sábado, 8 de junho de 2013

Deformação - Monólogo


 












Que idade tenho eu? Sim, que idade tenho? Que espécie de monstro sou eu? Que deformação…?
Repito para mim própria - tenho as memórias íntimas de uma mulher, como se uma mulher habitasse algures dentro de mim, e me confidenciasse os seus segredos o mais pormenorizadamente possível, e o seu corpo ínfimo se esticasse, crescendo, e esperneasse lentamente, procurando embrenhar os seus membros nos meus, vestir-se com a minha pele, sentir o suor humedecer-me os poros, sentir as partículas do ar de cá de fora como a um calafrio. Está nua. Estou nua - e séptica. Sirvo-lhe como uma luva aos dedos, ou uma meia-de-vidro nas pernas. Não poderíamos ser mais próximas. (Graças a si) - repito - Tenho os desejos românticos de uma mulher. Tenho a aparência de uma mulher, tenho mamas. Tenho fios de cabelo. Muitos. Crespos. Olho para todas as mulheres em redor, e reparo que muitas delas não se sentem muito mulheres, senão porque usariam tanto batom, tantas pulseiras… senão por se sentirem incompletas? O meu odor é estéril como o álcool. As minhas inimigas cheiram a perfume. Quando eu era uma mulher, não era vaidosa, o meu tacto valia por si só. A minha sensibilidade feminina, e a minha capacidade sensorial. Era auto-confiante. Estou apática. Estou insensível. Estou morta. Repito, vezes sem conta, que tenho as memórias, os desejos, a aparência, de uma mulher, logo sou uma mulher, mas é mentira, é mentira. Sou uma criança?, sou uma velha? Em que posição devo sentar-me, então? Que espécie de monstro sou eu? Não sou um homem nem uma mulher nem um animal. As estrelas-do-mar auto-reproduzem-se. São sozinhas mas criam astros futuros. Não morrem em si mesmas. Multiplicam-se. Em mim só se multiplicam os lugares vazios. Como num céu denso azul-escuro se multiplicam as estrelas pálidas e prateadas. E infelizmente, não é por serem milenares ou recém-nascidas, únicas ou múltiplas, que ferem menos, que brilham menos, essas cadeiras de ausências, mentiras, nostalgias. Sou uma deformação autêntica.


Um comentário:

Sermões Silenciosos disse...

Tu nunca te perdes pois sabes sempre onde estás. Embora isso possa ser extremamente doloroso, não constitui uma perdiçâo. Isso é que é fantástico em ti. E és definitivamente uma mulher. Diria...Deliciosa ?!

«Repito para mim própria - tenho as memórias íntimas de uma mulher, como se uma mulher habitasse algures dentro de mim, e me confidenciasse os seus segredos o mais pormenorizadamente possível, e o seu corpo ínfimo se esticasse, crescendo, e esperneasse lentamente, procurando embrenhar os seus membros nos meus, vestir-se com a minha pele, sentir o suor humedecer-me os poros, sentir as partículas do ar de cá de fora como a um calafrio. Está nua. Estou nua - e séptica. Sirvo-lhe como uma luva aos dedos, ou uma meia-de-vidro nas pernas. Não poderíamos ser mais próximas. (Graças a si) - repito - Tenho os desejos românticos de uma mulher. Tenho a aparência de uma mulher, tenho mamas. Tenho fios de cabelo. Muitos.»