Não há horas. Não há paragens nestas viagens. O metro da cidade, vermelho e cinzento, despede-se de mim sem dizer adeus. Perdi-o outra vez. Acenei ao motorista e ele sim, disse-me adeus. Estanquei na berma da linha férrea. Reparei na chuva grossa que apodrecia na madeira molhada. Não sei porquê. Também reparei que tinha os sapatos desapertados. Também não sei porquê. Se calhar, quando vemos a vida fugir-nos num metro, e acenar-nos prazenteira, deixando-nos a sós com um golpe de morte sem fôlego, é tudo isto que podemos ver. Os pormenores insignificantes que significam a memória de um momento de desamparo. Arranhei o forro do bolso sujo, expectante de que os dedos engelhados se anilhassem a um fósforo por ali deixado, um cigarro por ali esquecido.O vícios... relembram o espírito da sua humanidade. Os vícios, os excessos, as paranóias. Pontas de cigarro e sensações de perseguição, sensações de que toda uma multidão cruza olhares propositadamente descruzados logo do nosso! Que terá o meu azedo olhar de vingativo? Que terá a minha boca de tão mordido, que me acuse o nervosismo? Que terá o meu passo-a-passo de tão arritmico, que me denuncie enlouquecido? Que terão as minhas barbas de tão fortivo, que se demorem no pensamento de uma vaga multidão? Que terá o meu engenho de tão cativo, que amedronte o meu psicólogo?
...Acabo na doca, onde começo o devaneio, voo com as gaivotas que me pousam num cruzeiro. As algas pegajosas cospem o esgoto maré adentro, onde eu me intrometo, páro, espero e abandono. Só. Tão só no nó desta forca apertada, maré interior.
