domingo, 15 de abril de 2012

Intermitente














Van Gogh - O Quarto

No abandono à insensibilidade dos sentidos, sonhava. Sonhava dentro do sonho. Sonhar que se sonha é por si só um pesadelo. Mas à parte disso, sonhava que sonhava pesadelos. Nesses pesadelos, eu desmaiava constantemente, e não conseguia acordar-me. Forçava a vigília debruçando o pescoço num esforço delinquente, e revolvia em queda para dentro de mim como um peso morto. Durante esses desmaios, a consciência imaginativa alertava-me para os gritos da minha mãe no seu quarto, ela também desmaiava sucessivamente. Procurava em vão dominar os nervos dos braços, em vão agitava-os só mentalmente, na ilusão irrisória de que o meu companheiro enfraquecido sobre a cama amortecida pelo seu peso e sono percepcionasse o meu sofrimento, para ali atirada ao chão, como que engasgada entre o volume de móveis em antecama. Até que, pensei, que toda a situação era demasiado severa para ser real. Pensei, que talvez entre todo aquele suor e asfixia, e gritos que me enrouqueciam apesar de não serem audiveis, talvez, eu não estivesse realmente desmaiada, mas sim a sonhar que o estava, e então toda a dormência que sentia nas pontas dos dedos e vacilava em direcção à mão esquerda, talvez, não fosse provocada por um ataque cardíaco, mas eu apenas tivesse adormecido sobre ela, e transcrevesse a sensação para o sonho, assim o calor também era explicado pelo aquecedor que ficára ligado, e a asfixia pelos cobertos enrolados, ou pelo braço do meu companheiro. Pensei, que se descontraísse e me abandonasse, talvez, acordasse do sonho dentro do sonho, se parasse de o combater, o calor não seria tanto, ao menos. Parei. Ainda assim continuei a gritar incansavelmente. Terminaram os desmaios. Ainda assim não ouvia os sons descomprimidos pela minha garganta. Contei de dez para um, e reuni todas as minhas forças adormecidas para gritar ao mesmo tempo que tornasse os músculos hirtos, na expectativa de que o resultado fosse o acordar em sobressalto. Apesar da agitação interna que consumia o meu organismo e o meu cérebro, que tornava o meu inconsciente demente, não aconteceu mais do que as minhas pálpebras se descolarem vagarosamente. Olhei para o lado. O corpo ao lado do meu corpo respirava e dormia. E o meu corpo parecia tão sossegadamente repousado, dentro do volume pesado de cobertores de uma cama onde não aparentava que tivesse adormecido algum corpo frenético, aliás, parecia mesmo que a cama mal tinha sido usada, como se tivesse acabado de me deitar... A minha cabeça descansada sob a almofada, não indicava qualquer desespero, o cabelo ainda estava alinhado como quando me recostei. O esforço foi em vão. A agonia é um qualquer abstracto. Não há indícios concretos de sofrimento ou, sequer, de fadiga? Penso, será assim que vivem tantos comatosos? O que interessa é que despertei dos desmaios que animavam o pesadelo dentro do sonho. Estou aqui. Respiro fundo, e volto a adormecer.


Apoio-me no corrimão. Percorro a escadaria. Abre-se ao fundo do corredor da memória um vão. Onde isolo este episódio como a um passado medíocre. Baloiço a cabeça.