sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Um Sofrer Inútil














Amar-te-ei sempre, sofrimento em percurso. Porque sou viciada no percurso. No ritmo. No viver. Renego o suicídio. E quanto mais o anseio. Quanto mais íntima é a minha relação com o suicídio. Quanto mais o venero. Me apaixono. Mais o reprimo. Mais o condeno. Quanto mais me sufoca cada inspiração. O suspiro que já não alivia. Mais o oprimo. Opressão, opressão! Nesta hora em que já nada me alivia, me descansa. Em que tudo me desfaz. Tudo em mim se desfaz. Em que o único soro possível seria o sono calado. Sem sonhos. Sem pesadelos. Sem espasmos. Sem insónias. Sem pânico. Somente sono. Sem taquicardia. Sem hiperventilação. Sem bichos que me comam por dentro. Intestino. Estômago. Laringe. Pulmões. Coração. Veias. Cérebro e tudo. Comam tudo de uma só vez. De uma só assentada. Não se fiquem pelas entradas. Pelas entranhas. Devorem os nicos e depois os nacos. Mas comam tudo de uma só vez, por favor. Um sono sem saltos espasmados de pulgas dentro dos lençóis, sem pós desaparasitantes intoxicantes, que me ferem as narinas. Que me ferem a pele! Que me arranham os olhos. Que os mordem. Que são como bichos. Que me tragam por dentro e por fora. Um sono sem gritos zunidos de monstros que me querem matar. A minha família monstruosa. A minha família é um monstro inteiro e guloso. A minha família espera que os bichos me comam toda. Deixam-me deitada sobre a cama a apodrecer. E quando calha deixam-me comprimidos:”para te desparasitares”. Depois fecham a porta e deixam-me rodeada dos pós e dos bichos, com dois comprimidos na palma da mão aberta. E eu sou devorada. E assassina e assassinada. Para os bichos, pelos bichos e pelos monstros. Tudo em mim é assassinado. É por isso que me quero matar. Para não ser assassinada. Não aguento o sofrimento longo, lento e moroso. Cheio de pormenores. Não aguento que de vez em quando me sinta bem. Lembra-me de quem era. Não aguento aperceber-me de que estou a ser assassinada por bichos e por monstros. E de que sou incapaz! É demasiado grande para mim. É maior que eu. Muito maior. Muito maior. E ninguém me ajuda. Ninguém me ajuda. Ninguém me ajuda. E pensam que sim. E eu tenho de agradecer. Um obrigado inútil. Tenho alguma dignidade. Mesmo quando está para ser assassinada ou para se suicidar, uma pessoa merece alguma consideração. Quanto mais não seja porque decorre o acto mais cobarde de toda a sua vida. O renegar do sofrimento. - A morte. O suicídio, vá.- Um sofrimento com o qual já não se aprende nada para a próxima experiência: porque já não há próxima. Um acto tão redentor, que já não sugere que salvemos o outro quando não nos conseguimos salvar a nós próprios. O acto mais nobre, reconhecendo a impotência e assumindo a derrota. O acto mais bem conseguido, sem margem de equívoco. O alcance do objectivo mais esperado na data: o descanso merecido. Não, não, não. Renego-te vida, porque já nem vida és. Sobrevivente esgotado, sobrelotado, anulado. Renego-te morte, porque não mereço tão sereno descanso. Quantos outros sobreviventes sofredores não aguentam em nome da pátria, em nome de uma política, de uma religião, de um filho, de um sonho de vida. Um ideal qualquer que os mantém em pé, com os pés assentes na terra. Acorrentados àquela outrora com o nome de vida. Mas eu não. Eu não tenho ideal algum. Eu apenas repito para mim num cansar incessante “correr, correr, correr, correr,correr”. E quando por brevíssimas fracções de segundo sinto o sangue com mais vida que doença correr-me nas veias, penso que “ainda não comecei”. Como se tivesse uma obrigação para com o mundo que me impedisse de me matar. Para logo a seguir ao pico se seguir a queda tão dura e deslizante, que me faz querer tanto mas tanto matar-me... E pensar que ainda não comecei. Pensar que nunca começarei. Pensar consolada que talvez nunca sequer começasse. Tivesse direito a começar. Oportunidade. A oportunidade agora é outra. Por isso eu renego-a. Nunca me matarei. Nunca me matarei. Não me quero matar. Não quero morrer. Só quero matar-me. Só quero matar isto. E voltar a ser eu. Porque ainda não comecei.
