Envelheci. Após todas as soluções conjecturadas, após todas as lutas incessantes, após o fracasso dos resultados inúteis. Após os lutos. Recomeçar constantemente é já uma máxima. Não quero mais nada deste mundo.
Acho que
estou triste. «Acho» - a dúvida provém da falta de familiaridade com a
sensação. O reconhecimento da (afinal) possibilidade de concretização de
episódios felizes, entristece. A noção de que não tenho nada a perder,
entristece. Quando redescobri a possibilidade de voltar a tocar o mundo, quis
tudo a que tivesse direito, inclusivamente a exigir demais e a queixar-me
insatisfeita. Entristece, reconhecer que desconhecia qualquer uma destas
sensações. Preciso que alguém me berre os meus direitos.
Reconheço que
não tenho nada a perder. Sou pobre. Primitiva. Sem nuances emocionais. Apenas
emoções de sobrevivência. Alerta sob ameaça. Fingir que está tudo bem. Negar os
desejos. Maximizar as necessidades. Ter três olhos bem abertos. Ter um olho
aberto e outro fechado – e a dormir também.
---
Ter máscaras descartáveis. Uma vez quis escancarar os falsos eus, mas por detrás era só oco, e não saberia como estar, para além de me sentar numa cadeira atrás de uma secretária nas horas em que era funcionária; dar a mão ao meu companheiro nas horas em que era comprometida; dizer adeus à minha mãe quando terminavam as horas em que era filha; sentar-me no café e conversar nas horas respectivas de convívio – e agora que falo nisto, observo que existiam horas fixas para tudo.
A variedade
das personagens, não descartava a variedade de humores de cada uma. As horas de
convívio tornavam-me extraordinariamente sociável, ao contrário das horas que
em que trabalhava, em que era extraordinariamente séria, e profissional –
distinguindo com ênfase que, estando posicionada dentro de uma hierarquia, com
a gerente devo ser assertiva enquanto que com o cliente devo ser diplomática.
Quando não havia mais papéis a cumprir, sentava-me a averiguar e planear: se desta vez seria bem sucedida, o que aconteceria se interrompesse os hábitos e rasgasse o desenho, como faria sentido que aproveitasse aquele tempo produtivamente, ou talvez, como faria sentido que aquela personagem ocupasse as horas vagas – engomar camisas, contabilizar facturas, ver o telejornal…
Até que me
esqueci do labirinto entre mim e o meu rosto escancarável. Não soube mais o que
censurar. Sou um impulso impertinente. Como quem esquece a linguagem que o
relaciona com o mundo, perdi a minha habilidade especial para criar e recriar empatias
artificiais com os objectos e as pessoas. A minha habilidade para associar
novos ângulos do rosto e criar novas personagens e histórias.
Após todas as
lutas e todos os lutos, ciclicamente, não quero mais nada deste mundo. Após a
vez em que reconheci a hipótese de ser feliz no lugar de sobreviver, não quero
mais nada deste mundo.
Pairo,
suspensa. Recuso-me a reconstruir-me. A moldar-me, deformar-me, como
plasticina. Recuso-me a negar-me. Estou apática. Não quero nada. Nem sequer
quero querer nada. Recuso-me a contrariar-me. A disciplinar-me, sendo outro.
Ana Outro, fui. Quando estou apática, não me sinto envolvida com o mundo, não
me sinto comprometida, não sinto prazer algum, não sinto curiosidade alguma.
Contudo, estou apática, e sinto um certo envolvimento comigo própria. Quando me
sentia desaparecer, falava, falava, falava, histericamente, expectante de que
as palavras me envolvessem no mundo dos outros. Agora, as várias camadas
associaram-se, e no lugar de se criarem máscaras que me ausentam, sou uma
estátua oca, vazia, apática, branca. Quando preciso de recorrer a soluções
práticas, ocorre-me recordar as histórias das bonecas – os padrões. Mas é
inútil. Sou incapaz de me disciplinar. Aliás, neste momento quase não distingo
se não sou capaz ou se não me apetece.
