terça-feira, 11 de junho de 2013

INtacto














Eu não me lembro da minha cara. 
Eu não me lembro do mundo. 
Eu não me lembro de quem sou.
Eu não me lembro de como se entoam as frases e as palavras. 
Eu não me lembro de como gosto das pessoas de quem gosto. 
Eu não me lembro de como me ria. 
Eu não me lembro de como se chora. 
Eu não me lembro de como me enfurecer. 
Eu não me lembro de como reagir. 
Eu estou apática.
Eu sinto uma dor que não se sente e não se comunica. 
Eu esqueci a linguagem
Eu não tenho memória.
Eu não me lembro da última vez em que fui vulnerável. 
Eu não tenho riqueza interior. 
Eu não tenho histórias para contar. 
Eu não tenho uma família interior, 
- que relacione pensamentos, emoções e palavras. 
Eu não tenho tacto. 
Não compreendo os sentimentos dos outros. 
Não relaciono as suas expressões com intenções. 
Eu não absorvo impressões. 
Eu não tenho tacto. 
A minha pele não é a minha pele. 
É de um material estranho. 
O revestimento bocal tem a textura de um molusco. 
Estou a transformar-me, estou (con)fundida. 
Não me lembro de quem são as minhas mãos. 
Não tenho fome. Como. 
Tenho sono. Não durmo. 
Existe um enorme distanciamento entre o eu dilacerado  
- que chora e grita, 
e o eu apático 
- que se move e respira. 
O critério conclusivo da validez de uma pessoa
é a verificação da cabeça em cima do pescoço. 
Eu não me lembro de quem sou.
Eu imito-me. 
Imito as minhas reacções o mais fielmente possível. 
Consoante as expectativas e os compromissos residentes. 
Eu não esqueci os afectos. 
Teoricamente, eu amo quem eu amo. 
O que perco com o tempo e o espaço 
que perco é insuportavelmente indolor. 
A apatia é invencível. 

Desejo incendiar-me.
Quero o meu corpo de volta! 
Quero os meus desejos de volta! 
Quero a minha casa de volta! 
Quero a minha língua de volta! 
O inimigo é invencível. 
Todas as estratégias são contraproducentes. 
Não há labirintos. 
- Os mapas são vasculhos. 
Não há linguagem. 
- As onomatopeias são vasculhos. 
Fui amputada e lobotomizada até à neuropatia. 
AH! - desta vez não escapo intacta às lesões da vida! 
Rio-me furibunda.
...
                                                                               






sábado, 8 de junho de 2013

Deformação - Monólogo


 












Que idade tenho eu? Sim, que idade tenho? Que espécie de monstro sou eu? Que deformação…?
Repito para mim própria - tenho as memórias íntimas de uma mulher, como se uma mulher habitasse algures dentro de mim, e me confidenciasse os seus segredos o mais pormenorizadamente possível, e o seu corpo ínfimo se esticasse, crescendo, e esperneasse lentamente, procurando embrenhar os seus membros nos meus, vestir-se com a minha pele, sentir o suor humedecer-me os poros, sentir as partículas do ar de cá de fora como a um calafrio. Está nua. Estou nua - e séptica. Sirvo-lhe como uma luva aos dedos, ou uma meia-de-vidro nas pernas. Não poderíamos ser mais próximas. (Graças a si) - repito - Tenho os desejos românticos de uma mulher. Tenho a aparência de uma mulher, tenho mamas. Tenho fios de cabelo. Muitos. Crespos. Olho para todas as mulheres em redor, e reparo que muitas delas não se sentem muito mulheres, senão porque usariam tanto batom, tantas pulseiras… senão por se sentirem incompletas? O meu odor é estéril como o álcool. As minhas inimigas cheiram a perfume. Quando eu era uma mulher, não era vaidosa, o meu tacto valia por si só. A minha sensibilidade feminina, e a minha capacidade sensorial. Era auto-confiante. Estou apática. Estou insensível. Estou morta. Repito, vezes sem conta, que tenho as memórias, os desejos, a aparência, de uma mulher, logo sou uma mulher, mas é mentira, é mentira. Sou uma criança?, sou uma velha? Em que posição devo sentar-me, então? Que espécie de monstro sou eu? Não sou um homem nem uma mulher nem um animal. As estrelas-do-mar auto-reproduzem-se. São sozinhas mas criam astros futuros. Não morrem em si mesmas. Multiplicam-se. Em mim só se multiplicam os lugares vazios. Como num céu denso azul-escuro se multiplicam as estrelas pálidas e prateadas. E infelizmente, não é por serem milenares ou recém-nascidas, únicas ou múltiplas, que ferem menos, que brilham menos, essas cadeiras de ausências, mentiras, nostalgias. Sou uma deformação autêntica.