quinta-feira, 7 de março de 2013
Faz-de-conta
Tenho sonhos monocromáticos, apáticos, ausentes, distanciados, vagos, esquecidos. Sem prazer, sem curiosidade.
Tenho sonhos excessivos, garridos, taquicárdicos. Dos quais, e pelos quais, me sinto violada e roubada.
Tenho sonhos de uma inquietude-constante, que traduz o desgosto a que chamo conforto.
Contudo, não tenho sonhos. Se esta luz é azul...
Cercada dos meus próprios esquemas mentais, estou isolada, por detrás de centenas de camadas de farsas, contenções, e moderações para suportar a dor - AUTO-CONTROLO, AUTO-CONTROLO! - : «tenho fome?» - faz-de-conta que não; «tenho sono?» - faz-de-conta que não; «não suporto esta dor?» faz-de-conta que não existe.
Não me queixo. Sou inexistente. Assim, sou dissociada, transformei-me na mestra da ausência. Repito: (faz-de-conta-que) «não sinto!, é mentira!»; «não penso!, estão errados!»; «não é real!; estou a sonhar!». Faz-de-conta que é inexistente.
Sou inexistente. Ausente, dispersa, fragmentada, desgarrada, multiplicada.
Contudo, trata-se de uma substância pouco consistente – a luz que vacila nos olhos. Como a inconcretude - afinal - das palavras. Só o músculo taquicárdico, o passo incerto e os tremores das extremidades são dúbios.(Digo eu.) Certo? Tudo é incerto. Dependente. Reaccionário. Injustificável! Químico, instantâneo. A contrariar a realidade propositadamente. Certificando a solidez. Contemplando a liquidez. Fragmentado em intermitências: ora verdade, ora mentira, ora a falar, ora a olhar; ora verdade, ora mentira, ora a tocar, ora a desviar; ora verdade, ora mentira... Hora de ilusão. Recusando a abdicação do vapor. Ora memória, ora...
Sou demasiado pesada - como se tivesse uma âncora amarrada aos pés - para conseguir levitar, e simultaneamente, demasiado leve - como se tivesse os braços abertos e os pulsos pendurados em balões - para conseguir enterrar os pés no solo.
Nem flutuo, nem acolhero o solo.
Dilato, esticando a pele-de-borracha-vermelha até ao limite máximo. Enforco-me com o cordão de linho do balão. Oh!... O pescoço do cisne.
Fui demasiadas pessoas e visitei demasiadas terras. Pesadelos e maravilhas. Mas tudo irreal. Continuo a preferir a sobriedade. Continuo a preferir o oxigénio. Um dia!, - vou ser eu. Ah! Continuo a viver atrás de uma janela de vidro que não posso partir para tocar o real. Por mais ferramentas que invente. Por mais soluções que conjecture. É inútil. É irreversível. Sou impotente. Um dia serei feliz. Por mais que grite por socorro, do outro lado da janela ninguém me ouve, ninguém vê os acenos: «adeus, adeus!, estou a desaparecer.». Não existo. Não existo. Sou um fragmento qualquer. Que bóia com os pulmões sufocados. Uma bóia morta. E histérica.
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