domingo, 9 de agosto de 2015

Soir de Fête














...o meu sonho, era conquistar essa glória sublime, o direito a voltar a ter sonhos. Dedicava-me determinadamente a construir a minha pirâmide secreta do sucesso a fim de conquistar patamares de repercussão psicológica. Era difícil distinguir os meus movimentos mecanizados de uma máquina industrial. Ando sempre a correr, as minhas pernas não conhecem outro ritmo, são viciadas na adrenalina, tanto para fugir como para alcançar, em todo o caso, para escapar, ora do que me persegue agressivamente, ora do que me frustra pela sua qualidade inalcançável. 
Mas eu sonho! ...e se sonho!
Corria para a farmácia num intervalo não autorizado, e por lapso, denúncia de distração, entrei numa ourivesaria. Fiquei atónita, o meu corpo estava indolente, os meus olhos parados. ...embeveci-me, nunca vi tantas mulheres juntas. O perfume da sua volatilidade embriaga-me, estão sempre tão extraordinariamente emotivas como se estivessem num casamento ou numa maternidade. A sua superioridade surpreende-me. A consistência da sua definição, é a absoluta noção de que as incertezas provêem das certezas.  - Quando estão felizes, estão felizes por estarem felizes. Nos momentos em que estão tristes, sucede o mesmo, não estão apenas tristes, estão tristes. e tristes por estarem tristes. Os seus sentimentos são auto-sustentáveis. As mulheres alimentam os seus perfumes, e vice-versa, as mulheres alimentam-se dos seus perfumes. As mulheres perfumam-me a alma. Se não existissem pulsos de mulheres, não havia lugar no mundo para perfumes. Elas amam, mas acima de tudo, amam o facto de amarem.
 Entretanto chegou a minha vez.O funcionário que me atendeu, olhou para mim firme e serenamente, sem sequer me cumprimentar. Acho que me cumprimentou em silêncio. Pelo menos observou-me de uma forma tão intensa que eu senti que de alguma forma comunicámos e me acolheu amigavelmente. Olhou para mim, depois olhou para a vitrina abaixo dos meus braços e retornou os olhos para os meus. Olhei perdida e confusa.
Já tinha fixado o relógio branco de uma outra cliente. É simples. É útil. Tem pormenores, minúsculos cristaizinhos translúcidos - quaaasee asteróides vagos.
Ele ausentou-se em passos suaves e certos, e voltou vagarosamente com algum suspense. Pousou uma caixa de veludo escuro em cima da mesa, abriu-a inclinada para ele. ...eu começava a sentir umas borboletas curiosas no umbigo, secretamente, mas acho que ele sabia. As verrugas dos cantos dos seus olhos sorriam. 
Sem falar, indicou-me que esticasse o pulso na sua direção. Aceitei, obedeci, não sei porquê. Acho que foi para corresponder à sua expectativa firme. Sentia-me segura, protegida.
Entretanto hesitei. Pensei, não tenho vida interior, não haveria jóia que me refletisse. Não mereço. 
Acho que ele estava a ler todos os obstáculos que me ocorriam como se lhe fosse habitual fazer esse diagnóstico, como se em todas as mentes de todas as mulheres surgissem os mesmos obstáculos abstratos.
 Isso faria de mim, afinal, "vulgar"... o que reconfortou a minha sensação de absurdez.
-Tens medo? Tens medo. - concluiu - Era como se soubesse a resposta desde o princípio. Desde que entrei distraída, por lapso, na ourivesaria, na porta errada.
Respondi alto e bruscamente como quem cospe: - Não tenho medo de nada.
Eu sabia que ele queria observar todos os pormenores...
Não precisou de o dizer. Ansiava, inaudível, o indecifrável.
Observar o meu sem-jeito delicatesse: de receber a pulseira do relógio a esfriar-me levemente a pele; de entrelaçar a fita na fivela prateada, decidindo-me errónea pelo penúltimo furinho; de deslizar as fitas uma sob a outra até me aproximar do fecho final na anilha de suporte. E após o remate... levantar o pescoço satisfeita, com as maçãs do rosto rosadas-romã.
