sábado, 18 de maio de 2013

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Eu, ou Outra Catherine Doll

-Viver foi igual a comer Bolas-de-Berlim com Arsénico.

7º Diário - Nada Mais


Envelheci. Após todas as soluções conjecturadas, após todas as lutas incessantes, após o fracasso dos resultados inúteis. Após os lutos. Recomeçar constantemente é já uma máxima. Não quero mais nada deste mundo.

Acho que estou triste. «Acho» - a dúvida provém da falta de familiaridade com a sensação. O reconhecimento da (afinal) possibilidade de concretização de episódios felizes, entristece. A noção de que não tenho nada a perder, entristece. Quando redescobri a possibilidade de voltar a tocar o mundo, quis tudo a que tivesse direito, inclusivamente a exigir demais e a queixar-me insatisfeita. Entristece, reconhecer que desconhecia qualquer uma destas sensações. Preciso que alguém me berre os meus direitos.

Reconheço que não tenho nada a perder. Sou pobre. Primitiva. Sem nuances emocionais. Apenas emoções de sobrevivência. Alerta sob ameaça. Fingir que está tudo bem. Negar os desejos. Maximizar as necessidades. Ter três olhos bem abertos. Ter um olho aberto e outro fechado – e a dormir também.

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Ter máscaras descartáveis. Uma vez quis escancarar os falsos eus, mas por detrás era só oco, e não saberia como estar, para além de me sentar numa cadeira atrás de uma secretária nas horas em que era funcionária; dar a mão ao meu companheiro nas horas em que era comprometida; dizer adeus à minha mãe quando terminavam as horas em que era filha; sentar-me no café e conversar nas horas respectivas de convívio – e agora que falo nisto, observo que existiam horas fixas para tudo.

A variedade das personagens, não descartava a variedade de humores de cada uma. As horas de convívio tornavam-me extraordinariamente sociável, ao contrário das horas que em que trabalhava, em que era extraordinariamente séria, e profissional – distinguindo com ênfase que, estando posicionada dentro de uma hierarquia, com a gerente devo ser assertiva enquanto que com o cliente devo ser diplomática.

Quando não havia mais papéis a cumprir, sentava-me a averiguar e planear: se desta vez seria bem sucedida, o que aconteceria se interrompesse os hábitos e rasgasse o desenho, como faria sentido que aproveitasse aquele tempo produtivamente, ou talvez, como faria sentido que aquela personagem ocupasse as horas vagas – engomar camisas, contabilizar facturas, ver o telejornal…

Até que me esqueci do labirinto entre mim e o meu rosto escancarável. Não soube mais o que censurar. Sou um impulso impertinente. Como quem esquece a linguagem que o relaciona com o mundo, perdi a minha habilidade especial para criar e recriar empatias artificiais com os objectos e as pessoas. A minha habilidade para associar novos ângulos do rosto e criar novas personagens e histórias.

Após todas as lutas e todos os lutos, ciclicamente, não quero mais nada deste mundo. Após a vez em que reconheci a hipótese de ser feliz no lugar de sobreviver, não quero mais nada deste mundo.

Pairo, suspensa. Recuso-me a reconstruir-me. A moldar-me, deformar-me, como plasticina. Recuso-me a negar-me. Estou apática. Não quero nada. Nem sequer quero querer nada. Recuso-me a contrariar-me. A disciplinar-me, sendo outro. Ana Outro, fui. Quando estou apática, não me sinto envolvida com o mundo, não me sinto comprometida, não sinto prazer algum, não sinto curiosidade alguma. Contudo, estou apática, e sinto um certo envolvimento comigo própria. Quando me sentia desaparecer, falava, falava, falava, histericamente, expectante de que as palavras me envolvessem no mundo dos outros. Agora, as várias camadas associaram-se, e no lugar de se criarem máscaras que me ausentam, sou uma estátua oca, vazia, apática, branca. Quando preciso de recorrer a soluções práticas, ocorre-me recordar as histórias das bonecas – os padrões. Mas é inútil. Sou incapaz de me disciplinar. Aliás, neste momento quase não distingo se não sou capaz ou se não me apetece.