Vivo com esta
dúvida em relação à minha mãe. Se é incapaz ou preguiçosa. Também vivia com
esta dúvida em relação ao meu ex-namorado. Se era incapaz ou preguiçoso. Até
que me apercebi de que essa dúvida me fazia ser condescendente com eles – não
exigir nem esperar nada de útil e ignorar quando erravam.
A minha mãe
não me bate nem berra comigo, a minha mãe finge que não me ouve, e eu repito-me
tantas vezes perante a ausência de resposta que chego a duvidar se terei falado
ou não. Eu não a culpo das escolhas que faço, culpo-a do leque de opções com que me debato.
Chego a um ponto em que me apetece abaná-la.
O meu
ex-namorado ausentava-se quando eu estava em apuros «para não incomodar».
Expliquei-lhe que não precisava de uma planta. Repeti-me tantas vezes e mudei
tantas vezes de estratégia de comunicação: conversar, conversar eloquentemente,
conversar com termos simples (passei-lhe um atestado de estupidez, a uma dada
altura), pedir por favor, exigir, ser-lhe útil para dar o exemplo, ignorar os
pedidos de socorro dele como troca justa, humilhá-lo, vingar-me. A melhor
resposta que conseguia da parte dele era «não tenho obrigação».
Aliás, a
maioria das pessoas rege-se pela moral de que não tem quaisquer obrigações de
prestabilidade para com os outros, e fazem o que gostam de fazer por quem
gostam de o fazer. Não posso estar certa e o mundo errado. Mas não compreendo
um mundo onde eu dou e quando peço o retorno me respondem que sou muito
exigente e dramática.
Estas respostas
movem o chão, originam crises de valores, que me levam a pensar e repensar as
relações, reformulando alternadamente a minha postura entre negociante e
abruptamente honesta. Com episódios dramáticos de sensação de desmistificação
de uma relação forte, em que duvido do significado verdade/ mentira da relação.
Contabilizo os erros e as humilhações, para reformular e gerir a hierarquia até
voltar a normalizar os sentimentos em relação ao outro.
Recordo as
bonecas, os padrões… Estou morta. Recuso-me a criar. Estou inábil para criar
outros. Estou suspensa e flutuante. Vaga. Contudo, não distante. Existo. Mas
não sou nada. Quando era inexistente, era tantos, era numerosa. Pairo.
Reflicto-me. Reflicto como um vidro transparente e luminoso, de uma vitrina vazia.
Os cabides são nus, desinteressantes. Hoje sou uma excepção. Digo: não me
apetece. Sou uma criança. Com gestos pueris. Não há maneirismos tensos e
controlados. Há impulsos impertinentes e indolentes. Pareço determinada, não há
indecisões absurdas, não há que escolher entre o que penso e o que sinto. O que
digo são balas. As palavras são firmes. Não me contrariam. Não são próprias de
apenas um fragmento meu. Há algo de uno. E oco. A ausência do puzzle. E a
esterilidade. Estou de luto e sou estéril. Mas existo. Estou infeliz. Não estou
histérica a recriar personagens e soluções – o Outro-Inexistente, extinguiu-se.
Pairo, suspensa. Não sou outro, contudo também não sou eu, não sou ninguém. Sou
zero. Sou vácuo. Mas não anulado. Não conformado. Não passivo. Sou zero. Não
tenho nada a perder. Agora tudo é possível. Agora poderia querer tudo do mundo:
quero tudo, quero queixar-me, estou insatisfeita, tenho desejos, exijo tudo
aquilo a que tenho direito, não me apetece cumprir mais deveres, parti a régua
mental que analisava constantemente o meu nível de auto-controlo, sobriedade e
utilidade, rompi a corda esticada obsessivamente, os limites, portanto, não,
agora, não quero nada do mundo. Pairo, suspensa. Óbvio que sim. Óbvio que não.
Óbvio que sim. Óbvio que não.
A apatia
emocional combinada com a recusa em agir, formula uma nova família interior,
não digo identidade, porque além de que não me reconheço nela, combina diversos
membros, o pensar, o sentir, o falar, o agir. Fui mestra da ausência, do
labirinto entre o eu e a máscara, da censura, do esquema, da conveniência.