Queria ver o estilo de mulher que eu era interiormente - quais os carreirinhos rurais e paisagens arborívoras da minha vida imaginária, como eu danço platonicamente... - como eu danço, como sou na minha intimidade.
Repito-me: eu sabia. Não precisou de o dizer. Ansiava, inaudível, o indecifrável.
Ele queria deliciar-se com a minha forma de me deliciar, e confrontar os meus olhos conquistados, - consumidores de tão consumados pela jóia - e de mulher exploradora do interior desconhecido. Queria ajudar-me a conhecer-me.
Mas tal era a minha ganância de provar que não tinha medo de nada e de fugir dali... estava fora do meu habitat natural e queria provar que era um camaleão. Ou uma mulher.  
Voltei a estender o pulso nu e frágil na sua direção, tinha dobrado a borda da blusinha. Algum traço no meu rosto traiu-me a contenção, denunciou um misto de curiosidade e inibição. 
Olhei-o defronte com seriedade pela primeira vez. E ele manteve o rosto sereno como um médico numa operação simples. 
-É certo. Não tens medo de nada, porque tens medo de tudo. Desististe das tuas expectativas em relação a tudo, todos os dias acordas convicta de que não tens nada a perder, portanto, obviamente que não tens medo de nada. 
-Que relógio é este? - protestei, desiludida - ...não me pertence, não me traduz, não conversa comigo em silêncio, não me observa na escuridão. 
Entretanto li umas letras itálicas tatuadas na pulseira rosa-pérola do relógio: “Deseja até à morte. E se tiveres medo, vai com medo mesmo. Conquista-te”
Hum... O segredo é esse então...
Conquista-te. Conquista-te. Conquista-te.
Um funcionário muitíssimo sorridente, apressado, sugeriu delicadamente entre o seu discurso difuso de apoio que já há «N» minutos a minha distração ignorava:
- ...e ainda, tem a oportunidade de nos oferecer o valor de troca num plano de prestações...
Ora aí estava uma boa deixa, gratuitamente evitava o prolongamento da conversa.
O meu orgulho foi maior, como uma camada-de-ozono, tal sanguessuga desta atmosfera pré-clímax!
Aproveitei a deixa para escapar da boca-de-cena errada.
Ofendida, pousei o adereço da minha personagem sob o vidro do balcão.
Deixei as luzes acesas para trás, a refletirem-se multiplamente nas vitrines espelhadas da ourivesaria.
O paraíso das joias... Onde uma mulher tímida e discreta vai direta à joia que sabe ser-lhe perfeita, sem hesitações. E outra, controversa, muito determinada e vaidosa, sai com muitos embrulhos para oferta, de nariz torcido, contrariada e altiva, culpabilizando os funcionários pela sua insatisfação crónica... envaidecidamente.
Acompanhei-as na saída, desencontravamo-nos na múltipla porta giratória, com os nossos estilos diferentes. Estilos de amar...
Observei-me desiludida no reflexo da porta giratória. Desmaquilhei-me à vontade como se já estivesse no conforto do meu bastidor particular. ...tinha receio que as lágrimas discretas esborratassem a máscara.
Hum... O segredo é esse então... 
Conquista-te. Conquista-te. Conquista-te.
À frente da ourivesaria estava uma rotunda com várias direções ao meu dispor.
Os meus olhos lampejavam faíscas cor-de-laranja como o pôr-do-sol-de-fogo expectante nos olhos dos amantes.
O pôr-do-sol é insuficiente para mim.
Hoje é o dia. Vou derrubar muros e criar pontes. Acordei para conquistar o mundo.
Explora. Explora. Explora.
Conquista-te. Conquista-te. Conquista-te.
Dentro da minha cabeça aproximava-se, devagar, esmorecido, o eco da música “Soir de Fête”, de Yann Tiersen no filme de Amélie Poulan.
Recria-te. Explora o mapa. ...o jardim da deslindação e os precipícios cósmicos, que te levam aos tesouros interiores mais preciosos.
«Eu quero sentir tudo, de todas as maneiras» - Álvaro de Campos