Eu não me lembro da minha cara.
Eu não me lembro do mundo.
Eu não me lembro de quem sou.
Eu não me lembro de como se entoam
as frases e as palavras.
Eu não me lembro de como gosto das
pessoas de quem gosto.
Eu não me lembro de como me
ria.
Eu não me lembro de como se
chora.
Eu não me lembro de como me
enfurecer.
Eu não me lembro de como
reagir.
Eu estou apática.
Eu sinto uma dor que não se sente e
não se comunica.
Eu esqueci a linguagem
Eu não tenho memória.
Eu não me lembro da última vez em
que fui vulnerável.
Eu não tenho riqueza
interior.
Eu não tenho histórias para
contar.
Eu não tenho uma família
interior,
- que relacione pensamentos,
emoções e palavras.
Eu não tenho tacto.
Não compreendo os sentimentos dos
outros.
Não relaciono as suas expressões
com intenções.
Eu não absorvo impressões.
Eu não tenho tacto.
A minha pele não é a minha
pele.
É de um material estranho.
O revestimento bocal tem a textura
de um molusco.
Estou a transformar-me, estou
(con)fundida.
Não me lembro de quem são as minhas
mãos.
Não tenho fome. Como.
Tenho sono. Não durmo.
Existe um enorme distanciamento
entre o eu dilacerado
- que chora e grita,
e o eu apático
- que se move e respira.
O critério conclusivo da validez de
uma pessoa
é a verificação da cabeça em cima
do pescoço.
Eu não me lembro de quem sou.
Eu imito-me.
Imito as minhas reacções o mais
fielmente possível.
Consoante as expectativas e os
compromissos residentes.
Eu não esqueci os afectos.
Teoricamente, eu amo quem eu amo.
O que perco com o tempo e o
espaço
que perco é insuportavelmente
indolor.
A apatia é invencível.
Desejo incendiar-me.
Quero o meu corpo de volta!
Quero os meus desejos de
volta!
Quero a minha casa de volta!
Quero a minha língua de
volta!
O inimigo é invencível.
Todas as estratégias são
contraproducentes.
Não há labirintos.
- Os mapas são vasculhos.
Não há linguagem.
- As onomatopeias são
vasculhos.
Fui amputada e lobotomizada até à
neuropatia.
AH! - desta vez não escapo intacta às
lesões da vida!
Rio-me furibunda.
...