Vivo com esta dúvida em relação à minha mãe. Se é incapaz ou preguiçosa. Também vivia com esta dúvida em relação ao meu ex-namorado. Se era incapaz ou preguiçoso. Até que me apercebi de que essa dúvida me fazia ser condescendente com eles – não exigir nem esperar nada de útil e ignorar quando erravam.

A minha mãe não me bate nem berra comigo, a minha mãe finge que não me ouve, e eu repito-me tantas vezes perante a ausência de resposta que chego a duvidar se terei falado ou não. Eu não a culpo das escolhas que faço, culpo-a do leque de opções com que me debato. Chego a um ponto em que me apetece abaná-la.

O meu ex-namorado ausentava-se quando eu estava em apuros «para não incomodar». Expliquei-lhe que não precisava de uma planta. Repeti-me tantas vezes e mudei tantas vezes de estratégia de comunicação: conversar, conversar eloquentemente, conversar com termos simples (passei-lhe um atestado de estupidez, a uma dada altura), pedir por favor, exigir, ser-lhe útil para dar o exemplo, ignorar os pedidos de socorro dele como troca justa, humilhá-lo, vingar-me. A melhor resposta que conseguia da parte dele era «não tenho obrigação».

Aliás, a maioria das pessoas rege-se pela moral de que não tem quaisquer obrigações de prestabilidade para com os outros, e fazem o que gostam de fazer por quem gostam de o fazer. Não posso estar certa e o mundo errado. Mas não compreendo um mundo onde eu dou e quando peço o retorno me respondem que sou muito exigente e dramática.

Estas respostas movem o chão, originam crises de valores, que me levam a pensar e repensar as relações, reformulando alternadamente a minha postura entre negociante e abruptamente honesta. Com episódios dramáticos de sensação de desmistificação de uma relação forte, em que duvido do significado verdade/ mentira da relação. Contabilizo os erros e as humilhações, para reformular e gerir a hierarquia até voltar a normalizar os sentimentos em relação ao outro.

Recordo as bonecas, os padrões… Estou morta. Recuso-me a criar. Estou inábil para criar outros. Estou suspensa e flutuante. Vaga. Contudo, não distante. Existo. Mas não sou nada. Quando era inexistente, era tantos, era numerosa. Pairo. Reflicto-me. Reflicto como um vidro transparente e luminoso, de uma vitrina vazia. Os cabides são nus, desinteressantes. Hoje sou uma excepção. Digo: não me apetece. Sou uma criança. Com gestos pueris. Não há maneirismos tensos e controlados. Há impulsos impertinentes e indolentes. Pareço determinada, não há indecisões absurdas, não há que escolher entre o que penso e o que sinto. O que digo são balas. As palavras são firmes. Não me contrariam. Não são próprias de apenas um fragmento meu. Há algo de uno. E oco. A ausência do puzzle. E a esterilidade. Estou de luto e sou estéril. Mas existo. Estou infeliz. Não estou histérica a recriar personagens e soluções – o Outro-Inexistente, extinguiu-se. Pairo, suspensa. Não sou outro, contudo também não sou eu, não sou ninguém. Sou zero. Sou vácuo. Mas não anulado. Não conformado. Não passivo. Sou zero. Não tenho nada a perder. Agora tudo é possível. Agora poderia querer tudo do mundo: quero tudo, quero queixar-me, estou insatisfeita, tenho desejos, exijo tudo aquilo a que tenho direito, não me apetece cumprir mais deveres, parti a régua mental que analisava constantemente o meu nível de auto-controlo, sobriedade e utilidade, rompi a corda esticada obsessivamente, os limites, portanto, não, agora, não quero nada do mundo. Pairo, suspensa. Óbvio que sim. Óbvio que não. Óbvio que sim. Óbvio que não.