Formulei uma nova família interior que castra o poder da indecisão, tornando-me
coerente, contudo, continuo a não ser inteira. Existe uma nova sensação de uno.
No entanto, essa unidade das fragmentações é vazia - é maciça, e não plástica
ou elástica, como antes. Perdi a habilidade para adaptabilidade. Sou
determinada. Mas vazia.
A minha vida
interior é a racionalização da insanidade do facto de viver como uma boneca,
óbvio. O que não era óbvio era o facto de me relacionar com os outros como se
fossem também bonecos, esperando que respeitem seguramente o quadro
estereotipado que sistematizei para prever os seus comportamentos, e
deixando-me apavorada quando não correspondem à figura. Assim vivo dentro de
uma casa de bonecas, onde faço questão de garantir a presença das figuras
essenciais: o correto; o impulsivo; o manipulador. Quando o correto erra, é
egoísta ou deixa de ser moderado, quando o impulsivo é auto-controlado ou
prudente, quando o manipulador é transparente ou espontâneo, julgo que todas as
pessoas têm dois lados e torno-me sarcástica.
...
Oh, o mundo é
maravilhoso. Oh, o mundo é uma merda.
Envelheci. Após todas as soluções
conjeturadas, após todas as lutas incessantes, após o fracasso dos resultados
inúteis. Após os lutos. Recomeçar constantemente é já uma máxima. Não quero
mais nada deste mundo.
Acho que estou triste. «Acho» - a dúvida
provém da falta de familiaridade com a sensação. O reconhecimento da (afinal) possibilidade
de concretização de episódios felizes, entristece. A noção de que não tenho
nada a perder, entristece. Quando redescobri a possibilidade de voltar a tocar
o mundo, quis tudo a que tivesse direito, inclusivamente a exigir demais e a
queixar-me insatisfeita. Entristece, reconhecer que desconhecia qualquer uma
destas sensações. Preciso que alguém me berre os meus direitos.
Reconheço que não tenho nada a perder. Sou
pobre. Primitiva. Sem nuances emocionais. Apenas emoções de sobrevivência.
Alerta sob ameaça. Fingir que está tudo bem. Negar os desejos. Maximizar as
necessidades. Ter três olhos bem abertos. Ter um olho aberto e outro fechado –
e a dormir também.
…
Ter máscaras descartáveis. Uma vez quis
escancarar os falsos eus, mas por
detrás era só oco, e não saberia como estar, para além de me sentar numa
cadeira atrás de uma secretária nas horas em que era funcionária; dar a mão ao
meu companheiro nas horas em que era comprometida; dizer adeus à minha mãe
quando terminavam as horas em que era filha; sentar-me no café e conversar nas
horas respetivas de convívio – e agora que falo nisto, observo que existiam
horas fixas para tudo.
A variedade das personagens, não descartava a
variedade de humores de cada uma. As horas de convívio tornavam-me
extraordinariamente sociável, ao contrário das horas que em que trabalhava, em
que era extraordinariamente séria, e profissional – distinguindo, com ênfase,
que estando posicionada dentro de uma hierarquia, com a gerente se é assertivo,
e com o cliente se é diplomático.
Por fim, quando não havia mais papéis a
cumprir, sentava-me sossegada e inquieta a averiguar e planear: se desta vez
seria bem sucedida, o que aconteceria se interrompesse os hábitos e rasgasse o
desenho, como faria sentido que aproveitasse aquele tempo produtivamente, ou
talvez, como faria sentido que aquela personagem ocupasse as horas vagas –
engomar camisas, contabilizar faturas, ver o telejornal…
Até que me esqueci do labirinto entre mim e o
meu rosto escancarável. Não soube mais o que censurar. Sou um impulso
impertinente. Como quem esquece a linguagem que o relaciona com o mundo, perdi
a minha habilidade especial para criar e recriar empatias artificiais com os
objetos e as pessoas. A minha habilidade para associar novos ângulos do rosto e
criar novas personagens e histórias.
Após todas as lutas e todos os lutos,
ciclicamente, não quero mais nada deste mundo. Após a vez em que reconheci a
hipótese de ser feliz no lugar de sobreviver, não quero mais nada deste mundo.
