Mas eu sonho! ...e se sonho!
Corria para a farmácia num intervalo não autorizado, e por lapso, denúncia de distração, entrei numa ourivesaria. Fiquei atónita, o meu corpo estava indolente, os meus olhos parados. ...embeveci-me, nunca vi tantas mulheres juntas. O perfume da sua volatilidade embriaga-me, estão sempre tão extraordinariamente emotivas como se estivessem num casamento ou numa maternidade. A sua superioridade surpreende-me. A consistência da sua definição, é a absoluta noção de que as incertezas provêem das certezas.  - Quando estão felizes, estão felizes por estarem felizes. Nos momentos em que estão tristes, sucede o mesmo, não estão apenas tristes, estão tristes. e tristes por estarem tristes. Os seus sentimentos são auto-sustentáveis. As mulheres alimentam os seus perfumes, e vice-versa, as mulheres alimentam-se dos seus perfumes. As mulheres perfumam-me a alma. Se não existissem pulsos de mulheres, não havia lugar no mundo para perfumes. Elas amam, mas acima de tudo, amam o facto de amarem.
 Entretanto chegou a minha vez.O funcionário que me atendeu, olhou para mim firme e serenamente, sem sequer me cumprimentar. Acho que me cumprimentou em silêncio. Pelo menos observou-me de uma forma tão intensa que eu senti que de alguma forma comunicámos e me acolheu amigavelmente. Olhou para mim, depois olhou para a vitrina abaixo dos meus braços e retornou os olhos para os meus. Olhei perdida e confusa.
Já tinha fixado o relógio branco de uma outra cliente. É simples. É útil. Tem pormenores, minúsculos cristaizinhos translúcidos - quaaasee asteróides vagos.
Ele ausentou-se em passos suaves e certos, e voltou vagarosamente com algum suspense. Pousou uma caixa de veludo escuro em cima da mesa, abriu-a inclinada para ele. ...eu começava a sentir umas borboletas curiosas no umbigo, secretamente, mas acho que ele sabia. As verrugas dos cantos dos seus olhos sorriam. 
Sem falar, indicou-me que esticasse o pulso na sua direção. Aceitei, obedeci, não sei porquê. Acho que foi para corresponder à sua expectativa firme. Sentia-me segura, protegida.
Entretanto hesitei. Pensei, não tenho vida interior, não haveria jóia que me refletisse. Não mereço. 
Acho que ele estava a ler todos os obstáculos que me ocorriam como se lhe fosse habitual fazer esse diagnóstico, como se em todas as mentes de todas as mulheres surgissem os mesmos obstáculos abstratos.
 Isso faria de mim, afinal, "vulgar"... o que reconfortou a minha sensação de absurdez.
-Tens medo? Tens medo. - concluiu - Era como se soubesse a resposta desde o princípio. Desde que entrei distraída, por lapso, na ourivesaria, na porta errada.
Respondi alto e bruscamente como quem cospe: - Não tenho medo de nada.
Eu sabia que ele queria observar todos os pormenores...
Não precisou de o dizer. Ansiava, inaudível, o indecifrável.
Observar o meu sem-jeito delicatesse: de receber a pulseira do relógio a esfriar-me levemente a pele; de entrelaçar a fita na fivela prateada, decidindo-me errónea pelo penúltimo furinho; de deslizar as fitas uma sob a outra até me aproximar do fecho final na anilha de suporte. E após o remate... levantar o pescoço satisfeita, com as maçãs do rosto rosadas-romã.
Queria ver o estilo de mulher que eu era interiormente - quais os carreirinhos rurais e paisagens arborívoras da minha vida imaginária, como eu danço platonicamente... - como eu danço, como sou na minha intimidade.
Repito-me: eu sabia. Não precisou de o dizer. Ansiava, inaudível, o indecifrável.
Ele queria deliciar-se com a minha forma de me deliciar, e confrontar os meus olhos conquistados, - consumidores de tão consumados pela jóia - e de mulher exploradora do interior desconhecido. Queria ajudar-me a conhecer-me.
Mas tal era a minha ganância de provar que não tinha medo de nada e de fugir dali... estava fora do meu habitat natural e queria provar que era um camaleão. Ou uma mulher.  
Voltei a estender o pulso nu e frágil na sua direção, tinha dobrado a borda da blusinha. Algum traço no meu rosto traiu-me a contenção, denunciou um misto de curiosidade e inibição. 
Olhei-o defronte com seriedade pela primeira vez. E ele manteve o rosto sereno como um médico numa operação simples. 
-É certo. Não tens medo de nada, porque tens medo de tudo. Desististe das tuas expectativas em relação a tudo, todos os dias acordas convicta de que não tens nada a perder, portanto, obviamente que não tens medo de nada. 
-Que relógio é este? - protestei, desiludida - ...não me pertence, não me traduz, não conversa comigo em silêncio, não me observa na escuridão. 
Entretanto li umas letras itálicas tatuadas na pulseira rosa-pérola do relógio: “Deseja até à morte. E se tiveres medo, vai com medo mesmo. Conquista-te”
Hum... O segredo é esse então...
Conquista-te. Conquista-te. Conquista-te.
Um funcionário muitíssimo sorridente, apressado, sugeriu delicadamente entre o seu discurso difuso de apoio que já há «N» minutos a minha distração ignorava:
- ...e ainda, tem a oportunidade de nos oferecer o valor de troca num plano de prestações...
Ora aí estava uma boa deixa, gratuitamente evitava o prolongamento da conversa.
O meu orgulho foi maior, como uma camada-de-ozono, tal sanguessuga desta atmosfera pré-clímax!
Aproveitei a deixa para escapar da boca-de-cena errada.
Ofendida, pousei o adereço da minha personagem sob o vidro do balcão.
Deixei as luzes acesas para trás, a refletirem-se multiplamente nas vitrines espelhadas da ourivesaria.
O paraíso das joias... Onde uma mulher tímida e discreta vai direta à joia que sabe ser-lhe perfeita, sem hesitações. E outra, controversa, muito determinada e vaidosa, sai com muitos embrulhos para oferta, de nariz torcido, contrariada e altiva, culpabilizando os funcionários pela sua insatisfação crónica... envaidecidamente.
Acompanhei-as na saída, desencontravamo-nos na múltipla porta giratória, com os nossos estilos diferentes. Estilos de amar...
Observei-me desiludida no reflexo da porta giratória. Desmaquilhei-me à vontade como se já estivesse no conforto do meu bastidor particular. ...tinha receio que as lágrimas discretas esborratassem a máscara.
Hum... O segredo é esse então... 
Conquista-te. Conquista-te. Conquista-te.
À frente da ourivesaria estava uma rotunda com várias direções ao meu dispor.
Os meus olhos lampejavam faíscas cor-de-laranja como o pôr-do-sol-de-fogo expectante nos olhos dos amantes.
O pôr-do-sol é insuficiente para mim.
Hoje é o dia. Vou derrubar muros e criar pontes. Acordei para conquistar o mundo.
Explora. Explora. Explora.
Conquista-te. Conquista-te. Conquista-te.
Dentro da minha cabeça aproximava-se, devagar, esmorecido, o eco da música “Soir de Fête”, de Yann Tiersen no filme de Amélie Poulan.
Recria-te. Explora o mapa. ...o jardim da deslindação e os precipícios cósmicos, que te levam aos tesouros interiores mais preciosos.
«Eu quero sentir tudo, de todas as maneiras» - Álvaro de Campos