A apatia emocional combinada com a recusa em agir, formula uma nova família interior, não digo identidade, porque além de que não me reconheço nela, combina diversos membros, o pensar, o sentir, o falar, o agir. Fui mestra da ausência, do labirinto entre o eu e a máscara, da censura, do esquema, da conveniência. Formulei uma nova família interior que castra o poder da indecisão, tornando-me coerente, contudo, continuo a não ser inteira. Existe uma nova sensação de uno. No entanto, essa unidade das fragmentações é vazia - é maciça, e não plástica ou elástica, como antes. Perdi a habilidade para adaptabilidade. Sou determinada. Mas vazia.

A minha vida interior é a racionalização da insanidade do facto de viver como uma boneca, óbvio. O que não era óbvio era o facto de me relacionar com os outros como se fossem também bonecos, esperando que respeitem seguramente o quadro estereotipado que sistematizei para prever os seus comportamentos, e deixando-me apavorada quando não correspondem à figura. Assim vivo dentro de uma casa de bonecas, onde faço questão de garantir a presença das figuras essenciais: o correto; o impulsivo; o manipulador. Quando o correto erra, é egoísta ou deixa de ser moderado, quando o impulsivo é auto-controlado ou prudente, quando o manipulador é transparente ou espontâneo, julgo que todas as pessoas têm dois lados e torno-me sarcástica.

...
Oh, o mundo é maravilhoso. Oh, o mundo é uma merda.