Pairo, suspensa. Recuso-me a reconstruir-me.
A moldar-me, deformar-me, como plasticina. Recuso-me a negar-me. Estou apática.
Não quero nada. Nem sequer quero querer nada. Recuso-me a contrariar-me. A
disciplinar-me, sendo outro. Ana Outro, fui. Quando estou apática, não me sinto
envolvida com o mundo, não me sinto comprometida, não sinto prazer algum, não
sinto curiosidade alguma. Contudo, estou apática, e sinto um certo envolvimento
comigo própria. Quando me sentia desaparecer, falava, falava, falava,
histericamente, expectante de que as palavras me envolvessem no mundo dos
outros. Agora, as várias camadas associaram-se, e no lugar de se criarem
máscaras que me ausentam, sou uma estátua oca, vazia, apática, branca. Quando
preciso de recorrer a soluções práticas, ocorre-me recordar as histórias das
bonecas – os padrões. Mas é inútil. Sou incapaz de me disciplinar. Aliás, neste
momento quase não distingo se não sou capaz ou se não me apetece.
Vivo com esta dúvida em relação à minha mãe.
Se é incapaz ou preguiçosa. Também vivia com esta dúvida em relação ao meu
ex-namorado. Se era incapaz ou preguiçoso. Até que me apercebi de que essa
dúvida me fazia ser condescendente com eles – não exigir nem esperar nada de
útil, ignorar quando erravam e elogiar quando acertavam.
A minha mãe não me bate nem berra comigo, a
minha mãe finge que não me ouve, e eu repito-me tantas vezes perante a ausência
de resposta que chego a duvidar se terei falado ou não. Eu não a culpo das
escolhas que faço, culpo-a das opções que reconheço. Chego a um ponto em que me
apetece abaná-la.
O meu ex-namorado ausentava-se quando eu
estava em apuros «para não incomodar». Expliquei-lhe que não precisava de uma
planta. Repeti-me tantas vezes e mudei tantas vezes de estratégia de
comunicação: conversar, conversar eloquentemente, conversar com termos simples
(passei-lhe um atestado de estupidez, a uma dada altura), pedir por favor,
exigir, ser-lhe útil para dar o exemplo, ignorar os pedidos de socorro dele
como troca justa, humilhá-lo, vingar-me. A melhor resposta que conseguia da
parte dele era «não tenho obrigação».
Aliás, a maioria das pessoas rege-se pela
moral de que não tem quaisquer obrigações de prestabilidade para com os outros,
e fazem o que gostam de fazer por quem gostam de o fazer. Não posso estar certa
e o mundo errado. Mas não compreendo um mundo onde eu dou e quando peço o
retorno me respondem que sou muito exigente e dramática.
Estas respostas movem o chão, originam crises
de valores, que me levam a pensar e repensar as relações, reformulando
alternadamente a minha postura entre negociante e abruptamente honesta. Com
episódios dramáticos de sensação de desmistificação de uma relação forte, em
que duvido do significado verdade/ mentira da relação. Contabilizo os erros e
as humilhações, para reformular e gerir a hierarquia até voltar a normalizar os
sentimentos em relação ao outro.)
Recordo as bonecas, os padrões… Estou morta.
Recuso-me a criar. Estou inábil para criar outros. Estou suspensa e flutuante.
Vaga. Contudo, não distante. Existo. Mas não sou nada. Quando era inexistente,
era tantos, era numerosa. Pairo. Reflito-me. Reflito como um vidro transparente
e luminoso, de uma vitrina vazia. Os cabides são nus, desinteressantes. Hoje
sou uma exceção. Digo: não me apetece. Sou uma criança. Com gestos pueris. Não
há maneirismos tensos e controlados. Há impulsos impertinentes e indolentes.
Pareço determinada, não há indecisões absurdas, não há que escolher entre o que
penso e o que sinto. O que digo são balas. As palavras são firmes. Não me
contrariam. Não são próprias de apenas um fragmento meu. Há algo de uno. E oco.
A ausência do puzzle. E a esterilidade. Estou de luto e sou estéril. Mas existo.
