Faixas azul-néon e verde-esmeralda desdobram-se
verticalmente impondo-se na tela escura holográfica aberta dentro dos meus
olhos fechados. Contemplo. Mergulho. Submerjo. Desenrolam-se como negativos de
filme fotográfico infinitos. Observo. Índigos oceanos convergindo numa espiral profunda.
O centro é hipnótico, como um hímen para a pupila fixa, que me entorpece.
Quanto mais me emaranho na densidade das faixas luminosas, mais detalhes
desdobro. Imagens de florestas místicas explanam-se e multiplicam-se dentro de
Ágatas-Verdes - uma chuva de milhares de minúsculos cristais, do tamanho da
unha do dedo mindinho de uma criança - espelham ambientes verdes. Como uma
pintura de pontilhismo cor-de-musgo, numa manhã cinza-invernosa. Universos
ecológicos preservados em bolas de cristal. Boiam. Multiplicam-se. Agora que
pestanejo, uma e outra vez, desperto, esfrego os olhos, desfoco, vejo ao longe,
é um regador celeste formado por pontes entre constelações, é um regador que
goteja os milhares de Ágatas briosas, que por sua vez humedecem os cabelos finos
e loiros de uma criança pequenina, a mesma de há pouco, e germinam-lhe pelos
dedos fora pinturas inspiradoras - alertas de preservação da Natureza, com uma
roda de fadas coloridas, que dançam e rodam e giram, e as suas cores fundidas
em movimento, criam um aro branco luminoso que paira, como uma aura – ou um
Parténon para outro Cosmos -, banhado pelo sol, desenhado a guache amarelo,
numa mesa de estudos, por uma criança hiperativa que ficou de castigo no intervalo
entre aulas.
Volto a mergulhar. Recosto as pálpebras. Sinto os pés insuflarem-se. «Quase» que ouço uma almofada de penas esvaziar-se. Uma leveza líquida no peito que se espalha por todo corpo, como rios a preencherem caminhos que já conhecem. Sinto uma brisa de vento morno soprar-me sob a cabeça. «Quase» que a ouço despentear-me os cabelos fartos. É um som de Outono, como quando as folhas alaranjadas se abraçam ao vento da mudança e se despedem das árvores.
Sinto um leve formigueiro efervescer do centro da coroa da minha
cabeça… Como se uma ave me sobrevoasse e
levemente roçasse as bermas das penas, fazendo-me cócegas… o formigueiro
alastra-se por todo o meu corpo… ondulo… flutuo… levito… A passagem do tempo é
morosa…
- Anéis translúcidos emergem em meu redor… elevam-se…
amplificam-se… extinguem-se… Triângulos desorganizados surgem de todas as
frontes… multiplicam-se… desdobram-se em si mesmos… como bonecas russas…
intermináveis… subitamente… organizam-se… as faces encontram-se e harmonizam-se
como se já conhecessem a sequência dos passos, e resultam-se numa pirâmide
trilateral… com arestas luminescentes… Agora... Abre-se um passagem entre as minhas
mãos, unidas e abertas em formato triangular, funciona como um telescópio que
perfura um buraco negro no Cosmos. A meu pedido, acende ecrãs ocultos, numa
sala multi-visionária... -
As pontas dos meus dedos estão elétricas. O calor, a
eletricidade, a humidade, a brisa errante. Movimentam-se. Mesclam-se.
Harmonizam-se. Formam uma bola-de-sabão que me envolve. Os meus lábios
descolam-se, inspiro profundamente, expiro vagarosamente, «quase» que ouço uma
corrente de ar forte sair de dentro de mim, como se saltasse em queda-livre. O
som da corrente de ar propaga-se à minha volta, ecoa dentro da bola-de-sabão.
Estou numa redoma de ecos. Vaivéns infinitos. Até que vibram. Tocam-me.
Rompem-me o tecido da pele, o abrigo da minha alma. Invadem-me. Fundem-se com o
ar que ressoa das minhas cordas vocais. A minha voz vibra. (Desconhecia esta
minha voz, é muito ternurenta, maternal, pacífica, de onde vem?). A minha voz
vibrante estilhaça a armadura do meu corpo. Não existe mais armadura. Não
existe mais corpo. A vibração da minha
voz e da bola-de-sabão etérea são um só. Sou una. A bola-de-sabão flutua.
Sinto-me ondular levemente como se mil ventos quentes dançassem em meu redor. Abre-se
um vagão de luz defronte de mim, como se acendesse uma lanterna de dentro do
meu peito para fora, uma fonte de mil marés de luz incandesce. Levo as mãos ao
peito e abraço-me, baixo a cabeça. No fundo desta fogueira etérea que crepita
no meu peito, há uma passagem para dentro. Uma câmara secreta para casa. Não me
lembrava do caminho.
- Percorrera nevões sozinha. Sôfrega. Contra o ar gélido. Nesta caminhada erudita. Olhava
para trás e só encontrava extensas planícies de gelo, olhava para a esquerda e avistava
avalanches temerosas, olhava para a direita e temia os fantasmas da neve, olhava
para cima e o céu era negro, breu como noite de lua nova e sem estrelas, olhava para baixo e confrontava-me com precipícios que me sugavam, esforçava-me por olhar em frente, mas em
vão: não havia pontes para o outro lado. Quaaaseee que cedia ao precipício.
De tanto tempo isolada, eu não me lembrava do rosto de
ninguém, já não sabia pronunciar palavras de tanto tempo muda, o meu
rosto esqueceu-se de como esboçar qualquer expressão, fosse um sorriso ou indignação, de tanto tempo apática.
Se tocasse o meu próprio rosto, estranharia a textura da
pele. Desconhecia-me.
Eu tinha medo. -
E não me lembrava da sensação de ter alguém à minha espera
em casa. De braços abertos. Lareira acesa. E sem julgamentos. Bem-vinda a casa.
...
Uma família feliz de hologramas abraça-se muito, muitas crianças a chapinar num lago, de calças arregaçadas, outras correm no jardim, outras abraçam-me na porta da cozinha de onde vem aroma a bolo quente de canela. Uma senhora de cabelos brancos muito sorridente, abraça-me também. Dizem que estão felizes por eu os visitar, mas não me perguntam porque não vim antes, nem de onde vim, dizem-me que estiverem sempre comigo, o tempo todo. Bastava eu abrir aquela porta a caminho de casa, perto do jardim. Cheira a terra, o céu está limpo, mergulho, com felicidade, os dedos na terra húmida, e sorrio para dentro.