Envelheci. Após todas as soluções conjeturadas, após todas as lutas incessantes, após o fracasso dos resultados inúteis. Após os lutos. Recomeçar constantemente é já uma máxima. Não quero mais nada deste mundo.
Acho que estou triste. «Acho» - a dúvida provém da falta de familiaridade com a sensação. O reconhecimento da (afinal) possibilidade de concretização de episódios felizes, entristece. A noção de que não tenho nada a perder, entristece. Quando redescobri a possibilidade de voltar a tocar o mundo, quis tudo a que tivesse direito, inclusivamente a exigir demais e a queixar-me insatisfeita. Entristece, reconhecer que desconhecia qualquer uma destas sensações. Preciso que alguém me berre os meus direitos.
Reconheço que não tenho nada a perder. Sou pobre. Primitiva. Sem nuances emocionais. Apenas emoções de sobrevivência. Alerta sob ameaça. Fingir que está tudo bem. Negar os desejos. Maximizar as necessidades. Ter três olhos bem abertos. Ter um olho aberto e outro fechado – e a dormir também.
Ter máscaras descartáveis. Uma vez quis escancarar os falsos eus, mas por detrás era só oco, e não saberia como estar, para além de me sentar numa cadeira atrás de uma secretária nas horas em que era funcionária; dar a mão ao meu companheiro nas horas em que era comprometida; dizer adeus à minha mãe quando terminavam as horas em que era filha; sentar-me no café e conversar nas horas respetivas de convívio – e agora que falo nisto, observo que existiam horas fixas para tudo.
A variedade das personagens, não descartava a variedade de humores de cada uma. As horas de convívio tornavam-me extraordinariamente sociável, ao contrário das horas que em que trabalhava, em que era extraordinariamente séria, e profissional – distinguindo, com ênfase, que estando posicionada dentro de uma hierarquia, com a gerente se é assertivo, e com o cliente se é diplomático.
Por fim, quando não havia mais papéis a cumprir, sentava-me sossegada e inquieta a averiguar e planear: se desta vez seria bem sucedida, o que aconteceria se interrompesse os hábitos e rasgasse o desenho, como faria sentido que aproveitasse aquele tempo produtivamente, ou talvez, como faria sentido que aquela personagem ocupasse as horas vagas – engomar camisas, contabilizar faturas, ver o telejornal…
Até que me esqueci do labirinto entre mim e o meu rosto escancarável. Não soube mais o que censurar. Sou um impulso impertinente. Como quem esquece a linguagem que o relaciona com o mundo, perdi a minha habilidade especial para criar e recriar empatias artificiais com os objetos e as pessoas. A minha habilidade para associar novos ângulos do rosto e criar novas personagens e histórias.
Após todas as lutas e todos os lutos, ciclicamente, não quero mais nada deste mundo. Após a vez em que reconheci a hipótese de ser feliz no lugar de sobreviver, não quero mais nada deste mundo.
Pairo, suspensa. Recuso-me a reconstruir-me. A moldar-me, deformar-me, como plasticina. Recuso-me a negar-me. Estou apática. Não quero nada. Nem sequer quero querer nada. Recuso-me a contrariar-me. A disciplinar-me, sendo outro. Ana Outro, fui. Quando estou apática, não me sinto envolvida com o mundo, não me sinto comprometida, não sinto prazer algum, não sinto curiosidade alguma. Contudo, estou apática, e sinto um certo envolvimento comigo própria. Quando me sentia desaparecer, falava, falava, falava, histericamente, expectante de que as palavras me envolvessem no mundo dos outros. Agora, as várias camadas associaram-se, e no lugar de se criarem máscaras que me ausentam, sou uma estátua oca, vazia, apática, branca. Quando preciso de recorrer a soluções práticas, ocorre-me recordar as histórias das bonecas – os padrões. Mas é inútil. Sou incapaz de me disciplinar. Aliás, neste momento quase não distingo se não sou capaz ou se não me apetece.
Vivo com esta dúvida em relação à minha mãe. Se é incapaz ou preguiçosa. Também vivia com esta dúvida em relação ao meu ex-namorado. Se era incapaz ou preguiçoso. Até que me apercebi de que essa dúvida me fazia ser condescendente com eles – não exigir nem esperar nada de útil, ignorar quando erravam e elogiar quando acertavam.
A minha mãe não me bate nem berra comigo, a minha mãe finge que não me ouve, e eu repito-me tantas vezes perante a ausência de resposta que chego a duvidar se terei falado ou não. Eu não a culpo das escolhas que faço, culpo-a das opções que reconheço. Chego a um ponto em que me apetece abaná-la.