Estou infeliz. Não estou histérica a recriar personagens e soluções – o Outro-Inexistente, extinguiu-se.
Pairo, suspensa. Não sou outro, contudo também não sou eu, não sou ninguém. Sou
zero. Sou vácuo. Mas não anulado. Não conformado. Não passivo. Sou zero. Não
tenho nada a perder. Agora tudo é possível. Agora poderia querer tudo do mundo:
quero tudo, quero queixar-me, estou insatisfeita, tenho desejos, exijo tudo
aquilo a que tenho direito, não me apetece cumprir mais deveres, parti a régua
mental que analisava constantemente o meu nível de autocontrolo, sobriedade e
utilidade, rompi a corda esticada obsessivamente, os limites, portanto, não,
agora, não quero nada do mundo. Pairo, suspensa. Óbvio que sim. Óbvio que não.
Óbvio que sim. Óbvio que não.
A apatia emocional combinada com a recusa em
agir, formula uma nova família interior, não digo identidade, porque além de
que não me reconheço nela, combina diversos membros, o pensar, o sentir, o
falar, o agir. Fui mestra da ausência, do labirinto entre o eu e a máscara, da censura, do esquema,
da conveniência. Formulei uma nova família interior que castra o poder da
indecisão, tornando-me coerente, contudo, continuo a não ser inteira. Existe
uma nova sensação de uno. No entanto, essa unidade das fragmentações é vazia -
é maciça, e não plástica ou elástica, como antes. Perdi a habilidade para
adaptabilidade. Sou determinada. Mas vazia.
A minha vida interior é a racionalização da
insanidade do facto de viver como uma boneca, óbvio. O que não era óbvio era o
facto de me relacionar com os outros como se fossem também bonecos, esperando
que respeitem seguramente o quadro estereotipado que sistematizei para prever
os seus comportamentos, e deixando-me apavorada quando não correspondem à
figura. Assim vivo dentro de uma casa de bonecas, onde faço questão de garantir
a presença das figuras essenciais: o correto; o impulsivo; o manipulador.
Quando o correto erra, é egoísta ou deixa de ser moderado, quando o impulsivo é
autocontrolado ou prudente, quando o manipulador é transparente ou espontâneo,
julgo que todas as pessoas têm dois lados e torno-me sarcástica.
…
Oh, o mundo e maravilhoso. Oh, o mundo e uma
merda.
Envelheci. Após todas as soluções
conjeturadas, após todas as lutas incessantes, após o fracasso dos resultados
inúteis. Após os lutos. Recomeçar constantemente é já uma máxima. Não quero
mais nada deste mundo.
Acho que estou triste. «Acho» - a dúvida
provém da falta de familiaridade com a sensação. O reconhecimento da (afinal) possibilidade
de concretização de episódios felizes, entristece. A noção de que não tenho
nada a perder, entristece. Quando redescobri a possibilidade de voltar a tocar
o mundo, quis tudo a que tivesse direito, inclusivamente a exigir demais e a
queixar-me insatisfeita. Entristece, reconhecer que desconhecia qualquer uma
destas sensações. Preciso que alguém me berre os meus direitos.
Reconheço que não tenho nada a perder. Sou
pobre. Primitiva. Sem nuances emocionais. Apenas emoções de sobrevivência.
Alerta sob ameaça. Fingir que está tudo bem. Negar os desejos. Maximizar as
necessidades. Ter três olhos bem abertos. Ter um olho aberto e outro fechado –
e a dormir também.
…
Ter máscaras descartáveis. Uma vez quis
escancarar os falsos eus, mas por
detrás era só oco, e não saberia como estar, para além de me sentar numa
cadeira atrás de uma secretária nas horas em que era funcionária; dar a mão ao
meu companheiro nas horas em que era comprometida; dizer adeus à minha mãe
quando terminavam as horas em que era filha; sentar-me no café e conversar nas
horas respetivas de convívio – e agora que falo nisto, observo que existiam
horas fixas para tudo.
