sexta-feira, 8 de junho de 2012

Luz de Cimento

Imagem: René Magritte
Voz 2-Como uma moeda. Voz 1-Tem dois lados. Voz 2 -Todos temos dois lados. Voz 1 -Honestos. Educados. Prestáveis. Generosos. Voz 2: -E Realmente, desonestos, observadores-com-fins-manipuladores, com gosto pela humilhação dos outros. Voz 3: -Sssssht, cala a boca. Vai p'ró Inferno. Voz 4: -As pessoas são inteiras. As pessoas são inteiras. Voz 5: -Sim, as pessoas são inteiras, não têm uma aparência honesta escancarável, e uma sombra real manipuladora. Voz 3: (levando o dedo indicador ao nariz) -Pffffff... Não vás na conversa dela... Voz 4: -As pessoas são inteiras. Voz 3: -Well done. Continua o jogo das aparências. Vais conquistar a confiança dela. Quando ceder a vulnerabilidade, revelará a fraqueza. Voz 2: -Todos temos dois lados. Voz 2: -Acordei com uma dor de cabeça insuportável, passei o dia num estado de exaustão e náusea inderrotável. A par disto, um estado dissociativo sem brechas por onde me escapulir para a realidade. Entretanto submergi para um estado de imobilidade tanto física quanto mental, e alteração de percepção - por exemplo, ausentando o valor das cores, formas e texturas do concreto e palpável, e realçando a solidez e condensação do espaço vazio, do espaço negativo entre as presenças. Integrando-me eu-corpo-mente nessa matéria invisível/ impercepcionável aos outros, que assim se tornavam alheios a mim, por não pertencerem à mesma matéria (in)orgânica que eu. A sensação de ser integrante de uma realidade de dormências, de aparições electro-estáticas (que induzia ao permanente estado de suspeita/ desconfiança/ investigação do que seria tangível ainda mais adentro do nebulosa vaporosa - paranóia), evocava surtos de sobrevivência dos quais eu garanto não ter domínio, expelindo frases-emblemas de socorro, na tentativa de inteirar os outros da minha alienação como "não sei o que se está a passar", "não é voluntário", "não tenho nada a ver com isto" - pois era-me impossível interromper a sucessão de espasmos contra as paredes, esticões dos braços contra o peito e contra o pescoço, como punhados que me violavam, resultando numa coleira de pisaduras. Ironicamente, espancavaa também o peito simulando uma reanimação. Quando a força maior das contracções me levaram à rendição perante si, não consegui mais interromper a canção de gritos agonizantes que me asfixiavam. O resultado era uma harmonia de alternações entre o berro-contínuum e o punhado contra o peito. Uma dor de cabeça cilíndrica em movimentos crescentes ora me cegava celando-me na realidade das dormências e presenças existentes enquanto sombras suspeitas, ora me surpreendia com lapsos da realidade concreta e ambígua, por oposição à realidade confinada a um mundo restrito de suspeitas de cimento ou de luz incisiva e simultaneamente de uma frágil delicadeza, por ser tão indolente. O pulsar e dilatar da cabeça grossa inclinou-me o corpo para o chão, em direcção ao lado esquerdo. O episódio cessou com uma convulsão que iniciou com tremores nas pernas e rapidamente se transformou num frenesim de esbracejares e contorções do pescoço, tendo-me o peso das pálpebras impedido de acompanhar o trajecto dos membros vigorosos ramificados do tronco-torpo que expeliam fortemente os objectos em redor, não com o propósito de os escorraçar mas com o desespero moedor por tocar em algo sólido. Irrompi a tensão com um vómito espumoso. Reclinei-me para o lado esquerdo para facilitar o vómito. Escolhi sentar-me, voltei-me para trás e cima e informei as pessoas que me acompanhavam "estou sóbria". Entretanto fui degulada pela sensação de culpa e vergonha por sujeitar alguém a testemunhar o episódio e chorei avassaladoramente - o rosto precipitou-se, moldou-se como uma nuvem calcificada de Inverno, antes que me fosse possível acompanhá-lo interiormente, precipitou-se em precipitação, era chuva grossa - enquanto me esforçava por consertar os danos, limpando e arrumando obsessivamente. Informaram-me que se aperceberam de que algo não estava bem por me terem encontrado num estado aparentemente ausente, fixada no vazio e a apalpar o rosto. Ao que eu respondi "era-me tão difícil responder o inócuo não sei, sucessivamente, às vossas perguntas preocupadas". Toda a diligência: na restituição de informação acerca da desordem interior (não sei!), na investigação das palavras certas (não sei!), no esforço bocal de pronunciar as letras desconjuntadas (n-ã-o s-e-i!. (O receio que antecipa a incapacidade de pronunciar sequer um bocejo nervoso que evidencie o esgotamento.) O som. O som "não sei", o som "AAH!" O som era a única canalização talvez-possível para o talvez-real. Como sempre: o som: o grito. Carrego o emplastro da inexpressão. Podia amputar a minha boca. Oprimir a própria ausência. Personalizar o insufrível. Todos me julgam somente fria. Só-mente. Só. ("Ela só mente" - comentam pejorativamente as fortes presenças vácuas. Em segredo. Contudo, pensei alto, estéril do direito da reserva) Só a solidão é cinzelada numa massa consistente.