O meu ex-namorado ausentava-se quando eu estava em apuros «para não incomodar». Expliquei-lhe que não precisava de uma planta. Repeti-me tantas vezes e mudei tantas vezes de estratégia de comunicação: conversar, conversar eloquentemente, conversar com termos simples (passei-lhe um atestado de estupidez, a uma dada altura), pedir por favor, exigir, ser-lhe útil para dar o exemplo, ignorar os pedidos de socorro dele como troca justa, humilhá-lo, vingar-me. A melhor resposta que conseguia da parte dele era «não tenho obrigação».
Aliás, a maioria das pessoas rege-se pela moral de que não tem quaisquer obrigações de prestabilidade para com os outros, e fazem o que gostam de fazer por quem gostam de o fazer. Não posso estar certa e o mundo errado. Mas não compreendo um mundo onde eu dou e quando peço o retorno me respondem que sou muito exigente e dramática.
Estas respostas movem o chão, originam crises de valores, que me levam a pensar e repensar as relações, reformulando alternadamente a minha postura entre negociante e abruptamente honesta. Com episódios dramáticos de sensação de desmistificação de uma relação forte, em que duvido do significado verdade/ mentira da relação. Contabilizo os erros e as humilhações, para reformular e gerir a hierarquia até voltar a normalizar os sentimentos em relação ao outro.)
Recordo as bonecas, os padrões… Estou morta. Recuso-me a criar. Estou inábil para criar outros. Estou suspensa e flutuante. Vaga. Contudo, não distante. Existo. Mas não sou nada. Quando era inexistente, era tantos, era numerosa. Pairo. Reflito-me. Reflito como um vidro transparente e luminoso, de uma vitrina vazia. Os cabides são nus, desinteressantes. Hoje sou uma exceção. Digo: não me apetece. Sou uma criança. Com gestos pueris. Não há maneirismos tensos e controlados. Há impulsos impertinentes e indolentes. Pareço determinada, não há indecisões absurdas, não há que escolher entre o que penso e o que sinto. O que digo são balas. As palavras são firmes. Não me contrariam. Não são próprias de apenas um fragmento meu. Há algo de uno. E oco. A ausência do puzzle. E a esterilidade. Estou de luto e sou estéril. Mas existo. Estou infeliz. Não estou histérica a recriar personagens e soluções – o Outro-Inexistente, extinguiu-se. Pairo, suspensa. Não sou outro, contudo também não sou eu, não sou ninguém. Sou zero. Sou vácuo. Mas não anulado. Não conformado. Não passivo. Sou zero. Não tenho nada a perder. Agora tudo é possível. Agora poderia querer tudo do mundo: quero tudo, quero queixar-me, estou insatisfeita, tenho desejos, exijo tudo aquilo a que tenho direito, não me apetece cumprir mais deveres, parti a régua mental que analisava constantemente o meu nível de autocontrolo, sobriedade e utilidade, rompi a corda esticada obsessivamente, os limites, portanto, não, agora, não quero nada do mundo. Pairo, suspensa. Óbvio que sim. Óbvio que não. Óbvio que sim. Óbvio que não.
A apatia emocional combinada com a recusa em agir, formula uma nova família interior, não digo identidade, porque além de que não me reconheço nela, combina diversos membros, o pensar, o sentir, o falar, o agir. Fui mestra da ausência, do labirinto entre o eu e a máscara, da censura, do esquema, da conveniência. Formulei uma nova família interior que castra o poder da indecisão, tornando-me coerente, contudo, continuo a não ser inteira. Existe uma nova sensação de uno. No entanto, essa unidade das fragmentações é vazia - é maciça, e não plástica ou elástica, como antes. Perdi a habilidade para adaptabilidade. Sou determinada. Mas vazia.
A minha vida interior é a racionalização da insanidade do facto de viver como uma boneca, óbvio. O que não era óbvio era o facto de me relacionar com os outros como se fossem também bonecos, esperando que respeitem seguramente o quadro estereotipado que sistematizei para prever os seus comportamentos, e deixando-me apavorada quando não correspondem à figura. Assim vivo dentro de uma casa de bonecas, onde faço questão de garantir a presença das figuras essenciais: o correto; o impulsivo; o manipulador. Quando o correto erra, é egoísta ou deixa de ser moderado, quando o impulsivo é autocontrolado ou prudente, quando o manipulador é transparente ou espontâneo, julgo que todas as pessoas têm dois lados e torno-me sarcástica.
Oh, o mundo e maravilhoso. Oh, o mundo e uma merda.
