quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Traição: Vingança ou Justiça?














O monólogo deve ser ritmado por ligeiras alternâncias no tom de voz que quase sem propósito demarcam um diálogo ora auto-condenador (activo) ora lamentador (passivo).

(Constatando num tom justificativo) Sim. Eu sei. Logo eu. Que tenho a mania. Ainda pra mais eu. Que tenho a mania: que sou correcta. Não, não. Nestas circustâncias... Nestas circunstâncias de jogo um para um: EU (pausa) SOU JUSTA. Chamo-lhe justiça! (irónico) Chamemos-lhe justiça. (mudança de tom de voz) Assim me convenço de que de facto a justiça é para os fracos. Para os mais fracos. (mudança de tom de voz) Só o faço porque ele assim o merece. Eu gosto mais dele do que ele de mim. E eu deveria exigir uma maior consideração pelos meus sentimentos, (se tivesse um palmo de dignidade) mas como tenho medo de o asfixiar... Desisto. (suspiro) Impludo. E depois vingo-me. Dou-lhe umas facadinhas nas costas. Não é vingança é justiça. Ora porra. Eu gosto inteiramente. Eu só sei gostar inteiramente. Não sei“gostar, vá”. Ou gosto, ou não gosto. E ele partilha o gosto por mim e por outra. Portanto, ele é quem tem obrigações quanto a prestar provas, ele é quem deve declarar tréguas amorosas. Eu não. E por isso travo batalhas interiores. Para não escrever palavras idiotas... no tecto do quarto... com batôn... Controlo-me. Para não exigir um beijo de despedida à porta de casa quando os amigos estão de rondo. Controlo-me... Para não partilhar uma merda de um cigarro na esplanada. É que quando exigimos insistidamente e somos renegados consecutivamente... Já não estamos a exigir, já estamos a suplicar. E a sujeitar-nos à suplica novamente. À inferiorização. Por isso guardamos o nosso amor para nós. Só para nós próprios. Eu pelo menos faço-o. (Falei no plural para não me sentir tão ridiculamente só. Tão estúpida) O que só revela que sou fraca. Como sou fraca. No lugar de afirmar o meu amor e correr rumo a todas as fronteiras, torço os dedos dos pés para dentro. Para não me sentir inferiorizada. Resumindo, sou fraca para não parecer fraca. E depois vingo-me. (pausa) Para me sentir vencedora. Para me sentir vencedora, sou ainda mais fraca. (pausa) Reprimo-me. Para dar só o que me dão. Para parecer satisfeita. Para não parecer fraca. Não. Digo: Não! Sou apenas conformista. E depois repreendo-o. Por não saber ser inteiro. Pois coloca em questão a integridade. A integridade... Meu Deus! Quando eu o traio! Eu, que repito orgulhosamente, diariamente, para todos os toma-cafés da praça, a máxima da auto-gestão: RECTIDÃO DE CARÁCTER! Pois, não sou fiel nem a mim mesma.
Vou mas é encasacar o amor e bater o dente para outra banda. Tenho frio. Por dentro. A gabardine não me chega. Preciso de a despir. E lá acabo eu nua outra vez. SEM CUECAS NEM EGO F*DA-SE!
TÁÁÁXIII...!







TÁÁÁXIII...!
-O costume?
-Sim.