Somos todos heróis.u

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Em Tereza



















Tereza. Tereza era o nome da estação onde entrei no autocarro que me levou a conhecer tantas paragens através do vidro da janela.
Tinha-me esquecido. Esquecido de mim. Do que é ser eu. Aglutinada nos outros, desencontrei-me de mim mesma.
Hoje revi-me em Erica Strange. Antes, ainda, em Ally McBeal.
...
Assistir à absorção da pecularidaridade de cada aldeão, que se envolve e esborrata numa gota de chuva grossa suavemente pendurada no vidro da janela do autocarro, dispersando-se, difundindo-se, volvendo-se una numa apertada multidão homogénea. BLÁ, BLÁ, BLÁÁ...! Isto não interessa a ninguém.
Desaparecendo na curva da estrada, vi Ally.
Ally, pelos passeios da frenética Nova York, atingida pelo cotovelo de um estranho, reage ao pedido de desculpas: “ Ei! Espere! Não, não desculpo! Porque me pede desculpas se não se sente na obrigação de o fazer?!”. O cansaço dos formalismos. Os seres humanos desumanizam-se nas mesmas estradas que os humanizam. Esquecem-se. Esquecem-se de si. Esquecem-se dos outros. Esquecem-se que por detrás dos fatos dos advogados estão pessoas. Pessoas iguais a nós. Iguais a nós! E é suposto existir um nós. Um nós extinguido, anulado por todos os formalismos e convencionalismos. Dos pedidos de desculpa sem sentimento por causa dos cafés entornados. De facto, é uma situação que exige um pedido de desculpa. Mas não um pedido de desculpa educado, carregado da obrigação de não parecer um macaco. De justificar as indelicadezas. De se justificar, entrar no carro e prosseguir viagem descansadamente até à empresa, sem um mínimo peso na consciência. Onde por acaso, o desconhecido que cotovelou também trabalha. Mas no qual nunca reparou. Porque quando passa pela portaria, despacha um bom-dia automático sem cruzar o olhar com o porteiro. Carregado da obrigação de não parecer um macaco. Mas todos estes comportamentos mímicos, mecânicos e automáticos, não são mais profundos do que as macaquices. As macaquices que vemos na selva. Na selva televisiva, com o comando na mão. O National Geographic é mais acessível do que o Zoo. Mas as estradas urbanas ainda o são mais. E todas estas tentativas de nos orgulharmos de sermos bípedes, são ferozmente traídas. Um ser humano quando pede desculpa a outro, deve sentir sinceramente, e não gorgolejar. Incrível!, como viciados na justificação, no ego, nos esquecemos dos outros. E assim, nos esquecemos de nós, de quem somos. Enquanto seres individuais e enquanto pássaros do mesmo bando. Como se fossemos gaivotas. Que andam sempre em bando mas são individualistas, arroaceiras. Sobrevivem. É nisto que nos tornamos: sobreviventes. Que para isso se toleram. Que vivem do que é aceitável sem nunca questionar. Uns imunes, outros implosivos. Esquece-mo-nos de sentir e de manifestar a intolerância. Esquecemo-nos de ser seres sensíveis e vivemos da mediocre hipocrisia intelectual. Incrível!, como viciados no verbo, se recebermos um pedido de desculpa sincero através de um sorriso, não reparamos nele (um macaco aperceber-se-ia), continuamos a olhar para baixo e resignamo-nos com o estranho que nos cotovelou e, grosseiramente, se calou. O que vale é que a extensão da nossa memória a longo prazo, cada vez se aproxima mais dos limites da memória a curto prazo. (Não vão estas ofensas marterizar-nos noite adentro. Ou sim, pelo menos já teriamos argumento entusiásta que acompanhasse as nossas caprichosas inónias solitárias.) Pelo menos no que diz respeito a realmente conhecer as pessoas. Conhecer. Tenho-me apercebido de que, em toda a dinâmica social actual, alguns rituais da pré-história permanecem, nomeadamente, o facto de quando realmente pretendemos CONHECER alguém, sentir-nos íntimos e preenchidos, optamos por acasalar. E a partir daqui sentimo-nos entregues e recebidos.