Envelheci. Após todas as soluções conjeturadas, após todas as lutas incessantes, após o fracasso dos resultados inúteis. Após os lutos. Recomeçar constantemente é já uma máxima. Não quero mais nada deste mundo.
Acho que estou triste. «Acho» - a dúvida provém da falta de familiaridade com a sensação. O reconhecimento da (afinal) possibilidade de concretização de episódios felizes, entristece. A noção de que não tenho nada a perder, entristece. Quando redescobri a possibilidade de voltar a tocar o mundo, quis tudo a que tivesse direito, inclusivamente a exigir demais e a queixar-me insatisfeita. Entristece, reconhecer que desconhecia qualquer uma destas sensações. Preciso que alguém me berre os meus direitos.
Reconheço que não tenho nada a perder. Sou pobre. Primitiva. Sem nuances emocionais. Apenas emoções de sobrevivência. Alerta sob ameaça. Fingir que está tudo bem. Negar os desejos. Maximizar as necessidades. Ter três olhos bem abertos. Ter um olho aberto e outro fechado – e a dormir também.
Ter máscaras descartáveis. Uma vez quis escancarar os falsos eus, mas por detrás era só oco, e não saberia como estar, para além de me sentar numa cadeira atrás de uma secretária nas horas em que era funcionária; dar a mão ao meu companheiro nas horas em que era comprometida; dizer adeus à minha mãe quando terminavam as horas em que era filha; sentar-me no café e conversar nas horas respetivas de convívio – e agora que falo nisto, observo que existiam horas fixas para tudo.
A variedade das personagens, não descartava a variedade de humores de cada uma. As horas de convívio tornavam-me extraordinariamente sociável, ao contrário das horas que em que trabalhava, em que era extraordinariamente séria, e profissional – distinguindo, com ênfase, que estando posicionada dentro de uma hierarquia, com a gerente se é assertivo, e com o cliente se é diplomático.
Por fim, quando não havia mais papéis a cumprir, sentava-me sossegada e inquieta a averiguar e planear: se desta vez seria bem sucedida, o que aconteceria se interrompesse os hábitos e rasgasse o desenho, como faria sentido que aproveitasse aquele tempo produtivamente, ou talvez, como faria sentido que aquela personagem ocupasse as horas vagas – engomar camisas, contabilizar faturas, ver o telejornal…
Até que me esqueci do labirinto entre mim e o meu rosto escancarável. Não soube mais o que censurar. Sou um impulso impertinente. Como quem esquece a linguagem que o relaciona com o mundo, perdi a minha habilidade especial para criar e recriar empatias artificiais com os objetos e as pessoas. A minha habilidade para associar novos ângulos do rosto e criar novas personagens e histórias.
Após todas as lutas e todos os lutos, ciclicamente, não quero mais nada deste mundo. Após a vez em que reconheci a hipótese de ser feliz no lugar de sobreviver, não quero mais nada deste mundo.
Pairo, suspensa. Recuso-me a reconstruir-me. A moldar-me, deformar-me, como plasticina. Recuso-me a negar-me. Estou apática. Não quero nada. Nem sequer quero querer nada. Recuso-me a contrariar-me. A disciplinar-me, sendo outro. Ana Outro, fui. Quando estou apática, não me sinto envolvida com o mundo, não me sinto comprometida, não sinto prazer algum, não sinto curiosidade alguma. Contudo, estou apática, e sinto um certo envolvimento comigo própria. Quando me sentia desaparecer, falava, falava, falava, histericamente, expectante de que as palavras me envolvessem no mundo dos outros. Agora, as várias camadas associaram-se, e no lugar de se criarem máscaras que me ausentam, sou uma estátua oca, vazia, apática, branca. Quando preciso de recorrer a soluções práticas, ocorre-me recordar as histórias das bonecas – os padrões. Mas é inútil. Sou incapaz de me disciplinar. Aliás, neste momento quase não distingo se não sou capaz ou se não me apetece.
(Vivo com esta dúvida em relação à minha mãe. Se é incapaz ou preguiçosa. Também vivia com esta dúvida em relação ao meu ex-namorado. Se era incapaz ou preguiçoso. Até que me apercebi de que essa dúvida me fazia ser condescendente com eles – não exigir nem esperar nada de útil, ignorar quando erravam e elogiar quando acertavam.
A minha mãe não me bate nem berra comigo, a minha mãe finge que não me ouve, e eu repito-me tantas vezes perante a ausência de resposta que chego a duvidar se terei falado ou não. Eu não a culpo das escolhas que faço, culpo-a das opções que reconheço. Chego a um ponto em que me apetece abaná-la.