A variedade das personagens, não descartava a
variedade de humores de cada uma. As horas de convívio tornavam-me
extraordinariamente sociável, ao contrário das horas que em que trabalhava, em
que era extraordinariamente séria, e profissional – distinguindo, com ênfase,
que estando posicionada dentro de uma hierarquia, com a gerente se é assertivo,
e com o cliente se é diplomático.
Por fim, quando não havia mais papéis a
cumprir, sentava-me sossegada e inquieta a averiguar e planear: se desta vez
seria bem sucedida, o que aconteceria se interrompesse os hábitos e rasgasse o
desenho, como faria sentido que aproveitasse aquele tempo produtivamente, ou
talvez, como faria sentido que aquela personagem ocupasse as horas vagas –
engomar camisas, contabilizar faturas, ver o telejornal…
Até que me esqueci do labirinto entre mim e o
meu rosto escancarável. Não soube mais o que censurar. Sou um impulso
impertinente. Como quem esquece a linguagem que o relaciona com o mundo, perdi
a minha habilidade especial para criar e recriar empatias artificiais com os
objetos e as pessoas. A minha habilidade para associar novos ângulos do rosto e
criar novas personagens e histórias.
Após todas as lutas e todos os lutos,
ciclicamente, não quero mais nada deste mundo. Após a vez em que reconheci a
hipótese de ser feliz no lugar de sobreviver, não quero mais nada deste mundo.
Pairo, suspensa. Recuso-me a reconstruir-me.
A moldar-me, deformar-me, como plasticina. Recuso-me a negar-me. Estou apática.
Não quero nada. Nem sequer quero querer nada. Recuso-me a contrariar-me. A
disciplinar-me, sendo outro. Ana Outro, fui. Quando estou apática, não me sinto
envolvida com o mundo, não me sinto comprometida, não sinto prazer algum, não
sinto curiosidade alguma. Contudo, estou apática, e sinto um certo envolvimento
comigo própria. Quando me sentia desaparecer, falava, falava, falava,
histericamente, expectante de que as palavras me envolvessem no mundo dos
outros. Agora, as várias camadas associaram-se, e no lugar de se criarem
máscaras que me ausentam, sou uma estátua oca, vazia, apática, branca. Quando
preciso de recorrer a soluções práticas, ocorre-me recordar as histórias das
bonecas – os padrões. Mas é inútil. Sou incapaz de me disciplinar. Aliás, neste
momento quase não distingo se não sou capaz ou se não me apetece.
(Vivo com esta dúvida em relação à minha mãe.
Se é incapaz ou preguiçosa. Também vivia com esta dúvida em relação ao meu
ex-namorado. Se era incapaz ou preguiçoso. Até que me apercebi de que essa
dúvida me fazia ser condescendente com eles – não exigir nem esperar nada de
útil, ignorar quando erravam e elogiar quando acertavam.
A minha mãe não me bate nem berra comigo, a
minha mãe finge que não me ouve, e eu repito-me tantas vezes perante a ausência
de resposta que chego a duvidar se terei falado ou não. Eu não a culpo das
escolhas que faço, culpo-a das opções que reconheço. Chego a um ponto em que me
apetece abaná-la.
O meu ex-namorado ausentava-se quando eu
estava em apuros «para não incomodar». Expliquei-lhe que não precisava de uma
planta. Repeti-me tantas vezes e mudei tantas vezes de estratégia de
comunicação: conversar, conversar eloquentemente, conversar com termos simples
(passei-lhe um atestado de estupidez, a uma dada altura), pedir por favor,
exigir, ser-lhe útil para dar o exemplo, ignorar os pedidos de socorro dele
como troca justa, humilhá-lo, vingar-me. A melhor resposta que conseguia da
parte dele era «não tenho obrigação».
Aliás, a maioria das pessoas rege-se pela
moral de que não tem quaisquer obrigações de prestabilidade para com os outros,
e fazem o que gostam de fazer por quem gostam de o fazer. Não posso estar certa
e o mundo errado. Mas não compreendo um mundo onde eu dou e quando peço o
retorno me respondem que sou muito exigente e dramática.
