sexta-feira, 29 de julho de 2011

Mais um daqueles textos vulgares sobre desfragmentação

(Nitidamente, uma escrita influênciada pela leitura de Fernando Pessoa, penso que talvez em particular de Bernardo Soares, seu heterónimo.)














Disperso em fragmentos insólitos... a minha presença é reflexo da minha existência absoluta. Estou no fundo de mim, muito aquém à deriva, nestes mares poluídos de multidões de muitos de mim. Desmultiplicar-me? Mas seria tão saturantemente estático. A monotonia da imobilidade quotidiana, encontro casual com o qualquer no reflexo da vitrine da montra... Já só... Só sou eu agora, acercado de fantasmas de mim, fantasmas apenas, que nenhum de mim é térreo e palpável. Que nenhum de mim é meu, nenhum é marionete pêndulo nos meus dedos, apesar de que a minha invulgaridade derive deste acaso. Dentro da casa de dentro de mim mesmo, não existe espaço para tantos de mim, e o eu-comum ou vulgar, aquele que habita em todos os lugares interiores, na humidade de cada esquina do tecto atravessado, acaba por não ser menos que um anexo, uma marquise, que aloja um sem-abrigo: a minha decadência. O meu único entretenimento intelectual sensual. Esfomeado e arrefecido, esfrega fósforo por fósforo contra uma caixa húmida, leva forçosamente os depreciativos olhares vizinhos ao seu encontro mas os rostos estão já tão gastos... se antes não se prescrutaram, porque o farão agora? É tarde de mais. A lenha esquecida no fim do Inverno que passou, já não chega ao próximo Outono. Não existirá Outono. Seremos sempre vizinhos, conhecidos pelo bom-dia habitual a par do levantar da bóina de fazenda axadrezada na chuva riscada. A alma da lareira nos olhares vizinhos... esse cio incandescente.

domingo, 24 de julho de 2011













Entrou no meu quarto, não tive percepção. Estava a dormir, num sono denso. Sem sonhos. Não é mais reconfortante do que o terror nocturno. Da incércia absoluta, vagou um surto de lucidez descodifiquei uma voz, um rosto, "alucino novamente, internada numa cegueira intelectual", continuei a dormir sem ter tomado a decisão. Intervalei a catatonia um par de horas mais tarde, com um cansaço mais corcunda do que aquele com que adormeci. Eu nem queria dormir. Recusava o sono. Não como quem sofre de insómnia. Mas pelo assalto da fobia de dormir. Não consegui nada de mim. Elevei a cabeça, desdobrando o pescoço vértebra por vértebra. A cabeça cedeu a uns passos incertos como quem vai cair, pêndula sob o peito onde se demora o pulso inactivo. Articulei o corpo arrítmicamente. Cessei. Abalada pela gravidade, continuei a dormir. Despertei. Era noite. Um fragmento meu desconhecido - como uma peça de puzzle-enigma de vidro que plana - inquiriu-me o dever de reagir. Entretanto entram no quarto, “são nove e meia, Ana”, disse, “deixa ser”, respondeu a minha boca afectada por maneirismos enlouquecidos, com uma voz que nunca ouvi falar, com uma força que não sei por que existe nem de onde vem, de mim não é de certeza, é uma qualquer fractura que reage autónoma, e ainda assim não me poupa o esgotamento. Implodia em censuras contra a minha inércia. Estalei: a imposição da rotina como meio de resguardar da sanidade. Saír da cama. Saír da cama. Talvez cozinhar, estimula, desperta. Não despertou. Nunca engoli nada tão dissaboroso. Comprometi-me a passar da boca pela garganta abaixo para o estômago. Telefonaram-me. Atendi de imediato, “traz-me um masso de tabaco”. Chegou. “Não podias ter mais calma com a porta? E com o telefone? Demorei? Assim tanto?”, tentei, tentei mesmo, empurrei-me, corri a maratona, foi uma pequena victória que chegou para o dia todo. Preciso de dormir. A companhia estimula, desperta. Não despertou. E ele saíu logo a seguir. É Sábado à noite, claro que não vai ficar a observar-me muda e paralisada. Saíu. O que é que fiz nesse espaço de tempo, entre ele -a alucinação- saír e ele -o real- voltar? Não me recordo. Tentei vestir-me. Desisti. Tentei ver televisão, mas só fiz zappings. Desisti. Peguei na guitarra. Meu Deus. A guitarra. Afinal, ele sempre aqui veio de manhã. Afinal não alucinei. Como é que não distingui? Deve julgar que o ignorei, nem resposta lhe dei. Voltou, o outro. O segundo. Voltou. Enfiámo-nos no carro, “o que é?”, perguntou, “nada”, “mas estás bem?”... Chegámos à garagem dele, “estou a pensar em ir ao hospital”, “não preferes ir descansar? Quando acordares já passou”.