domingo, 25 de novembro de 2007

Oscilação


Fascina-me viver à beira do precipício, perto de cair no vício. Inspirar vertigem, turbulência, frenesi, inconstância!
Odeio profundamente os hábitos, os costumes, a rotina, o raio da engomadeira do Cesário Verde. Ignoro radicalmente as tradições, os convencionalismos, as formalidades. Repugnam-me. Entediam-me! Não é que repele o que me é impróprio, aliás, é a corporização do desconhecido que me personaliza. Experimento. Mas não metamorfoseio para o impróprio.
Sinto que voo, que sou garra do impulso quando rebento de espontaneidade.
E isto é noite em mim. Furacão. Na noite as pessoas são mais elas próprias, despem-se de preconceitos.
Mas o auge não precisa de ser sempre fúria. Grito! Choro! Alarigo! Gargalhadas! Pode ser apenas um sopro de silêncio, um rubro no rosto, um pasmo. E o mergulhar na sensação, o explorar das arestas de um corpo quente e vaporoso.
Até que me canso de beber das escorregadias águas do vício...
Findo o máximo, que rola alucinação e força fora, abarco no silêncio. Dispo-me e despeço-me das roupas de Março, e preparo-me para o frio do dia de hoje, Janeiro.
Madrugada em mim.
A fadiga das palavras, da socialização, da própria oscilação vibrante.
Entra em cena o clímax da perdição em rua choradia… onde fantasmas de sentimentos insistem em assombrar-me, esticando para mim as suas mãos carentes e possessivas, baloiçam inquietantes pelos tectos da alma…
Contra-ataco. Ergo dentro de mim paredes de gelo, feitas de tijolos de indiferença e de cimento anti-sentimentalista. Insensibilidade.
A cortina de neblina matinal, o orvalho de ópio, protegem-me das borboletas nocturnas. Agasalho, ilusão. Os indícios de saudade da noite que sopram levemente na pele… Não deixo que me traiam, que me mordam o pescoço!
Sou desatino, oscilação: madrugada plácida e tempestade tumultuosa.
E no fim de tudo isto, acabo só, a mendigar umas medrosas e sujas migalhas de afecto...