quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Amor-Aborígene


Todos os sóis e todas as luas se multiplicaram
- como se fossem reflexos de recortes de um abajour celeste, de papel amarelo e branco, de um candeeiro aceso no céu.
Uma lâmpada quente gigante beija-me a boca
 - AH! 
E no céu maximamente crescendo,
todas as estrelas mingam - pontinhos encolhidos como borbotos tímidos. Sem valor e sem-abrigo. Tais olhos apagados. Pratas roubadas. Orvalhos ludibriados latentes.
É a maior guerra das estrelas!, os cães do céu vão comer-me viva! Tais lobisomens da sedução.
Oh... Então o vale encantado é um destino válido: as instruções tatuadas nas folhas-de-estrela são mais que promessas reais. São paraísos palpáveis. São ilhas plantadas em cada impressão digital da tua mão aborígene.
Sou astronauta enquanto o céu for impossível. Sou canibal enquanto o amor for invisível.
E até lá, até lá sou absurda. Um transeunte num iglô aguardando o Verão. Fixo inerte o pó-de-estrela inválido que bronzeia as mãos pobres.
O chão estala-me debaixo do pés. Há foguetões no ventre da terra. E a direcção é o vácuo no meu coração. Um buraco negro no cosmos. Consome-me. Consome-me. Some-me.
ELAH...! - silêncio, por favor. 

sábado, 8 de março de 2014

How Empty is Born.

Ameaçaram-nos?
Vão feri-los?
Vão matá-los?
NÃO!
Não quero ouvir.
Não suporto.
NÃO!
Não vai acontecer.
Esconde-os.
Leva-os para longe.
Altera as suas identidades.
Oferece-os. São tão bonitos. Qualquer um os vai querer.
NÃO!
São meus! Ninguém mos tira. Ninguém lhes toca.
NÃO!
Não está a acontecer. É impossível. É uma fantasia tua. DESMENTE - desmente tudo imediatamente.
AHAHHAHAH !
Como é que foste capaz de dizer um absurdo desses?
Como é que foste capaz de me matar desta forma?
AHAHAAHAH !
Belo sentido de humor. A minha ausêcia ensinou-te algumas coisas.
Então sentias-te sozinha e telefonaste-me para me contar uma história que me levasse a dar-te toda a atenção do mundo, é isso, mãe?
São tão bonitos não são?
Os meus coelhos...
Deve ter sido bonito vê-los morrer.
Era impossível não ser.
São tão bonitos...
Mas vão continuar a ser meus depois de mortos, não vão?
Primeiro foi o veneno de rato que eu e eles comemos à golada como se não houvesse amanhã.
Colher por colher, tal era a inveja da nossa senhoria à minha inteligência - pois bem, eu continuo a ser o máximo, superior a todos, e não me exalto. Sabe o que é que o veneno não mata?, o carácter e a força de vontade, a afasia é recuperável e as alergias são suportáveis.
E agora quer matar a única coisa que eu amo?
São tão bonitos...
Vi-os crescer.
São perfeitos.
Um tem orelhas curtas e eriçadas, outro tem orelhas longas e farfalhudas, e outro tem orelhas longas e eriçadas.
AHAHAHHA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAUH ! - choro convulsivo.
O pior de tudo é a dúvida, já morreram?, já os feriram?, estão a subir as escadas e eles pressentindo a morte escondem-se assustados?, e pensam: «onde é que a Ana está?» pergunta um; «odeio-te filha da puta, odeio-te!» diz outro; «todas aquelas coisas, a gaiola gigante com a porta sempre aberta para eu correr pela casa, a bola de corrida com biscoitos de amora para o coelho mais atlético que fosse capaz de a empurrar; as taças de metal sempre com água fresca; os passeios no jardim das Abadias com e sem trela; as cenouras raladas só ao fim-de-semana para não desregularem os nossos intestinos; os banhos e secagem do pêlo com o teu secador; a pedra de cálcio para limarmos as unhas; as dormidas debaixo da tua cama, que nos parecia uma toca gigante... era tudo mentira e fantasia, agora que estamos em perigo... onde estás Ana?, Ana?, Ana?, Ana?».
Mesmo depois de morrerem são meus, não são?
«Ana, Ana, Ana, Ana, Ana.»
O meu nome grita e ecoa dentro do estômago morto de três coelhos bonitos.