sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Simbiose - Parte 1

Em pleno êxtase da multidão na meia-noite da viragem de ano os rostos transfiguram-se, como máscaras de cera teatrais que se derretem, e transformam rostos transtornados em felicidades ébrias traduzidas em sorrisos abertos e lágrimas que rolam pelo queixo perdendo-se no pescoço ou no decote ou nas barbas.
(Pausada e hesitantemente prossegue) Sonhamos sempre que "podemos"... E "podemos"...tão poucas vezes. Somos adultos tão cedo e depressa... (inspira contemplativa)
-Ainda estamos a descobrir quais são os nossos sonhos mais vorazes, aqueles que tragam o nosso estômago por dentro e trepam a nossa garganta.
É como a estúpida expressão apaixonada das "borboletas na barriga" a transformarem-se na pintura berrada em desespero "O Grito" de Munch.
«I Love You». Dizemos nós consonantes com uma música que rolou na rádio do carro.
«Je t’aime». Dizemos nós a uma paisagem encontrada numa viagem na Europa.
«Como Eu Te Amo!». Pensamos nós ao sentir o vento bater-nos na cara e cegar-nos com a sua força quando abrimos a janela do carro.
Cuspimos estas palavras hediondas de amor aos estímulos que nos tiroteiam, mas é apenas o desejo de amar simbioticamente a falar mais alto. Não é a música, nem a paisagem, nem o vento. Somos nós. São as nossas almas que são vulneráveis ou não. Hoje eu escolho não ser vulnerável. Porque não tenho condições. (aparte: não escolhi afinal!-cabisbaixa). Não me faltam músicas e não ensurdeci. Estou a ouvir música neste preciso momento. Ainda pra mais música amorosa sobre anjos que morrem. Também não me faltam paisagens. Viajo todos os dias e todos os dias baixo o vidro do carro para as contemplar mais vivamente, com o vento que se faz engolir pela minha boca adentro.
Odeio-me. Por fracassar sempre. Por dar sempre 50 passos atrás depois de subir dois pequenos degraus na escadinha emocional. Sou um anjo que cada vez que constrói as asas e sobe ao telhado para voar, repara que deixou a panela ao lume e isso é mais importante... é uma questão de sobrevivência. And isn’t it ironic?
Hoje eu desisto de todos os meus sonhos.
Abraço a minha barriga, fecho os olhos, e imagino-me iluminada por holofotes. Irónico! A minha última peça de teatro foi sobre a maternidade! Dois sonhos num só. Como dizia a Virginia Woolf «e quando eu pensava que aquilo era o princípio da felicidade, afinal aquilo já era a felicidade». E não voltou a acontecer-me.
E eu do vazio reergui-me, reconstrui-me, recriei-me, desenhei-me, maquilhei-me, disfarcei-me, como numa peça de teatro. E vivo de improviso no dia-a-dia.
Mas aqui neste mundo vertiginoso do meu ciclone emocional da sobrevivência, não cheira à madeira do palco…
O público, como a gente que nos olha pelas ruas, existe para torcer narizes e para aplausos esporádicos.
Mas onde está o actor? Aperto os olhos, e os braços contra a barriga e penso que se não vim a este mundo para trazer a luz ao palco ou dar à luz uma criança, não vim cá fazer nada.
Mais valia dedicar-me a honrar qualquer causa desde que seja forte, não importa se é moral ou imoral, importa que seja intensa. Aliás, eu até daria uma boa espia, uma infiltrada perfeita, pois sei ser tudo e qualquer coisa de todas as maneiras possíveis e ainda não imaginadas.
Sou um prefácio para a ironia! Fracasso em todos os meus sonhos contudo poderia ser tudo quanto quisesse. O que é que me falta? Pensava que era fé por essa palavra me ser tão estrangeira. Mas mesmo depois de a conhecer pessoalmente e conquistar a sua simpatia eu fracassei. E daí, como diz Angellica Liddell: "o meu corpo é o meu fracasso".
O meu corpo é o exemplo esplendor da morte da pantomima e da fertilidade. Se não nasci para criar, se nasci para morrer, porque não sou uma espia sem vida, impulsionada por uma causa? Corre-me nas veias uma força enraivecida que tem de se despojar em algum destes lugares interiores e fazer-se habitar no outro.
Poderei ser uma dona de casa desesperada a cuidar do seu jardim? Renuncio.
Renuncio ao fracasso da felicidade simplória. Só cuidarei dos nossos vasos…se forem NOSSOS. Meus e do meu público germinando em si catarticamente. Ou meus e do meu filho, germinando-se o mesmo no meu vaso interior. Meu amor-perfeito… conceptualmente criado e tão mármor-iozamente real…
O meu rosto é a expressão esplendor da morte da pantomima e da fertilidade.
Renuncio ao fracasso da felicidade simplória de cuidar dos vasos do meu jardim. Quando, no meu vaso uterino, reluz esperança: o germinar da origem. A perfeita simbiose da mãe-grávida, mais bela que o etéreo sagitário.

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