Ally relembrou-me de que, nem todos os comportamentos mais aceitáveis são os mais correctos. Relembrou-me de que morder os lábios apreensivamente, procurando implodir as intolerâncias – receando parecer-mo-nos com macacos - no lugar de ousar contestar, de arriscar afirmar uma posição, por mais inconvencional que seja, e por mais que nos faça sentir desaprovados e desintegrados, nos torna mais humanos. Porque fomos aparentemente egoístas sem nos importarmos. Fomos realmente generosos. Portanto que se foda a intelectualidade, o que importa é a paixão. A paixão por sermos o melhor de nós próprios, mesmo na sombra, e pela empatia.
Erica Strange, relembrou-me...
Actualmente, eu revia-me na primeira Erica. Na Erica desistente. A Erica que deixára de procurar o amor. A Erica conformada com a felicidade que provinha de uma ideia fácil, a ideia de que o amor suficiente sempre surgirá, bastando investir no homem que preencha alguns dos requisitos da lista perfeita, ou até mesmo no homem que não preenche requesito nenhum. Porque no investimento construtivo encontramos a solução. Mas não. Não basta a construção. A construção leva-nos a gostar tanto que somos incapazes de fazer mal. Que somos incapazes de traír. De exigir ao outro algo que o faça infeliz, por mais que a nós nos fizesse felizes. Porque o colocamos à frente. Porque somos generosos. Mas a construção não basta para amar. É preciso desejar. E é preciso admirar. Porque amor sem paixão não preluz. Quando admiramos... Quando admiramos... Quando admiramos sentimo-nos pequeninos. Iluminados por uma força maior e inatingível. Julgamos que ele veio do país das luzes para salvar o mundo. Quando desejamos, somos incapazes de ser inteiramente coerentes. Porque metade das palavras são silêncio ou música. Porque nos perdemos no labirinto de cicatrizes que risca as palmas das mãos possessivas. Porque todas as imperfeições são belas. Não Erica, o tal, não é o nenhum. O tal, é o tal. Por isso arruma a tua literatura desistente na gaveta da vida de ontem, e apaixona os teus leitores. Eu também voltei a escrever para o amanhã. E pára de escrever sobre coisas que não te dizem nada só para te sentires um mutante transcendental. Escrever sobre nós próprios... é muito mais estranho e perigoso. É olhar para dentro, assumir e revelar. O teu público agradece-te por o fazeres sentir-se vivo.
Falei de tudo menos de Tereza. O lugar de Tereza é demasiado íntimo, nem a força de todas as minhas fraquezas o conseguiria pronunciar. Mas Tereza está em todas as palavras.
Tereza entrega-se a um homem. Tereza entrega-se a uma mulher. Tereza entrega-se a um cão. À política. Ao país. Ao estrangeiro. À fotografia. À literatura. À dança. À água. Tereza entrega-se. Tereza não esconde, não escapa, não finge.
A insustentável viagem de Tereza recomeça na paragem de cada ser.
Não prometo nunca mais me desencontrar do meu ser. Mas prometo: guardarei sempre o bilhete na algibeira do meu casaco vermelho. Não do autocarro abstrato. Mas de um cinema concreto. Só para o caso de, alguma vez, vir a reencontrar no espelho uma Sabina desacreditada que vai sempre embora.