Estas respostas movem o chão, originam crises
de valores, que me levam a pensar e repensar as relações, reformulando
alternadamente a minha postura entre negociante e abruptamente honesta. Com
episódios dramáticos de sensação de desmistificação de uma relação forte, em
que duvido do significado verdade/ mentira da relação. Contabilizo os erros e
as humilhações, para reformular e gerir a hierarquia até voltar a normalizar os
sentimentos em relação ao outro.)
Recordo as bonecas, os padrões… Estou morta.
Recuso-me a criar. Estou inábil para criar outros. Estou suspensa e flutuante.
Vaga. Contudo, não distante. Existo. Mas não sou nada. Quando era inexistente,
era tantos, era numerosa. Pairo. Reflito-me. Reflito como um vidro transparente
e luminoso, de uma vitrina vazia. Os cabides são nus, desinteressantes. Hoje
sou uma exceção. Digo: não me apetece. Sou uma criança. Com gestos pueris. Não
há maneirismos tensos e controlados. Há impulsos impertinentes e indolentes.
Pareço determinada, não há indecisões absurdas, não há que escolher entre o que
penso e o que sinto. O que digo são balas. As palavras são firmes. Não me
contrariam. Não são próprias de apenas um fragmento meu. Há algo de uno. E oco.
A ausência do puzzle. E a esterilidade. Estou de luto e sou estéril. Mas existo.
Estou infeliz. Não estou histérica a recriar personagens e soluções – o Outro-Inexistente, extinguiu-se.
Pairo, suspensa. Não sou outro, contudo também não sou eu, não sou ninguém. Sou
zero. Sou vácuo. Mas não anulado. Não conformado. Não passivo. Sou zero. Não
tenho nada a perder. Agora tudo é possível. Agora poderia querer tudo do mundo:
quero tudo, quero queixar-me, estou insatisfeita, tenho desejos, exijo tudo
aquilo a que tenho direito, não me apetece cumprir mais deveres, parti a régua
mental que analisava constantemente o meu nível de autocontrolo, sobriedade e
utilidade, rompi a corda esticada obsessivamente, os limites, portanto, não,
agora, não quero nada do mundo. Pairo, suspensa. Óbvio que sim. Óbvio que não.
Óbvio que sim. Óbvio que não.
A apatia emocional combinada com a recusa em
agir, formula uma nova família interior, não digo identidade, porque além de
que não me reconheço nela, combina diversos membros, o pensar, o sentir, o
falar, o agir. Fui mestra da ausência, do labirinto entre o eu e a máscara, da censura, do esquema,
da conveniência. Formulei uma nova família interior que castra o poder da
indecisão, tornando-me coerente, contudo, continuo a não ser inteira. Existe
uma nova sensação de uno. No entanto, essa unidade das fragmentações é vazia -
é maciça, e não plástica ou elástica, como antes. Perdi a habilidade para
adaptabilidade. Sou determinada. Mas vazia.
A minha vida interior é a racionalização da
insanidade do facto de viver como uma boneca, óbvio. O que não era óbvio era o
facto de me relacionar com os outros como se fossem também bonecos, esperando
que respeitem seguramente o quadro estereotipado que sistematizei para prever
os seus comportamentos, e deixando-me apavorada quando não correspondem à
figura. Assim vivo dentro de uma casa de bonecas, onde faço questão de garantir
a presença das figuras essenciais: o correto; o impulsivo; o manipulador.
Quando o correto erra, é egoísta ou deixa de ser moderado, quando o impulsivo é
autocontrolado ou prudente, quando o manipulador é transparente ou espontâneo,
julgo que todas as pessoas têm dois lados e torno-me sarcástica.
…
Oh, o mundo e maravilhoso. Oh, o mundo e uma
m*rda.

Um comentário:
Lindo.
«Recordo as bonecas, os padrões… Estou morta. Recuso-me a criar. Estou inábil para criar outros. Estou suspensa e flutuante. Vaga. Contudo, não distante. Existo. Mas não sou nada. Quando era inexistente, era tantos, era numerosa. Pairo. Reflicto-me. Reflicto como um vidro transparente e luminoso, de uma vitrina vazia. Os cabides são nus, desinteressantes. Hoje sou uma excepção.»
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