O meu ex-namorado ausentava-se quando eu estava em apuros «para não incomodar». Expliquei-lhe que não precisava de uma planta. Repeti-me tantas vezes e mudei tantas vezes de estratégia de comunicação: conversar, conversar eloquentemente, conversar com termos simples (passei-lhe um atestado de estupidez, a uma dada altura), pedir por favor, exigir, ser-lhe útil para dar o exemplo, ignorar os pedidos de socorro dele como troca justa, humilhá-lo, vingar-me. A melhor resposta que conseguia da parte dele era «não tenho obrigação».
Aliás, a maioria das pessoas rege-se pela moral de que não tem quaisquer obrigações de prestabilidade para com os outros, e fazem o que gostam de fazer por quem gostam de o fazer. Não posso estar certa e o mundo errado. Mas não compreendo um mundo onde eu dou e quando peço o retorno me respondem que sou muito exigente e dramática.
Estas respostas movem o chão, originam crises de valores, que me levam a pensar e repensar as relações, reformulando alternadamente a minha postura entre negociante e abruptamente honesta. Com episódios dramáticos de sensação de desmistificação de uma relação forte, em que duvido do significado verdade/ mentira da relação. Contabilizo os erros e as humilhações, para reformular e gerir a hierarquia até voltar a normalizar os sentimentos em relação ao outro.)
Recordo as bonecas, os padrões… Estou morta. Recuso-me a criar. Estou inábil para criar outros. Estou suspensa e flutuante. Vaga. Contudo, não distante. Existo. Mas não sou nada. Quando era inexistente, era tantos, era numerosa. Pairo. Reflito-me. Reflito como um vidro transparente e luminoso, de uma vitrina vazia. Os cabides são nus, desinteressantes. Hoje sou uma exceção. Digo: não me apetece. Sou uma criança. Com gestos pueris. Não há maneirismos tensos e controlados. Há impulsos impertinentes e indolentes. Pareço determinada, não há indecisões absurdas, não há que escolher entre o que penso e o que sinto. O que digo são balas. As palavras são firmes. Não me contrariam. Não são próprias de apenas um fragmento meu. Há algo de uno. E oco. A ausência do puzzle. E a esterilidade. Estou de luto e sou estéril. Mas existo. Estou infeliz. Não estou histérica a recriar personagens e soluções – o Outro-Inexistente, extinguiu-se. Pairo, suspensa. Não sou outro, contudo também não sou eu, não sou ninguém. Sou zero. Sou vácuo. Mas não anulado. Não conformado. Não passivo. Sou zero. Não tenho nada a perder. Agora tudo é possível. Agora poderia querer tudo do mundo: quero tudo, quero queixar-me, estou insatisfeita, tenho desejos, exijo tudo aquilo a que tenho direito, não me apetece cumprir mais deveres, parti a régua mental que analisava constantemente o meu nível de autocontrolo, sobriedade e utilidade, rompi a corda esticada obsessivamente, os limites, portanto, não, agora, não quero nada do mundo. Pairo, suspensa. Óbvio que sim. Óbvio que não. Óbvio que sim. Óbvio que não.
A apatia emocional combinada com a recusa em agir, formula uma nova família interior, não digo identidade, porque além de que não me reconheço nela, combina diversos membros, o pensar, o sentir, o falar, o agir. Fui mestra da ausência, do labirinto entre o eu e a máscara, da censura, do esquema, da conveniência. Formulei uma nova família interior que castra o poder da indecisão, tornando-me coerente, contudo, continuo a não ser inteira. Existe uma nova sensação de uno. No entanto, essa unidade das fragmentações é vazia - é maciça, e não plástica ou elástica, como antes. Perdi a habilidade para adaptabilidade. Sou determinada. Mas vazia.
A minha vida interior é a racionalização da insanidade do facto de viver como uma boneca, óbvio. O que não era óbvio era o facto de me relacionar com os outros como se fossem também bonecos, esperando que respeitem seguramente o quadro estereotipado que sistematizei para prever os seus comportamentos, e deixando-me apavorada quando não correspondem à figura. Assim vivo dentro de uma casa de bonecas, onde faço questão de garantir a presença das figuras essenciais: o correto; o impulsivo; o manipulador. Quando o correto erra, é egoísta ou deixa de ser moderado, quando o impulsivo é autocontrolado ou prudente, quando o manipulador é transparente ou espontâneo, julgo que todas as pessoas têm dois lados e torno-me sarcástica.
Oh, o mundo e maravilhoso. Oh, o mundo e uma m*rda.