Recentemente, o pesadelo tornou-se mais complexo.
Um: As personagens pertencem a planos diferentes, experiências de sobrevivência simultâneas sucedem, coincidentemente, a várias pessoas independentes umas das outras, em diferentes espaços. Eu sou todas elas. Uma de cada vez. Experimento um jogo de cada vez. Mudo de plano consecutivamente, independentemente da etapa do percurso do jogador. Desaprendendo as habilidades anteriores e reaprendo novas, adapto-me. Experienciando a sequência de sensações: estranheza/ pânico; reconhecimento/ adaptação; fortalecimento/ continuidade; inércia (exploração dos limites)/ saturação (insucesso dos objetivos); morte/ fim das soluções, ruptura imposta por armadilhas imprevisíveis.
Dois: Jogo na vez de todos os jogadores no mesmo plano, sou todas as personagens em fuga de uma ameaça única que se traduz em armadilhas múltiplas. Logo, deteto urgências que exigem de mim desempenhos por vezes contraditórios. Enquanto que um eu´necessita de caminhar em pontas sob uma corda bamba, outro necessita de gatinhar por debaixo de uma mesa, outro de saltar de uma janela, um de respirar e outro de suster a respiração. Existe uma fração de segundo que permite coordenar todos os movimentos sem lesões. Mas chego a um ponto de exaustão em que não suporto mais tensão e perco o controlo sobre a situação, acabando por gatinhar na corda bamba. Perco o jogo e a vida.
Três: Sou um só-total, mas todas os outros jogadores dependem dos meus movimentos. Tenho de estar alerta para qualquer consequência por todos os outros serem sonolentos, incompetentes, negligentes. Controlo os meus passos e a minha respiração, e simultaneamente vigio o desempenho dos outros e procuro manipular os passos do inimigo. Os jogadores, inertes, sofrem lesões que só eu sinto, e contudo culpabilizam-me se agir erraticamente. Por vezes, não me culpabilizam, sou eu que me responsabilizo. Vejo-os cair mortos. Vejo uma porta aberta atrás de mim e não me permito correr por ela fora e ignorar os bonecos pesados.



